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O conheci por nome “Tonhão”.  Ele possui muitos outros apelidos: “Tonhão Faísca, Tonhão Estalo, Tonhão Choque-Choque” e outros. Tonhão sempre foi uma boa pessoa. Honesto, trabalhador e reservado. Nunca se soube de namoradas ou encontros.

Cuidou enquanto pode da mãe. Os outros irmãos, foram embora. Uns para São Paulo, outros para Belo Horizonte. Uma das irmãs reside aqui em Lagoa da Prata, mas não encontrei nomes ou datas. O Tonhão não fala nada sobre o assunto e, se insistimos, bebe um copo de pinga, levanta-se e vai embora, com um sorriso meia boca e deselegante. Não gosta de aproximações maiores.

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Realmente o homem é enorme, muito forte, mas que, por causa da bebida desmedida e buscada dia a dia, tornou-se uma pessoa frágil e melancólica. A partir dos trinta anos passou a viver para a bebida. Tonhão apesar dos seus dilemas com a bebedeira, tinha lá as suas muitas qualidades. Uma delas, que era pedreiro muito competente. Trabalha bem e rápido. Chegava a assentar vários metros de muro por dia. Deixava casa a ponto de laje em até 6 dias. Contam que apanhava dois tijolos, desses  de bloco, com uma mão apenas. Passava massa e os assentavam assim, dois a dois.

Outra coisa que contam do Tonhão é que em dia de chuva forte, ele corria e se escondia em casa, às vezes, debaixo da cama. Se trovejava, o Tonhão virava uma tremedeira só. Se estivesse com copos ou garrafas na mão, os deixava cair, dado o medo no qual se embrenhava. Quando chovia, o Tonhão nem comer, comia. Ficava no seu quarto deitado, coberto até à cabeça com um cobertor qualquer, fosse o calor que fosse.

Alguns amigos mais próximos dele afirmaram que essa característica o Tonhão adquiriu ainda menino. Numa fazenda no qual o pai trabalhava como caseiro, num dia de chuva forte, Tonhão estava correndo em meio à várzea num área alagada. Tonhão subiu até uma árvore para avistar o cavalo no qual estava a andar. Caiu um raio no cume do morro bem acima da casa na qual morava. O raio, segundo os amigos, correu por sobre a água atingindo a árvore na qual o Tonhão se encontrava. Tonhão caiu de lá dentro d’água e permaneceu por lá imóvel, até que o cavalo o encontrou, ficando ali do seu lado até o cair da noite. Sua mãe o recolheu, levando-o para casa.

Desde então, tem medo de chuva, de trovão, de raio, vento forte, de tudo. Fica numa tremedeira danada e corre para casa. Depois do falecimento de sua mãe, as coisas ficaram piores pois começou a beber demasiadamente. Quando se molha com água de chuva, ou ainda em temporadas muito úmidas, com chuva de vários dias seguidos, o Tonhão necessita ser “enterrado”, enterrado mesmo, até o pescoço, para poder acalmar os nervos e passar a tremedeira. Logo que sai de dentro da terra, fica bom, lúcido. Não precisa de remédio de farmácia. É só enterrá-lo, com terra até o pescoço, que o Tonhão melhora.

Por causa desses problemas, enveredou-se pela bebida a fim de acalmar os sintomas dessa estranha doença. Se um carro está em funcionamento, o Tonhão brinca abraçando a lataria do carro. Diz que melhora o cabelo e as unhas. Coisas dele. Os amigos respeitam sua dor, pois, desconta na cachaça as suas desventuras, as suas tristezas.

Passei no bar Morcegão buscando encontrá-lo e os amigos disseram que neste último mês de dezembro de 2010, por causa das chuvas, Tonhão foi pro sítio em Beberibe, pra lá de Bambuí, quase Córrego Danta, para ficar enterrado, sossegado, até que a chuva passe.

Comprou antes umas seis garrafas daquelas do “Dair”, da roça, de boa qualidade, para abastecer-se durante a sua estadia.

O Tonhão foi pegar então “um negativo, um neutro” naquelas bandas.

Histórias que o povo conta…

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