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Em outra ocasião por aqui, contei sobre a “Zona Boêmia” em nossa cidade, que nasceu ao final da 2º Guerra Mundial, persistindo até aproximadamente o ano de 1973. Dr. Otaviano, então prefeito, fez o que pode para acabar de vez com os cabarés. E conseguiu.

Os cabarés ocupavam os encontros das ruas Acácio Mendes, Manoel Pena, Olegário Maciel e Luis Guadalupe. Talvez dois, no máximo três faces de quarteirões. Tinha a Boate do Neife, o Bar União, o Bar Natal e o do Heitor, a saber, os principais em freqüência e movimento. Dificilmente se viam as “moças” no exterior das casas de prazeres. Nas ruas, apenas a movimentação de rapazolas e distintos senhores em busca de alegria e satisfação.

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Ao final da década de 50 e início da de 60, por causa do aumento de produção da Usina Luciânia e a vinda de centenas de trabalhadores de fora, a coisa ferveu por ali. As boates se encheram e passaram a funcionar todos os dias da semana. Não parava nenhum dia. Os cabarés passaram a não mais comportar o movimento do lugar.

As pensões ao lado dos cabarés se viram repletas de transeuntes a ocuparem diuturnamente os quartos. Os caminhões da usina passaram a descer até o mata-burro na porta da fazenda do Chichico para descer os trabalhadores para se divertirem um pouco antes de irem para casa, ou para os pensionatos. Por causa da aglomeração de pessoas, surgiram também por ali os malandros. Aquela época não tinha a violência de hoje. Era na esperteza, na malandragem que os gatunos ganhavam algum dinheiro.

Um que ficou famoso nas redondezas foi o “Zé Neves”. Disseram que o Zé fora levado para a malandragem mais por força das circunstâncias do que propriamente por ser mau caráter. Foi deixado em Lagoa com uma tia que ele não conhecia e nem queria que ele ficasse. Enfim, como ela trabalhava o dia todo, ou melhor, a noite toda na Zona, Zé Neves, adolescente, ficava por ali, rondando as pessoas.

Vez por outra apanhava moedas caídas no chão. Tirava a carteira dos bêbados, tomava deles relógios de pulso ou de bolso. Sandálias de couro e chapéus por vezes também eram levados e depois vendidos à noite. O delegado o apanhou em flagrante uma vez. Tomou uma surra, ficou três dias no “pote” pra tomar vergonha e depois deixaram-no ir embora. Começou a furtar também canetas.

No final da década de 50 a caneta Parker 51 era famosa. Valia pouco mais de meio salário mínimo e era tirada do bolso do freguês sem qualquer violência ou agressividade. A sociedade via na caneta sinal de riqueza, de que possuía seu detentor possuía dinheiro.

O Zé Neves ficava com uma revista do “Cruzeiro” na posição vertical, próxima ao peito. Quando a vítima vinha à frente do Zé ele abaixava um pouco a revista e quase trombava com o sujeito. A contra-capa e mais três ou quatro páginas se prendiam ao clipe da caneta, preso do lado de fora do bolso do paletó do freguês, se prendendo à revista do Zé e saindo com ela. O único trabalho era dobrar a revista para ocultar a caneta.

A pessoa nem ao menos se dava conta da falta da caneta. Quando percebia, já era tarde. O Zé já havia vendido-a a outrem. Ele foi ganhando dinheiro até que um dia tirou uma carteira do bolso de um senhor mais de idade na Boate do Neife.

O “Valtão”, meio parente dos “Paixão” daqui de nossa cidade viu e ficou bravo. Quando o Zé Neves ia passando, o Valtão pegou em seu braço e falou pra devolver a carteira do homem. Como Zé Neves perguntou sobre o quê ele estava perguntando, Valtão, entendendo ser uma ofensa aquilo tudo, deu em Zé uma pancada no rosto que quase lhe parte a cara em duas.

Zé Neves caiu desacordado ao lado da radiola que ficava no canto direito do bar, próximo ao balcão. Valtão pegou a carteira do homem e devolveu-a. O Floriano e o Andrade pegaram Zé Neves e levaram-no para o Dr. Carlos olhar. Fraturou o osso da face. Ficou inchado muitos dias. Por causa das risadas de todos e ao ver-se na rua, após expulso do quarto de pensão da tia pela repercussão do acontecido, pegou um “fueiro” da Usina que ia buscar gente pra safra e se mandou.

Histórias que o povo conta…

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