Efeitos das queimadas em Lagoa da Prata já causam danos à saúde da população, diz enfermeira

Efeitos das queimadas em Lagoa da Prata já causam danos à saúde da população, diz enfermeira

Ato criminoso tem interferido na saúde dos moradores, principalmente em crianças e idosos.

Foto: Queimadas criminosas também tem ocorrido com frequência em Lagoa da Prata. (Reprodução/Internet)

Matheus Costa

O assunto mais comentado nos últimos dias tem sido a crescente onda de queimadas no Brasil, principalmente na Amazônia. As florestas queimam como nunca nos últimos cinco anos, e de janeiro até agosto deste ano, houve um aumento de 83% das queimadas em relação ao mesmo período de 2018. O desmatamento está matando a fauna e a flora brasileira e a situação assusta o mundo todo. O Brasil já sente no bolso e na saúde de milhares de pessoas.

Minas Gerais enquadra neste quadro alarmante. Imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram o estado em chamas e de acordo com o Instituto, a série indica elevação de 77% no número de focos de calor, em comparação com o mesmo período do ano passado. O aumento de queimadas em Minas espelha cenário parecido em todo o Brasil, com 74.155 focos nestes oito meses, variação de 84,7% em relação ao período idêntico do ano passado.

Em Lagoa da Prata também tem sido possível sentir os efeitos das queimadas. Esse ato criminoso tem interferido na saúde dos moradores. Por aqui, houve um aumento nos atendimentos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em relação a dificuldade respiratória, principalmente em crianças e idosos que sofrem de doenças como asma, bronquite e renite, como contou a enfermeira Iasca Reginalda. Ela atende casos diários de pessoas que sofrem com a fumaça.

O Jornal Cidade conversou com o secretário de Meio Ambiente Lessandro Gabriel, que informou que a maior parte destes crimes ocorrem em terrenos baldios, onde o fogo se alastra. Mesmo com a existência de leis que proíbam atos como este de qualquer forma, sejam em canas, lotes vagos ou folhas em quintais, muitas pessoas não respeitam. Porém, conforme ele, é muito complexo encontrar os criminosos.

“As queimadas nas cidades ou são cometidas por infratores não identificados ou devido a cultura de ignorância por parte de alguns moradores”, informou o secretário.

Perguntado sobre as queimadas deste ano, comparado a 2018, Lessandro informou que o índice dentro da cidade é menor. “Nos outros anos a gente teve a queimada intensa da turfa que ficou quase um mês inteiro queimando o subsolo, e isso dificultou muito na época. Nós tivemos que trazer bombeiros de Nova Serrana com caminhão pipa. Gastamos mais de um milhão de litros de água para conter apenas um foco de incêndio e que incomodava quase 100% da população”, ressaltou.

Crime Ambiental

Provocar incêndio em mata ou floresta é crime ambiental definido no artigo 41 da Lei de Crimes Ambientais, com previsão de pena de reclusão de dois a quatro anos, assim como causar incêndio expondo a vida, integridade física ou patrimônio de outro a perigo sujeita o infrator à reclusão de três a seis anos

A penalidade para quem coloca fogo de modo indiscriminado é grave. Além da possibilidade de responder a processos criminais, o criminoso pode sofrer multa administrativa de R$ 1 mil por hectare, bem como ser chamado a reparar os danos causados, e aí se incluem danos morais em prol da coletividade, que fica tolhida de fruir do patrimônio ecológico degradado.

Um exemplo claro é da empresa Biosev de Lagoa da Prata. Tempos atrás a empresa colhia a plantação de cana e o que sobrava nos terrenos eram eliminados através de queimadas. Todavia, depois do surgimento da Lei da Queima da Cana (Lei nº 11.241/2002), a Biosev precisou se adequar. Começaram a reduzir a taxa de queimadas gradativamente, ano após ano. Atualmente, toda a colheita é feita através de maquinários, e a empresa ainda ajuda em causas criando campanhas ao combate à incêndios.

