Artigo de Opinião: Por que o amor não sustenta relacionamento?

Artigo de Opinião: Por que o amor não sustenta relacionamento?

"Definimos o amor não como ele nos acontece, mas como gostaríamos que ele fosse. Assim, o amor se torna um sentimento meio divino, uma meta de vida, que poucas pessoas conseguem alcançar", explica Rodrigo.

Foto: Portal Canção Nova/ Divulgação
Rodrigo Tavares Mendonça

Psicólogo e especialista em psicoterapia de família e casal

Netwise

O amor está entre os sentimentos que inspiraram as melhores histórias da humanidade. As
histórias de amor tocam diretamente o nosso coração. Provavelmente, todas as pessoas
querem viver uma história de amor, e as que não querem provavelmente não o querem por
medo. Mas não é isso o que importa aqui. No fundo, todas as grandes histórias humanas são
histórias de amor. Neste artigo, quero falar especificamente sobre o amor nos
relacionamentos românticos. O que pode o amor? Aliás, antes de tudo, o que é o amor? E
mais: o amor é um sentimento suficientemente forte para sustentar um relacionamento? Essas
são as perguntas que buscarei responder aqui.

Acredito que a maioria das pessoas definiriam o amor como querer o bem do outro.
Entretanto, não é isso que é o amor, e acredito que se você olhar com atenção irá concordar
comigo. Quando amamos, estamos falando, fundamentalmente, de desejo e prazer intensos.
Se você ama seu namorado, você está falando sobre o seu desejo por ele, seja sexualmente ou
o desejo de construir uma vida juntos. Se você ama um amigo ou um filho, você está falando
sobre o prazer que sente com o bem-estar dele. Se você ama ouvir música ou viajar, você está
falando sobre o prazer que sente ao fazer essas coisas, ou sobre o desejo de fazê-las. Enfim,
falar de amor é falar sobre sentir desejo e prazer intensos. E quando sentimos desejo ou
prazer não intensos, dizemos que só gostamos de uma coisa ou pessoa. Não é assim que
nomeamos nossos sentimentos?

Acontece que geralmente quando sentimos desejo por uma coisa ou pessoa, ou prazer por
uma coisa ou pessoa, queremos o seu bem. Contudo, querer o bem não é uma característica
que define o amar, mesmo que esteja presente em muitas de suas realizações. Além disso,
queremos o bem que achamos ser o melhor para essa coisa ou pessoa. E o bem que achamos
ser o melhor nem sempre é o melhor, às vezes pode, inclusive, ser o pior. Mesmo no amor é
um desafio olhar a vida do outro com os olhos do outro. Por exemplo: uma esposa insegura
que ama seu marido pode proibi-lo de ter uma vida social saudável, ou um marido inseguro
pode fazer o mesmo. E isso nada tem a ver com falta ou excesso de amor. O ciúme, aliás,
nada tem a ver com falta ou excesso de amor, mas voltarei a esse ponto. Aqui, o importante é
que o amor existe se há desejo ou prazer intensos, mesmo que na ausência de um querer o
bem que realmente seja o bem para a coisa ou pessoa amada.

Pessoas que amam podem mentir por medo de ofender ou perder a pessoa amada, podem
ofender por raiva, trair, podem inclusive matar por não suportarem a vida sem aquela pessoa.
Novamente, amar não necessariamente tem a ver com querer o bem do outro, porém sempre
tem a ver com desejo ou prazer intensos. Essa é a organização conceitual do amor, sua
definição. Ocorre ainda que normalmente a pessoa que ama quer o bem do parceiro somente
enquanto ele faz o seu bem. Assim, após o término, mesmo que o amor ainda persista, ou
exatamente por causa da persistência do amor, o companheiro rejeitado pode querer
especialmente o mal da pessoa amada. Relações assim são tristemente comuns.

Prefiro definir assim o amor porque é assim que ele nos acontece na vida cotidiana. Podemos
usar uma definição transcendente, fazer uma definição ideal do amor, como se ele fosse um
sentimento que estivesse fora de nós. Dessa forma, definimos o amor não como ele nos
acontece, mas como gostaríamos que ele fosse. Assim, o amor se torna um sentimento meio
divino, uma meta de vida, que poucas pessoas conseguem alcançar. Eu rejeito definições
transcendentes sobre o que acontece em nossas vidas, prefiro explicações imanentes, ou seja,
que utilizam elementos presentes nas coisas que queremos explicar. Em outras palavras, uma
definição transcendente seria afirmar, por exemplo, que um homem ou mulher apaixonada
que mente para o companheiro não ama, porque, nessa visão transcendente, quem ama não
mente ou não falta com o respeito. Mas não é assim que o amor nos acontece, não é?

Assim definido o amor, espero que esteja claro que o querer o bem do outro é uma
consequência desejável do amar, não uma característica intrínseca a ele. Essa definição nos
abre caminho para entender o papel do amor nos relacionamentos românticos. O amor
sozinho é capaz de sustentar um relacionamento? Não, não é. E não é capaz justamente
porque a construção de uma vida juntos depende de muitos outros elementos que não o
desejo ou prazer intensos.

O respeito, por exemplo, é uma atitude que pode aparecer na pessoa que ama, porém, como
vimos, não é uma característica intrínseca ao amor. Assim, pode-se amar e não respeitar. E
não há relacionamento que sobreviva sem respeito, a não ser na absoluta submissão de uma
das partes. A possessão é outra atitude comum nos relacionamentos românticos. Ela ocorre
quando um se comporta como se fosse proprietário do outro, assim faz exigências, ou pedidos
com chantagem emocional, que levam o companheiro a se adequar aos interesses dele. O
ciúme pode levar à possessão. E isso nada tem a ver com o amor, embora ocorra
frequentemente durante o amar das pessoas. Ciúme e possessão tem a ver com medo,
insegurança e as crenças das pessoas sobre o papel do homem e da mulher em um
relacionamento, não com o amor.

Embora amar não signifique necessariamente querer o bem do outro, acredito que sem o
amor o querer o bem do outro exista apenas como atitude racional, sem o fundamento
emocional indispensável para sua sustentação. Só queremos o bem do outro de verdade
quando sentimos prazer com seu bem-estar, e sentir prazer tem a ver com amar. Em outras
palavras, mesmo não proporcionando uma garantia, só o amor nos faz capaz de querer o bem
das coisas ou pessoas que nos são valiosas. Por isso, embora ele sozinho não sustente um
relacionamento, sua existência é fundamental.

 

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