Artigo de Opinião: O que não tem remédio nem nunca terá

Artigo de Opinião: O que não tem remédio nem nunca terá

Foto: (Reprodução/Internet)

Evoco as palavras do grande poeta Chico Buarque já no título desse artigo para tratar de uma questão tão importante quanto delicada, e que não se pode ignorar. Falo do impressionante aumento do uso de medicamentos, especialmente medicamentos psiquiátricos pela população em geral.

Desde que foram desenvolvidos os primeiros medicamentos psicotrópicos, na década de 1950, seu uso se difundiu enormemente entre a população geral. Tais medicamentos foram desenvolvidos para contribuir com o tratamento de pessoas que vivenciavam algum tipo de adoecimento psíquico, em um momento histórico em que haviam poucos recursos terapêuticos para o tratamento em saúde mental, especialmente para os quadros mais graves.

No entanto, pode-se notar que hoje o uso dos medicamentos psiquiátricos encontra-se difundido também entre uma enorme população de pessoas que não possui, exatamente, um transtorno mental. Trata-se de pessoas que se encontram em um momento difícil de sua vida, que convivem com sentimentos difíceis ou mesmo possuem certas dificuldades de lidar com o aspecto trágico da vida. A esse fenômeno damos o nome de “medicalização”.

A medicalização consiste em um processo através do qual problemas que outrora não eram da alçada da medicina passam a considerados como doenças, transtornos, desvios que demandam o uso de algum medicamento, alguma terapêutica. Pode-se dizer, por exemplo, que há atualmente um processo de medicalização da infância (basta notar o incrível aumento de crianças diagnosticadas com TDAH e outros transtornos ligados à aprendizagem), bem como a medicalização da tristeza, a medicalização de tensões e conflitos sociais, etc.

A grande questão aqui é que esse processo de medicalização transforma não só nossa forma de lidar, mas também a nossa percepção dessas situações. Dessa forma, problemas que antes julgávamos como sendo situações naturais, esperadas (uma criança que não gosta de estudar, um sentimento de tristeza pela perda de alguém querido, a ansiedade de um pai de família desempregado ao ver as contas atrasadas…) tornam-se problemas de saúde mental, causados por alguma espécie de desequilíbrio cerebral. Longe de pretender desvalorizar os grandes avanços trazidos pelos medicamentos psicotrópicos (que contribuíram muito para a superação dos antigos manicômios, inclusive), considero de fundamental importância colocarmos as coisas em seus devidos lugares, dando a César o que é de César, por assim dizer.

A vida possui seu lado difícil, trágico. Há uma série de desafios inerentes a cada fase de nossa existência, desafios que trazem angústia, tristezas, inseguranças, mas é preciso cuidado para não nos esquecermos que isso faz parte da vida, e precisamos inventar nossas próprias formas de conviver com esse lado duro da realidade, de lidar com “o que não tem remédio nem nunca terá”.

Se por um lado o uso dos medicamentos psicotrópicos pode ajudar as pessoas a vivenciarem a tragicidade da vida, aliviando certos sintomas, permitindo que a vida siga seu curso, tal uso (sobretudo quando não receitado e supervisionado por um bom médico) pode também anestesiá-las, impedindo-as de se sentirem plenamente responsáveis pela própria existência e de criarem suas próprias saídas, evoluindo como seres humanos diante dos desafios que a vida lhes impõe.

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Helder C. S. Cardoso é graduado em Psicologia (PUC Minas) e Especialista em Saúde Mental (Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais).

 

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