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Juliano Azevedo Jornalista, Professor Universitário, Escritor. Blog: www.julianoazevedo.blogspot.com.br Twitter e Facebook: @julianoazevedo E-mail: [email protected] Instagram: @julianoazevedo / @ondeeobanheiro
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São Pedro abriu a torneira e a esqueceu ligada. Ou havia vazamento no céu. Caiu água.  Muitas águas, eu diria. Foi um aguaceiro, que a rua ficou inundada. Ninguém saía de casa. Nenhum olhar era possível através das janelas. O tempo fechou. A energia desligou. Quinze segundos, a lâmpada acendeu novamente. Foi só um susto. Tudo escureceu outra vez. A chuva estava pesada. Não se via nada com a chegada da noite.

Pedi ajuda a Santa Clara, para dar luz, para me proteger, pois precisava de dupla iluminação neste domingo, dia 4 de dezembro de 2016, quando usei o dia para concluir minha dissertação de mestrado, cujo tema é o objeto que não funciona sem o auxílio da eletricidade: a televisão.

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Pensei nos prodígios de Thales de Mileto, Willian Gilbert, Alessandro Volta, André-Marie Ampère‎, Georg Simon Ohm, Thomas Edison, Nicola Tesla, Michael Faraday, Benjamin Franklin, que contribuíram para que energia elétrica chegasse até nossas casas. Quantas madrugadas eles passaram acesos buscando inspirações?

Fiquei no escuro, literal e metaforicamente. Como terminar meu texto? O que fazer com as luzes apagadas? Sem TV, bateu a angústia. Meu prazo termina amanhã… Santa Clara, valei-me. Ou devo pedir ajuda às causas desesperadas?

Procurei velas. Acendi três em cima da mesa de jantar. 19h50. Não tenho sono, não posso me deitar e deixar as chamas acesas. Premonição de que o fogo se alastre e provoque uma tragédia. Morrer carbonizado não é meu destino, nem minha vontade.

Na escuridão, falamos e pensamos muitas besteiras.

Com a luz fraca, o tempo ocioso, caderno e lapiseira começaram a pensar, a relembrar os idos da 7ª série, quando fazia redações a mão. Tantos anos depois, a caligrafia mudou muito. Às vezes, escrevo tão rápido, que nem eu mesmo entendo a letra. Ainda mais no escuro…

Olho para as sombras que me fazem companhia. Os objetos de artesanato me observam. São três bonecas do Vale do Jequitinhonha. Obras das artesãs que aprenderam o ofício com a mais famosa delas: Dona Isabel, das bonecas de barro. As minhas são batizadas: Dona Cândida, Liliane, Dorotéia.

Jarras peruanas, cujos bicos são feitos em forma de animais também fazem vigilância, o abutre e o puma. Animais que precisam dos olhos, da luz, para caçar. Lá fora, a chuva fica mais nervosa. Os raios dão medo.

Ao meu lado, um boneco do Bart Simpson espia, instalado como decoração na janela. Os olhos dele são arregalados, de desenho animado. Fico sorrindo, quase gargalhando pela minha insanidade ao conversar com um boneco.

As três velas, tamanhos diferentes. Brilham silenciosas, num balançar de um vento fraco que entra pelas frestas do basculante fechado. A voz do trovão é estrondosa. Chego ao final do papel com a esperança que o Espírito Santo ilumine os caminhos de quem está perdido, solitário debaixo desse toró.

01h07. A energia acendeu as luzes. Hora de dormir. No escuro.

 

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