Branca Rosa | Artigo

Branca Rosa | Artigo

Passou a maior parte da infância ao redor dos sítios e fazendas, ao longo do Rio São Francisco, nas imediações da cachoeira, a grande cachoeira como dizem os mineiros, a “Casca D’anta”.

Cresceu tendo os primos como companheiros e amigos, visto que não tinha irmãos. O pai morrera muito jovem, vítima da doença de Chagas. Naquele tempo os recursos eram poucos, os médicos além de caros, distantes.

Papai, segundo vovô contara, sempre foi magrinho e com muitos problemas de saúde. Certa vez foi para Divinópolis e ficou por vários meses, talvez três, talvez quatro, vítima de uma pneumonia, que instalando-se quase o arrebata de vez. Nunca passava sequer uma semana sem tomar remédios ou ter que faltar do trabalho um ou outro dia, seja por fraqueza, seja por excesso de remédios e xaropes.

O avô cuidava de toda a família com os seus chás caseiros, cujas plantas enchiam o quinta, a porta da cozinha, a porta da sala e uma lateral da casa, bem debaixo das janelas dos quartos. Vários quartos que infelizmente na maior parte do ano ficavam vazios, a ponto da vovó Duarte levantar os colchões e guardar a roupa de cama, para não encher de caruncho, poeira ou insetos.

Bom que sempre havia muito espaço para brincar, mesmo dentro de casa, em vista dos dias muito, muito frios no inverno e farta chuva no verão. O sítio era cercado por imensas árvores frondosas, de copa esbelta e espessa. Às quatro horas da tarde, já se fazia escuro, a ponto de acenderem lampião para fazer a janta.

A família vinha ao fim do ano e também nos dias de carnaval visitar vovô Dunga e vovó Duarte. A mãe, Leila, amigou com um rapaz chamado Geraldo e foi para a cidade grande. Sempre mandava presentes, roupas e algum dinheiro. Sentiu sua falta durante alguns anos mas depois se acostumou com a ausência. Geraldo nunca vinha ao sítio. Viram-no poucas vezes.

Na verdade, quando Leila chegava em casa, sempre sozinha, parecia muito mais como uma irmã, ou uma prima, ou ainda uma tia. Não tinha carinho de mãe. Vovó Duarte foi sua mãe. Vovô Dunga, seu pai.

Os cabelos brancos, totalmente brancos, denunciava sua idade: – 84 anos. Vovó, 74 anos.

A noite foi escura como nunca antes havia sido. Nuvens no céu, nuvens escuras, conformava um quadro escuro, negro, que chamou a atenção de todos.

Parecia que as nuvens formavam figuras sinistras no céu.

A brisa bem fria, bem fria, passava por todas as frestas das portas e janelas de madeira, bem cunhadas, bem feitas. Mas o vento estava ouriçado, indomesticável. Colocara panos debaixo da porta, bem como nas partes baixas das duas janelas do meu amplo quarto. Mas qual… sentia frio. O vento batia nas cortinas e agitava as folhas que estavam sobre a mesa de estudos.

Saí em direção ao quarto da vovó, buscando pedir a ela uma colcha ou um cobertor, a fim de cobrir-me e enganar o frio. Olhando de forma a aproveitar um facho de luz vindo da abertura de uma das telhas, encontrei-a caída na porta do quarto, fria, com olhar distante. Tentei puxá-la para sobre a cama do quarto mas não consegui.

Chamei vovô. Ele, que sempre teve um sono levíssimo, a ponto de acordar com o barulho de uma tampa de caneta caindo no chão, neste dia estava a sono solto e alto. Chamei-o por diversas vezes ele, abraçando-me, disse para voltar para o quarto, para a minha cama, visto ser madrugada ainda. Não disse nada. Ele, sentindo que algo estava errado, passou a mão no lado da cama da esposa e pela primeira vez, em muitos e muitos anos, ela não estava ali do seu lado.

Eles nunca, nunca, nunca dormiram separados. Nem quando os filhos nasceram, dormiram separados. Vovó colocava um aparato na beirada da cama e o neném ficava ali, bem do seu lado. E vovô dormia no seu lado da cama, bem acomodado.

Ele pegou vovó no colo e levou-a para um dos quartos, arrumando a cama, deitando-a lentamente.

Pediu-me que chamasse Zezé do outro lado do rio, bem como avisasse Adão e Amarildo, que se adiantassem até sua casa. Pulei no cavalo, atravessei o córrego e bati na porta da tia Luzia e da tia Lunga. Disse tudo conforme vovô me pedira.

Tia Lunga começou a chorar copiosamente. Tia Luzia foi para o telefone. Na sua casa tinha aquela antena enorme, que um dos filhos, pessoa rica de Diamantina havia mandado instalar, pois era seu costume falar com a tia (sua mãe) todos os dias.

Netwise

Depois de avisar todas as pessoas as quais vovô pedira, voltei para o sítio.

Vovô estava calmo e me abraçou na porta da sala, com um sorriso no rosto, não aparentando tristeza com a grande perda.

Levantando-me do chão, em seus braços, bem alto, disse: “De agora em diante, somos apenas você e eu, minha ‘Branca Rosa’”!

Histórias que o povo conta…

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