Lagoa de cinzas. Confira o texto da nova colunista do Portal TV Cidade sobre o carnaval

Lagoa de cinzas. Confira o texto da nova colunista do Portal TV Cidade sobre o carnaval

A escritora Maria do Rosário Bessas é a nova colunista do Portal TV Cidade.  Nascida em Lagoa da Prata, em 7 de abril de 1953, é pedagoga aposentada, professora de literatura e redação e atualmente presta assessoria à escolas de educação infantil. Publicou o livro Poesias de Criança e participou de várias coletâneas, entre elas, “Lagoa da Prata em Prosa e Verso” e “Palavras sem Fronteiras II”. Recebeu o Prêmio Luso-brasileiro 2013, “Melhores Poetas”, organizado pela editora portuguesa Mágico de Oz e pela associação de poetas de Ilha de Madeira. Ocupa a cadeira número 8 da Academia Lagopratense de Letras, é membro da AVPE (Academia Virtual de Poetas e Escritores e Recanto das Letras). Também é colunista do jornal Folha de Lagoa, Jornal Informação e colaboradora de jornais da região. Sua obra compõe-se de crônicas, contos, artigos e poesias, com um carinho especial pela poesia infantil. A temática central de suas obras sempre foi o cotidiano e o conflito social, onde busca além da poesia, uma crítica reflexiva sobre o comportamento do homem diante do mundo e da vida.

 

Lagoa de Cinzas

Apesar de não tê-lo visto passar, o carnaval passou… Senti o clima dessa festa apenas nos breves momentos em que liguei a televisão e vi os flashes das escolas de samba e a cobertura da tradição dessa festa em diversos pontos do Brasil. E foi aí que eu vi o quanto nossa cidade está ficando tristonha.

Como a maioria das pessoas faz, fui passar o domingo num sítio. Voltei lá pelas dez horas da noite e me assustei com o aspecto sepulcral da nossa cidade. Nenhuma pessoa nas ruas, a praça da matriz totalmente abandonada, janelas fechadas e as luzes apagadas. Nem nas sextas-feiras da paixão eu senti tamanha tristeza em contornar a cidade e ver o desalento que habitava na maioria das casas, um silêncio totalmente paradoxal com a festa que acontecia no resto do país. Se alguém se fantasiasse de Adão ou de Eva e saísse desfilando pelas ruas, não iria chocar e nem surpreender ninguém, porque ninguém veria.

Ponderei que alguma coisa deve estar errada com a nossa gente. Nossa cidade sempre teve o perfil alegre, acolhedor, festivo e hospitaleiro. E de repente, essa festa que é a maior demonstração de alegria do povo, ficou confinada aos jovens, que a confundem com baderna e se esbaldam na bebida, longe do olhar inquisidor da sociedade que dorme em silêncio no centro da cidade. É triste passar pelos arredores e ver a juventude bêbada, de copos descartáveis nas mãos, remexendo o corpo ao som de funks ridículos, como se o único objetivo do carnaval fosse estourar os ouvidos e o fígado. Causa-me pesar ver o nosso carnaval reduzido a isso.

Vejo pelos telejornais a alegria percorrendo as outras cidades. Nelas a tradição das brincadeiras persiste, a fantasia muda o visual das pessoas e das ruas, o sorriso está estampado no rosto de todos, e tanto as crianças quanto os adultos, sejam eles jovens ou idosos, curtem a tradição de suas festas, na maior euforia. E a nossa cidade dorme. Na certa, expulsaram o carnaval de nossas ruas, para não perturbar o sono de quem prefere o sossego e o silêncio. Os foliões que viviam dentro daqueles que amadureceram , na certa já morreram. Mas são apenas quatro noites. E a alegria que deveria ser saudável dessa festa tão colorida faz falta para a história de cada um que vive nessa cidade. Houve um tempo em que as marchinhas no Clube Recreativo Lagoense seduziam a sociedade inteira que se fantasiava no melhor estilo para desfilar a alegria pelo salão. Havia desfile de blocos, matinê das crianças, brincadeiras de rua para espalhar a alegria que esta festa sugere. As pessoas tinham prazer em andar pelas ruas, surpreender os amigos com sua criatividade, encontrar o inusitado na primeira esquina, rir das palhaçadas que são tão naturais nesses dias. Hoje só existe o silêncio nas casas e dentro delas, com certeza, muita saudade desses tempos, quando o carnaval era contagiante para todos. Ele agora é patrimônio dos jovens, excluído da maioria das famílias porque perdeu o perfil de folia que tinha para se transformar em máscaras muitas vezes degradantes, que precisam ficar escondidas.

Precisamos acordar desse abandono, desse confinamento a que nos sujeitamos para ignorar a vida que corre lá fora. Estamos nos enclausurando na maturidade e nos excluindo dos prazeres que a vida nos oferece graciosamente. Esse negócio de dizer que nossa cidade menina tem perfil de juventude combina, mas toda juventude amadurece e os maduros têm direito à vida também. Não temos lazer algum, nada saudável para os encontros de família nos finais de semana, nenhum ambiente aconchegante para um passeio no fim de noite.

Tudo na nossa cidade é criado para o perfil jovem, como se só eles tivessem necessidade de convivência e diversão. E o carnaval tão distante de tudo, nos faz pensar no quanto estamos nos acomodando com a tristeza entrando pelas nossas portas. Acho que tocaram muito cedo o toque de recolher. É muito triste a sensação de morar numa cidade fantasma, com perfil de quarta feira de cinzas, enquanto a alegria ferve nas outras nos dias de carnaval. Eu tenho muita pena…

► DEIXE ABAIXO SEU COMENTÁRIO ◄