COMPARTILHAR
Continua depois da publicidade.

É indiscutível o sucesso da chamada literatura de “auto-ajuda” nos nossos dias. Em qualquer lista de livros mais vendidos que se põe reparo, lá estão os “hits” do momento, aqueles livros inspirados e inspiradores que todo mundo do seu trabalho e da sua família lê, se sente mais sábio e recomenda a todos. Não me lembro bem quando foi que essa onda de auto-ajuda começou a ter a força que tem hoje. Não sei se foi com o “Filtro Solar” (aquele vídeo famoso narrado pelo Pedro Bial), se foi com “O Segredo” ou se foi com os livros do Augusto Cury, mas o fato é que o tipo de mensagem otimista e simplista da auto-ajuda têm tido uma ótima recepção por parte do público de uns tempos pra cá. E como bom perguntador que sou, me pergunto: “qual o porquê de tamanho sucesso?”

O sociólogo Zygmunt Bauman usa o termo “Modernidade Líquida” para definir o nosso tempo, ressaltando o fato de que não há nada de sólido nele: relações de trabalho, relações amorosas, relações de amizade, tendências da moda, valores culturais, sucesso artístico, nada disso tem garantias de durabilidade ou estabilidade nos nossos dias. Pois penso que é justamente essa “liquidez” do mundo moderno que deixa o nosso solo cultural bastante fértil para a disseminação da auto-ajuda.

Continua depois da publicidade.

Pensem comigo: em tempos de profunda incerteza e instabilidade como os nossos, um autor que diz ter consigo a receita do sucesso e da felicidade com certeza terá milhares e milhares de leitores que, angustiados com as incertezas da vida, comprarão seu livro em busca de um conselho, uma luz que o ajude a caminhar na escuridão incerta do mundo. Em tempos de relações humanas instáveis com os nossos, um autor que diz conhecer os “15 passos” para o sucesso do casamento com certeza venderá milhares e milhares de livros aos homens e mulheres que se vêem angustiados com as incertezas que o futuro guarda para sua relação amorosa.

Mas me respondam uma coisa: desde quando há uma receita pronta para lidar as situações que a vida nos impõe? Ora, os nossos caminhos, os nossos “15 passos”, deveriam ser inventados por nós mesmos, a partir das nossas próprias experiências e afetações. E é por isso que o discurso da auto-ajuda é simplista, porque trata da complexidade da nossa existência de uma maneira pobre, como se a vida fosse uma máquina e os livros, pequenos manuais de instruções.

E o pior é que os efeitos do discurso super-otimista e simplista da auto-ajuda não se limitam ao campo da literatura, e tem atingido e influenciado diversas outras áreas, como o cinema, a música, a internet (basta entrar no Facebook e dar uma olhada nas frases e pensamentos inspiradores postados aos montes na página), e até mesmo o cristianismo. O discurso do “você pode mais”, “basta pensar positivo”, “você pode ser sucesso” tem sido bastante difundido, tanto nas igrejas católicas quanto nas evangélicas, o que mostra o atual empobrecimento do discurso cristão, que tem tratado muito do sucesso e felicidade individuais e tocado pouco em assuntos como fraternidade, justiça social, igualdade e espírito comunitário.

Por fim, usarei aqui de minha audácia para dizer que a “filosofia fast-food” da auto-ajuda não passa de um mero e enganoso atalho para o crescimento pessoal. Os “drops de sabedoria” oferecidos pelos autores “auto-ajudantes” não substituem o verdadeiro e profundo conhecimento que só pode ser aprendido na vida e no mundo cotidiano, através das nossas experiências, trocas e afetações.

PS.: Se a ajuda oferecida nos livros é dada pelo autor, ou seja, por outra pessoa que não é o leitor, porque usa-se o termo “auto-ajuda”?

Helder Clério é escritor e músico.

Deixe o seu comentário e compartilhe no Whatsapp