Período chuvoso traz oportunidades para ações de prevenção de queimadas subterrâneas

Período chuvoso traz oportunidades para ações de prevenção de queimadas subterrâneas

Fechamento de drenos é maneira eficaz de acabar com queimas das turfas no período da seca, diz especialistas.

(Foto: Satélite/ Mapeamento: Alan Russel e Rafael Robatine).

Reportagem: Alan Russel

Recentemente a população de Lagoa da Prata sofreu com os efeitos causados pela fumaça da queima da turfa subterrânea na região do Bairro Palmeiras. No mês de setembro, durante uma semana inteira, o subsolo queimou constantemente e foi necessário a ajuda do Corpo de Bombeiros de Formiga para controlar os focos de incêndio. O período de seca acabou, as chuvas já dão o ar da graça na região e, por enquanto, não há risco de novos incêndios subterrâneos. Mas é necessário que o poder público e as empresas envolvidas na exploração imobiliária da região realizem ações preventivas para que no próximo período de estiagem, a cidade não volte a sofrer com a fumaça tóxica da queima das turfas.

Batalhão do Corpo de Bombeiros precisou ser chamado para conter chamas. (Foto: Alan Russel).

Ambientalistas, Corpo de Bombeiros e até mesmo o secretário municipal de Meio Ambiente Lessandro Gabriel salientaram naquele momento que seria necessário fechar os drenos existentes na região onde aconteceram as queimadas. Com o fechamento dos drenos, a área receberia o excesso de águas da lagoa do Palmeiras e, naturalmente, se transformaria novamente em área pantanosa, evitando assim futuros incêndios subterrâneos na região.

 

Em um passado recente a região do Bairro Palmeiras era uma vereda, conhecida como brejo do Chico Cadeado. Os drenos que lá existem são intervenções realizadas com o intuito de secar a área para expansão imobiliária.

Mesmo com diversos setores da sociedade comungando da ideia de que é necessário fechar os drenos da região, o município até então não realizou nenhum trabalho e já perdeu a primeira oportunidade de aproveitar das águas da chuva para recuperação da região pantanosa. Na primeira quinzena do mês de outubro choveu muito em Lagoa da Prata e em uma única noite foi registrado mais de 70 milímetros de pluviosidade (o equivalente a 70 litros de água por metro quadrado). Essa quantidade de água de chuva foi o suficiente para a lagoa do Palmeiras encher e jogar o excesso de água na região onde aconteceram os incêndios subterrâneos recentemente.

Como se pode ver nas fotos abaixo, existem duas manilhas na lagoa. Essas manilhas servem para escoar o excesso de água da Lagoa. Quando a Lagoa enche em decorrência das chuvas, o excesso de água é escoado por essas manilhas, que passam por debaixo do asfalto da Rua Ângelo Perillo e cai direto nos drenos do antigo brejo do Chico Cadeado.

Porém, com os drenos ainda existentes, a água que poderia alagar a região que sofreu com as queimadas das turfas, está correndo pelo drenos e indo para outra vereda, que faz parte do complexo de nascentes da Lagoa Verde.

A reportagem do Jornal Cidade esteve no local para entender como funciona o sistema de drenagem na região. Nas imagens abaixo é possível ver o mapa via satélite da região e fotos dos drenos.

Sistema de drenos no complexo de nascentes da lagoa verde. (Foto: Satélite/Mapeamento: Alan Russel e Rafael Robatine).

Drenos na região da lagoa dos Palmeiras. (Foto: Satélite/ Mapeamento: Alan Russel e Rafael Robatine).

 

Diversas lagoas na cidade foram drenadas para expansão agrícola

A região do Bairro Palmeiras não é a única área drenada do município. No início da década de 80, o Governo Federal implantou um programa para expansão agrícola chamado Programa nacional de aproveitamento racional de várzeas irrigáveis (ProVárzeas). O projeto tinha o intuito de drenar o máximo possível de áreas alagadas para a expansão agrícola. Como a monocultura de cana de açúcar já era uma realidade em Lagoa da Prata, a usina Luciânia, como era chamada naquela época, resolveu drenar diversas lagoas para expandir o plantio e manejo de cana na região.