Campanhas contra incêndios

Hoje, a Biosev é muito atuante contra os incêndios em Lagoa da Prata, 20% da equipe é treinada para combater estes atos. Inclusive, a brigada de incêndios da unidade é também uma forte aliada no combate de fogo dentro da cidade, seja em lotes vagos, quintais e em propriedades privadas rurais. Em agosto a empresa lançou a campanha “Gestão de prevenção de incêndios” informando sobre os trabalhos que desenvolve para prevenir e combater este crime e chama a atenção para que a população denuncie. A campanha está ocorrendo em todas as mídias dos municípios que faz parte e também dentro da unidade.

“As queimadas para a Biosev, além de prejudicar significantemente o meio ambiente e a saúde dos moradores, são também prejuízo para a empresa. Portanto, realizamos diversos trabalhos para prevenir este ato criminoso, como é realizado o Progea junto com a Polícia Ambiental nas escolas, e além disso, nossa equipe é treinada e conhece os métodos mais eficazes para combater incêndios. Mas precisamos da ajuda de toda a população para denunciar e de uma vez por todas declarar a estes criminosos, que eles são nossos inimigos”, informou Rafael Silveira, gerente agrícola da Biosev.

Dados preocupam

Em coletiva de imprensa, a Biosev informou que este ano a situação é preocupante, principalmente por estarmos há um longo período sem chuvas e ainda, estarmos em um período de seca. Somente no primeiro semestre foram queimados 1423,66 hectares, quase o mesmo número queimado no ano todo de 2018, que foi de 1465,14 hectares.

A situação é ainda mais preocupante, pois recentemente, os colaboradores da empresa receberam ameaças de anônimos por meio de placa no canavial informando que haveria queimadas na região, caso a usina não jogasse água nas estradas rurais e ainda, houve queimadas em área onde estava expostos outdoors da campanha. O que torna ainda mais difícil o trabalho de conscientização da empresa.

De acordo com o engenheiro ambiental Walber Carvalho, a problemática das queimadas vai muito além do que se pensa e o assunto ainda é bem menos explorado como deveria. “Os danos são os mais variados, causando perdas ambientais e prejuízo econômico e social. O fogo deteriora a qualidade do ar, provoca a perda da qualidade dos solos e biota (fauna/flora), leva a poluição para nascentes, águas subterrâneas e rios por meio das cinzas, reduz a visibilidade de veículos, reduz a biodiversidade (animais, plantas e demais espécies), prejudica a saúde humana, atinge o patrimônio público e privado, como matas, cercas, linhas de transmissão e de telefonia e construções; alteram a composição química da atmosfera e influem negativamente nas mudanças globais com liberação em grande escala de dióxido de carbono e gases que contribuem para o aprisionamento do calor proveniente da radiação solar. Dentre outros agravos para a vida humana e o meio ambiente como todo. Por isso, é tão grave e o olhar deve ser iminente para a causa”, explicou.

Em Lagoa da Prata, a Secretaria de Meio Ambiente está sempre monitorando os possíveis infratores por meio de câmeras de vigilância ou mesmo por denúncias, o que é mais difícil. Por isso, campanhas de conscientização sempre são realizadas em ruas e escolas do município.

Nesta temática, alguns programas existem com o objetivo de conscientizar a população desde os primeiros anos escolares, como é o caso do Programa de Educação Ambiental (Progea) da Polícia Militar Ambiental. O programa já está no quarto ano de funcionamento e é desenvolvido em diversas escolas de Lagoa da Prata, Japaraíba, Moema e Luz

Progea

O programa trabalha a Educação Ambiental (EA) com os alunos do 4o ano das séries iniciais do ensino fundamental, valendo-se de suas experiências de vida dentro ao cenário cultural, social e econômico em que estão inseridos, respeitando a pluralidade e a diversidade individual e cultural.

Os encontros são realizados em sala de aula pelo mediador, objetivando a reflexão sobre os problemas ambientais através da metodologia “Educação para o Pensar”, desenvolvendo o pensamento crítico e investigativo pautados nos textos inseridos no fichário de trabalho vinculando-os às realidades socioambientais da sua escola/comunidade: identificação do problema, análise, tomada de decisão e a sua avaliação.

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