A ilusão da realidade; o real pode não ser bem aquilo que você pensa

A ilusão da realidade; o real pode não ser bem aquilo que você pensa

Neste artigo, o jornalista Rubens Macouff reflete sobre as certezas que as pessoas possuem e a percepção que elas tem da realidade vivida.

Rubens Macouff

Jornalista, empreendedor, expert em marketing institucional e estudioso do comportamento humano.

Netwise

No final do século XVII e início do século XVIII, dois grandes cientistas tinham respostas diferentes para uma pergunta bem difícil. Do que é feita a luz? Na Inglaterra, Sir Isaac Newton defendia a hipótese de que a luz era uma espécie de partícula. Quase ao mesmo tempo, nos Países Baixos, Christian Huygens tinha uma opinião bem diferente. Ele considerou que a luz fosse um tipo de onda. A divergência durou até que quase um século depois, Thomas Young fez um experimento e demonstrou com sucesso a teoria ondulatória. Provando então que Huygens estava certo. Mas não é isso que é espantoso.

Espantoso é que já no século XX, após sugestão de Planck, Einsten e Compton demonstraram que a luz se comportava como uma partícula (fótons), semelhante ao que o cientista britânico havia sugerido. Ou seja, Newton também estava certo.

Mas como? Como poderiam duas teorias tão diferentes estarem igualmente certas e erradas ao mesmo tempo? Isso ninguém sabe até hoje. Este é um exemplo formidável para abordar a diferença que existe entre a realidade em si e a nossa percepção da realidade. Uma coisa muito interessante acontece à medida que uma pessoa vai ganhando conhecimento. Ela fica cada vez mais convencida de que não sabe de muita coisa. O engraçado é que quanto menos uma pessoa sabe, mais convencida ela é de que sabe muito sobre tudo.

A Queda do Homem, Ticiano, 1550. Foto: Portal Rubens Macouff/ Reprodução

Na versão judaico-cristã da história da criação do mundo, Adão e Eva estão em um jardim e uma serpente convence a moça, que em seguida convence seu parceiro a comer do fruto do conhecimento que Deus os havia proibido de provar. Você se lembra qual foi o primeiro sentimento que eles tiveram quando comeram do fruto do conhecimento?

Orgulho, alegria, excitação? Não. Sentiram vergonha. Vergonha da própria nudez. O mundo que vivemos depende da nossa interpretação, do chamado processo de significação, que por sua vez é feito com base no conhecimento que temos. Quanto menos conhecimento se tem, mais fácil é fazer uma interpretação. Sem muitas varáveis, é fácil ter certeza. É preto no branco.

Segundo a história bíblica, Adão e Eva estavam nus antes de comerem do fruto, mas só sentiram constrangimento por isso, após adquirirem um pouco mais de conhecimento. Note que a realidade em si não mudou. O que mudou foi a percepção que eles dois tinham sobre a realidade após adquirirem mais conhecimento. Certezas são mais confortáveis do que incertezas, não há dúvida disso. O problema é que quando adquirimos uma certeza, paramos de fazer perguntas e são justamente as perguntas, e não as respostas, que fazem a nossa sociedade avançar e nos fazem crescer como pessoas.

No fim das contas, as certezas servem como um refúgio. E refúgios precisam ser defendidos de ameaças. Isso produz um fenômeno interessante. A pandemia que o mundo enfrenta nos dá uma ótima oportunidade de observá-lo. Compare a fala de lideranças pouco preparadas com a fala de especialistas. (Não precisa entrar no mérito do conteúdo das falas ou se há certo e errado.) Foque só no comportamento. No discurso. A fala do menos preparado está, em sua maioria, carregada de suas certezas. Suas verdades absolutas. Enquanto na fala dos especialistas, que possuem conhecimento profundo de suas áreas, a fala está cheia de incertezas, variáveis e possibilidades.

Então, eis que uma nova informação aparece colocando em xeque o que se acreditava antes. Como se comportarão os dois? Se um admite variáveis e possibilidades, é bem fácil acolher a nova informação. Agora, para quem usa a certeza como refúgio, a informação é uma ameaça. Como ele se protege então? Os mais ignorantes, claro, com agressividade e violência. Mas existe formas mais sofisticadas. Distorcer a percepção da realidade das pessoas é a mais comum. Ele não pode mudar a realidade que não controla, mas pode usar de sua posição para distorcer a percepção das pessoas ao seu redor da realidade em si.

Sei que é difícil não pensar nos políticos, mas não é exclusividade deles. Na biografia que Walter Isaacson escreveu de Steve Jobs, funcionários da Apple, diziam que ele era capaz de criar um “campo de distorção de realidade”. “Na presença dele, a realidade é maleável. Ele consegue convencer qualquer um de praticamente qualquer coisa.” (Bud Tribble, então projetista da equipe Macintosh da Apple). A essa altura do texto, você já sabe que o que Jobs estava distorcendo, não era a realidade; mas a percepção daquelas pessoas sobre a própria realidade.

Isso acontece todo dia, em todos os lugares. E o mais assustador, para toda sorte de objetivos. Jobs, por exemplo, usava isso para convencer suas equipes a produzirem mais. Políticos, líderes religiosos, companheiros abusivos e etc. Podem usar para os mais diversos fins e, o custo pode ser altíssimo. O que eu quero com toda esta falação é te encorajar a sair do refúgio das suas certezas e começar a aceitar que ninguém possui uma compreensão plena da realidade. Ao invés de ignorar e combater informações que contradizem aquilo que você acredita hoje, questione sua própria certeza.

Afinal de contas, você pode estar errado. Se algo lhe parece muito óbvio de que é o certo, mas parece que uma outra parte da sociedade é ignorante demais para entender, ou aceitar, antes de partir para o ataque; questione se não está te faltando conhecimento. Quanto menos conhecimento você tem, mais fácil é para lideranças inescrupulosas distorcerem sua percepção da realidade, te fazendo acreditar que aquela distorção é real. Quase nada é absoluto, pense na quantidade de certezas absolutas que foram abandonadas ao longo dos anos.

Aposto que seus pais acreditavam que tomar manga com leite fazia mal, por exemplo. Imagine se ao saberem que isso não passava de uma fábula, ao invés de acolher a nova informação, criassem uma fake News no Whatsapp dizendo que os comunistas ou os capitalistas imperialistas estavam dizendo que as pessoas deveriam beber leite com manga para matar os pobres?

Se você acha esta possibilidade absurda, não está vivendo nos mesmos tempos que eu. Lembre-se todos os dias das palavras de Immanuel Kant: “avalia-se a inteligência de um indivíduo pela quantidade de incertezas que ele é capaz de suportar.” Certamente o mundo será um lugar melhor assim.

 

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