A Aapa fez em 2012 um levantamento em conjunto com o Ibama, onde mapearam e identificaram que ao todo, 38 lagoas foram drenadas na região de Lagoa da Prata. “É um número muito grande de lagoas que deixaram de existir. Porém, se houver um trabalho de conscientização dos proprietários do terreno, a recuperação é possível. A natureza por si só consegue se recuperar. Um exemplo disso é o que a Aapa fez recentemente com as três lagoas que margeiam o São Francisco na região do Coqueiro”, informou o ambientalista Saulo de Castro, presidente da Aapa, que conhece bem a realidade das áreas drenadas e lagoas marginais ao Rio São Francisco.

A extinta lagoa do brejão, que situava entre a cidade e a usina Luciânia, é um exemplo de lagoa que foi drenada durante o projeto ProVárzeas.  O Brejão era uma enorme lagoa, com tamanho de até três vezes mais que o da lagoa da Praia Municipal. Após a lagoa ser drenada, a antiga usina Luciânia realizou plantio de cana no local durante muitos anos. Porém, com o difícil manejo no local, atualmente a Biosev parou as atividades no Brejão. Entretanto, os drenos ainda existem e fazem a captação da água na região, impossibilitando a extinta lagoa de se recuperar.

A região da lagoa do Brejão também já sofreu com a queima das turfas. Há alguns anos, o subsolo com alto teor de matéria orgânica da região sofreu por muitos dias com o fogo subterrâneo que incomodou toda a cidade. Na ocasião, foi preciso um helicóptero do Corpo de Bombeiros para controlar os focos de incêndio. Na imagem abaixo é possível observar a área onde um dia foi a lagoa do Brejão, e a possível área em que a lagoa teria caso fosse recuperada, e os drenos ainda existentes no local.

Lagoa do Brejão foi drenada para expansão agrícola. Caso fosse recuperada seria até três vezes maior que a lagoa da Praia.                                                                      (Foto: Satélite/ Mapeamento: Alan Russel e Rafael Robatine).

 

Após retirada de drenos, lagoas são recuperadas

Existem exemplos em Lagoa da Prata de lagoas que foram drenadas, e que deixaram de existir por muitos anos, mas que atualmente, após o fechamento dos antigos drenos, as lagoas conseguiram se recuperar.

À margem do Rio São Francisco, na região conhecida como Coqueiro, há um complexo que abrange três lagoas (lagoa dos porcos, lagoa dos patos e lagoa das batatas). Durante muitos anos essas lagoas foram drenadas, deixaram de existir e deram espaço para o plantio de cana de açúcar. Porém, o manejo agrícola nessa região é muito difícil e assim como aconteceu com a lagoa do Brejão, a Biosev decidiu não explorar a região. Com o apoio da Associação dos Pescadores Amadores (Aapa), os drenos da região foram fechados recentemente e o complexo de lagoas já é uma realidade novamente.

Saulo foi um dos especialistas que alertaram à necessidade de fechar os drenos dos brejos da região do Bairro Palmeiras, quando a cidade foi invadida pela fumaça tóxica da queima das turfas.

“Atualmente, essas áreas não são mais cultivadas. No entanto, estão sendo utilizadas como pasto para gado de corte. Até porque, ao custo de R$ 10,00 o hectare é bastante lucrativo uma vez que essas várzeas são excelentes para a engorda do gado a baixo custo. Precisamos encontrar um meio termo em que a pecuária de corte e a preservação das lagoas marginais possam coexistir. O que temos buscado é a conciliação entre as partes envolvidas para que uma solução seja alcançada. Não tem sido fácil, mas já obtivemos alguns avanços. O recente Acordo Judicial da Volta Grande é um bom exemplo. Com ele, já conseguimos a recuperação de 4 lagoas (Patos, Porcos, Batatas e Piranhas dentro da Volta Grande). Ainda faltam dezenas para serem revitalizadas, mas acreditamos que com um bom diálogo chegaremos lá”, disse.

O ambientalista salienta ainda que para fechar os drenos, só depende da aprovação dos proprietários das terras. “O trabalho para fechar os drenos é simples, mas primeiramente é necessário que os donos dos terrenos tenham interesse nisso”, completa.

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