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José Osvaldo Lasmar - Pesquisador da Fundação João Pinheiro e Diretor da Associação Comercial de Minas
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Em menos de 12 meses os governos estaduais e o federal terão cumprido a metade de seu mandato. Todos os grandes desafios, crise e dilemas postos pela conjuntura internacional e brasileira não parecem dar qualquer indicação de arrefecimento em 2016. Não obstante,  a vida  segue,  mas  não  segue  na medida e no ritmo do possível, como  costumam repetir   conservadores e pragmáticos , mas na medida e no ritmo das nossas utopias.

Governantes são eleitos para nos conduzir na direção de nossas utopias. Cabe-lhes redirecionar os caminhos, modular o percurso, apontar-nos as dificuldades, jamais nos permitir o desânimo, a desesperança.  Lideranças populistas, mercadores de ilusão, pragmáticos de toda espécie, oportunistas, se expõem sob o sol a pino e escaldante das grandes crises. Estadistas, nestas horas, se revelam e se consolidam no exercício do debate de caminhos, quando e onde a maioria só enxerga impasses. Dos nossos eleitos esperamos que se façam distintos na  ação constante de mobilização de atores e de capacidades, na busca de adesão e apoio  ao bons  combates, identificando grandes causas e abrindo, com competência e responsabilidade, os  trajetos por onde haveremos de trafegar.

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2016 está aí. Novo ano, fatos velhos. A economia chinesa deve continuar patinando. União Europeia deve ainda manter baixos índices de crescimento. Commodities terão ainda seus preços deprimidos. Operação Lava Jato seguirá. Equipe econômica do Governo Federal não tem qualquer carta na manga que sinalize a possibilidade de inflexão da crise brasileira. A presidente da República não deve apresentar nenhuma agenda de políticas públicas, paralisada que está pelo esgotamento do modelo político de “presidencialismo de coalizão”, pela  inação  e imobilismo da oposição ao seu governo que faz do processo de impeachment um programa político, apesar de afirmar o contrário.

A economia mineira sofre por tudo isso e, certamente, sofre em dobro pela sua alta especialização em commodities. O desastre em Mariana veio expor, com toda sua dramaticidade, este cenário de um estado vocacionado para o desenvolvimento do complexo minero-metalúrgico e que, por inércia, indolência, imprudência, miopia, jamais se ocupou da elaboração de uma politica estadual que orientasse o crescimento da mineração, um novo ciclo  baseado na sua intensificação tecnológica, no adensamento do seu complexo industrial,   na  sustentabilidade econômica e ambiental. Entregue, ou abandonado, à sua própria dinâmica de acumulação,  o setor minerador de Minas consolidou a imagem de atraso e quase maldição a  que hoje, equivocadamente, muitos recorrem  para  justificar e se imobilizar em posições de crítica, condenação e inação política. Na escuridão de nada adianta gritar, é preciso que se traga a lamparina e, neste caso, mais que lamparina, o farol de uma nova, talvez a primeira, política de desenvolvimento sustentável do setor minero-metalúrgico de Minas Gerais. A hora é agora para juntarmos atores responsáveis e construirmos a agenda do desenvolvimento do nosso setor minerador.  A estagnação, os desastres ambientais, os pequenos efeitos multiplicadores da atividade mineradora no Estado, os impactos derivados da volatilidade de preços do minério de ferro, o caos e a depressão que espreitam a exaustão de nossas reservas minerais, são peças concretas de uma história de trezentos anos mas cujas nefastas consequências  não se explicam  por supostas características intrínsecas da atividade mineradora  e sim por uma postura relapsa, equivocada, e por vezes até mesma corrupta, de  algumas lideranças políticas e empresarias locais.  Sermos uma das maiores províncias minerais do mundo tornou-se peça central de um discurso condenatório e indutor de perigosa ilusão de que nossa rota de desenvolvimento deve ser marcada por esforços de replicação, em Minas, da estrutura industrial de São Paulo.

A agenda de desenvolvimento do nosso setor minerador, em nenhuma hipótese, exclui a estruturação de esforços de reconversão de base econômica de muitas de nossas cidades e regiões. Mas são agendas que se complementam, que se retroalimentam, não se excluem.

Nelson Rodrigues foi implacável quando denunciou nosso, por ele nomeado, “complexo de vira lata”. Mas neste caso, a grande tarefa política de 2016, que busca seu patrocinador e sua liderança, não pode ser outra senão o empreender o bom combate e a superação deste casamento conflituoso que Minas Gerais, historicamente, mantém com sua economia mineradora. Modelos e políticas internacionais, quando copiados acriticamente, são caminhos certos para o fracasso e frustração. Neste caso, no entanto, seria de  todo recomendável que desviemos o olhar ingênuo sobre nossas arraigadas e velhas concepções de  estratégias de desenvolvimento industrial e comecemos a compreender melhor o sucesso de Nord Pas de Calais, na França, das províncias mineradoras da Austrália, do estado do Colorado, nos Estados Unidos.

Condenar, estigmatizar, se recusar a compreender a estrutura e dinâmica da atividade mineradora em nosso Estado, insistir no “ faz de conta” de que  temos sobre a mesa um programa consistente de desenvolvimento sustentável do complexo minero-metalúrgico de Minas, quando,  na verdade,  contamos apenas com  um punhado de funcionários públicos, representantes classistas, políticos locais que vocalizam problemas e questões de curtíssimo prazo, são posturas que comprometem nosso presente e nossa  utopia de um Estado mais dinâmico, mais justo, mais moderno.

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