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Gordofobia – por que é tão necessário falar sobre?

Todos os dias, pessoas obesas saem de casa sabendo que o que não faltarão são desafios para que elas sobrevivam ao dia, como transporte público, escritórios, restaurantes e outros ambientes que não estão preparados para acomodá-las.

Rhaiane Carvalho


Sentar em um banco e sobrar espaço para outra pessoa, viajar de ônibus e avião sem se espremer para caber no corredor e poltronas, se encaixar em um perfil para ser contratado, não encontrar roupas que sirvam… Quem nunca? Quem não vive o drama de enfrentar essas e outras dificuldades por causa do peso. Todos os dias, pessoas obesas saem de casa sabendo que o que não faltarão são desafios para que elas sobrevivam ao dia, como transporte público, escritórios, restaurantes e outros ambientes que não estão preparados para acomodá-las. Além disso, como se não bastasse, sabem também que vão ser alvos de piadas, julgamentos e ouvir de muita gente que precisam emagrecer. Esse preconceito tem nome, ‘Gordofobia’.

Ao sair pelas ruas a gente percebe facilmente que quase nada é adaptado para que pessoas obesas usufruam, em igualdade, de locais aproveitados por todos.

“Meu corpo nunca foi um problema pra mim, mas sempre foi para os outros e para os lugares que ocupo. Eu não tenho problema em ser gorda, e não é ser gordinha, é gorda, pois magra não é magrinha, é magra, então o por qual motivo serei gordinha? Não tem a necessidade diminuir nada. A não ser o preconceito das pessoas. Não encontro problemas em ser gorda, mas encontro problemas para ir ao cinema e sentar confortavelmente na cadeira, em andar em corredor de um ônibus ou avião; em comprar um biquíni, pois parece que gordo não vai à praia, ou não pode ir, não sei. Meu problema em ser gorda não me afeta exceto nisso ou se esbarro em alguma doença que possa ser derivada disso. Estou mudando a alimentação por questões pessoais e vejo que as pessoas ficam surpresas quando me veem comendo vegetais. Já partem do princípio de que é porque quero emagrecer, me dão parabéns. E não é”, disse Renata Granjeiro, professora.

João Souza disse que durante muitos anos sentiu vergonha do seu corpo e se recusava a sair de casa às vezes, selecionando locais que talvez poderia ser aceito.

“Eu escolhia tudo, até entender que eu não precisava disso, que todo mundo estava vivendo normal e eu, por questões desnecessárias, vivia apenas o que achava que me era permitido. Mas quem disse que eu não podia isso ou aquilo? Pois é, a minha cabeça. Mas isso vem de lá de trás, na escola isso não é trabalhado, a gente é o ‘gordo baleia’ e pronto, todo mundo concorda, a gente acostuma a ser e está tudo certo. Só que a gente vai aceitando ser diminuído, e não é preparado para que isso seja o contrário. Aprendemos na raça que não, que isso não é aceitável. Todos merecem respeito. A obesidade nem sempre aparece por genética ou descuido, existem mais coisas envolvidas e que merecem respeito. Hoje sou muito tranquilo quanto a isso. Não mereceu a minha atenção, tchau!”

“Meu peso me rendeu a honra de ser empreendedora. Sim, eu queria me vestir bonita igual as pessoas magras, mas saía e não encontrava roupas bacanas, só umas roupas que mais pareciam lençol ou cortina. Então eu pensei que muitas pessoas estariam passando pelo mesmo problema e resolvi estudar a possibilidade de olhar para esse público. O que não entendo é que quando saio às ruas pessoas gordas ou consideradas acima do peso são a maioria, mas as lojas insistem em só vender P, M e G. Na dor, encontrei a oportunidade. E tenho certeza que estou ajudando muitas pessoas a se olharem diferente”, Neilane Fonseca.

Patrícia Ângela Pinto é psicóloga clínica, terapeuta familiar e de casais; formada em Terapia Familiar Sistêmica e Constelação Familiar, e em Terapia do Esquema, escreveu um texto sobre o assunto para o Jornal Cidade. Leia na íntegra:

Vamos conversar sobre Gordofobia?

Gordofobia é um termo para identificar o preconceito que pessoas gordas sofrem na vida afetiva, social e profissional. É um neologismo para o comportamento de pessoas que julgam alguém inferior, desprezível ou repugnante por ser gordo. Funciona como qualquer outro preconceito baseado em uma característica única. Pessoas que estão acima do peso enfrentam verdadeiras batalhas no seu dia a dia, desde adaptações em ambientes públicos, até a compra de roupas.  Esse preconceito está enraizado nos indivíduos, que muitas vezes não se dão conta que são preconceituosas, e o mascaram através de se mostrarem preocupadas com aquela pessoa.

O impacto emocional na vida delas é enorme, o primeiro deles, é o de não pertencimento, ou seja, o fato de se sentir excluído pela sociedade e pela própria família.  Pensando que a família é a primeira referência da criança como ambiente e relações de amor e segurança, os dizeres de forma direta (você está comendo demais) ou indireta (através de piadinhas), tem um efeito devastador na vida daquela criança e do adulto que ela irá se tornar.

