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A menina apareceu na rodoviária, adentrando o portão e subindo até o local onde os ônibus estacionavam. Parou próximo ao ônibus que vinha da cidade de Luz. Estava com roupas bem velhas, esgarçadas, e estava com os cabelos alvoroçados. Ela falou o nome, não lembro qual, logo em seguida chamando por uma tal de Estela.

Essa senhora, Estela, ninguém conhecia… ninguém nunca tinha ouvido falar. A menina não pediu nada: dinheiro, comida, nada. Apenas olhava para as pessoas. Tinha os olhos marcantes, vivos e negros. Sua tez branca contrastava com os olhos e cabelos negros. Seus olhos pareciam duas flechas voando na direção do rosto da gente. Duas vezes apareceu no mesmo lugar. Nunca ninguém a viu sorrir.

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Na pastelaria do Vieira assentou-se no banquinho do Senhor Agenor, colocando suas pernas por sobre a cadeira de rodas da Soninha, o que a fez sorrir, o que quase nunca acontecia. O Almir teve sua bolsa surrupiada por algum ladrão e, vez que as janelas da sua casa eram todas basculantes, pensaram que o ladrão teria pouca idade, visto a impossibilidade de alguém maior ter passado pelos vidros basculantes. Sumiram suas moedas. Muitas de ouro.

Logo alçaram olhos na menina, visto ter apresentado dinheiro na Pracinha do Cruzeiro para comprar comida. Olhares severos foram lançados para a menina. Ela contudo não moveu o olhar, tampouco alterou seus hábitos. Continuou indo nos mesmos lugares, sempre à tardinha indo até a rodoviária para aguardar o último ônibus de Luz chegar.

Fernando filho do Alceu certa vez tentou aproximar-se dela, puxando assunto, oferecendo pastel e suco, chamando e convidando-a a conversar com ele. Sem sucesso.

Adentrou na barbearia do Senhor Rafael e, assentando-se na cadeira dele pediu para cortar-lhe o cabelo. O senhor Rafael disse que cortava apenas cabelo de homem e não poderia cortar-lhe o cabelo.

A Margarete buscou-a para ir até a verduraria do Seu Alcides. Depois de alguns dias avistaram a menina dentro do ônibus indo para Luz. Foi a última vez que viram a menina. A rodoviária ali na rua Olegário Maciel foi então fechada, dada inauguração da rodoviária no local no qual hoje se encontra, na rua Santa Catarina.

As moedas do Almir por fim foram encontradas, visto que um palhaço que estava trabalhando num circo que se instalara no quarteirão em frente à praia municipal, tentou vendê-las para o Torquato, que logo reconheceu as joias do Almir.

Histórias que o povo conta…

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