A comida tem uma caráter afetivo para as pessoas, além de nutrir o corpo, nutre também a alma, o coração. Muitos adultos usam compulsivamente da comida para alivio de suas dores emocionais e frustrações, continuam a fazer uso do alimento de uma forma infantil, pois para um bebê aliviar seu desconforto, normalmente lhe e oferecido o peito, a mamadeira.  A criança também se compensa através da comida pela ausência emocional dos pais, por exemplo. Estar atento as relações que cada pessoa estabelece com a comida é fundamental e os pais também devem ficar vigilantes à forma como introduzem e mantem a alimentação dos seus filhos: obrigar a comer, oferecer alimentos como recompensa, culpabilizar por não ter comido…

(Psicóloga Patrícia Ângela Pinto / arquivo pessoal).

A comida deve ser sim fonte de prazer e satisfação de uma necessidade que é básica ao seres humanos, mas é importante sempre procurar mantê-la de um modo saudável, sem culpa e sofrimento. Uma relação não saudável vemos na bulimia (comer abundantemente e depois se sentir culpado, provocando o vômito) e na anorexia (recusa em se alimentar por uma distorção da imagem corporal, achar se gorda). Por trás de uma obesidade pode estar oculto sérios problemas emocionais, que precisam ser vistos, não criticados. Mas, existe casos, onde a genética interfere ou onde o excesso de peso não incomoda, o que também precisa ser respeitado.

Fica, então, a dica para que cada pessoa reveja seus comportamentos e posturas preconceituosas e seja mais empático, sem sair por ai se achando o dono da razão e agindo de uma forma arrogante (se achando superior ao outro), querendo impor sua forma de pensar e agir. A pessoa que tem obesidade na maioria das vezes sofre muito pelo estigma social e familiar e numa tentativa de agradar o outro costuma recorrer a tratamentos que colocam em risco sua própria vida, usando chás ou fazendo dietas mirabolantes, como temos visto atualmente na mídia. Todo tratamento para emagrecer requer acompanhamento médico e psicológico, inclusive a cirurgia bariátrica, muito recorrente, pode ser apenas uma troca de compulsão: da comida para o álcool, por exemplo.

Ser gordo ou magro é escolha de cada um, e o que é certo para mim, não é o certo para o outro. Vemos hoje uma dificuldade geral de aceitar e conviver com o outro como ele é, como se tivesse que haver um padrão geral de corpos e comportamentos, onde somente o belo e o perfeito pudessem existir. Ora, isso é uma fantasia, perfeição não existe nem em pessoas, muito menos em corpos. Constantemente, recebo no meu consultório adultos com suas crianças feridas, devido a críticas ligadas ao seu próprio corpo na infância. Pode até ser uma “brincadeirinha” para quem faz, mas com certeza não é para quem ouve!  Gera traumas, baixa autoestima, sentimentos de menos valia, feridas que podem se fechar, mas que deixam cicatrizes na vida da pessoa.

O convite é que cada um olhe para si, pois quem muito se preocupa com a vida do outro, não está olhando e provavelmente foge de suas próprias querelas.

Se o outro não lhe pediu ajuda, você não deve ajudar, só porque acha que é o melhor para ele, se pergunte se você tem competência para isso, o emocional de alguém é algo sério e pode trazer muitos transtornos quando subjugado. Olhe para a PESSOA e não para uma parte dela, o corpo não a define, cada ser humano é uma soma de características físicas, emocionais, profissionais e comportamentais e definitivamente, ninguém é incompetente na vida por ser gordo!

(Patrícia Ângela Pinto atende na Clínica Eh Viver, que está localizada na Praça do Cruzeiro, 148 – Centro – Lagoa da Prata. Contato: (37) 9 88061929.

A legislação

No Brasil, a legislação não prevê punição específica para quem pratica gordofobia, mas há algumas proteções jurídicas. “É vedado pela lei que as pessoas sejam discriminadas na contratação e é função do empregador fornecer todos os materiais necessários para que o funcionário exerça sua função, inclusive uniformes do tamanho adequado para que a pessoa não passe por desconforto ou situação vexatória”, explica o advogado trabalhista Guilherme Mônaco, que é ex-obeso e viveu na pele o preconceito em diversas situações sociais.

“Embora a gordofobia não esteja tipificada na lei, ela cai nos danos morais, que é quando a ação causa algum abalo psicológico”, explica, ressaltando, no entanto, que existem poucas medidas efetivas contra esse tipo de preconceito, sendo assim mais difícil de prová-lo. “A empresa pode simplesmente alegar que outro candidato era mais qualificado, por exemplo. E quem está ali para julgar é um juiz inserido na mesma sociedade que a gente, com os mesmos valores, ou seja, no mesmo contexto gordofóbico”, finaliza. Se os critérios que definem uma ação de gordofobia ainda não são claros e o caminho parece ser longo, cabe a nós, como sociedade, lutar diariamente contra esse preconceito, seja no trabalho, nas relações sociais e, principalmente, entre as crianças e os adolescentes, orientando-os, desde cedo, a buscar ajuda ao sofrer algum tipo de assédio, a identificar um comportamento gordofóbico, a não aturalizá-lo e, sobretudo, não o reproduzir.

 

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