Em menos de um mês, duas fábricas de fogos registram explosão com feridos e uma morte no Centro-Oeste MG

Em menos de um mês, duas fábricas de fogos registram explosão com feridos e uma morte no Centro-Oeste MG

Medo aflige funcionários; proprietária de fábrica de fogos fala sobre investimentos para prevenir acidentes.

Foto: Assessoria do Samu

A cidade de Santo Antônio do Monte é considerada a Capital Nacional dos Fogos de Artifício e o segundo maior polo mundial de produção, sendo a pirotecnia a principal atividade econômica da região. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Santo Antônio do Monte tem cerca de 30 mil habitantes e sua principal fonte de renda vem do setor pirotécnico. Os fogos de artifício começaram a ser produzidos em 1859, de forma rudimentar. Somente em 1945 foi instalada a primeira indústria pirotécnica local. Até então, a economia da cidade se baseava nas produções vinícolas, de café, de açúcar e de gado. O aumento da indústria pirotécnica, no entanto, foi se tornando, pouco a pouco, o carro-chefe da atividade econômica local. Na década de 1980, sua expansão se consolidou, atraindo uma multidão de novos moradores em busca de emprego.
Entretanto, o trabalho na indústria pirotécnica tem suscitado sérias preocupações das entidades sindicais e dos pesquisadores, bem como dos trabalhadores e suas famílias. A maior explosão em fábrica de artifícios em Minas Gerais aconteceu também em Santo Antônio do Monte. Em 1979, na Inbrasfogos, 24 pessoas ficaram feridas, sendo que 13 morreram. Os acidentes de trabalho neste setor são na maioria das vezes fatais ou mutilantes, havendo, ainda, registros de doenças relacionadas ao trabalho. Só neste ano de 2019, em menos de um mês foram registrados 2 ferimentos graves e uma morte por explosão em fábrica de fogos e, ao longo do ano, somando esses registros, até o dia 26 de outubro foram registradas 2 mortes e 3 feridos graves, inclusive, um desses teve mais de 80% do corpo queimado. Em 2018, foram registradas 1 morte e 1 ferido grave. Em 2017, foram registradas 4 mortes e 1 ferido graves. Esses números se referem às cidades de Santo Antônio do Monte, Japaraíba, Lagoa da Prata e Pedra do Indaiá.
Pode-se afirmar que, com poucas exceções, cada santoantoniense tem um parente, amigo ou conhecido que trabalha na indústria de fogos. Quando um acidente ocorre numa fábrica, ele mobiliza praticamente toda a cidade, pois uma explosão é ouvida a grandes distâncias. As pessoas correm para socorrer as vítimas ou prestar outras ajudas na situação de sinistro.
Frequentemente, o Exército Brasileiro, Ministério da Defesa e Ministério do Trabalho têm realizado fiscalizações com o objetivo de exigir as documentações necessárias para operação e autuar fábricas clandestinas, bem como apreender objetos de produção que não estejam regularizados. Com essas fiscalizações, os acidentes já foram reduzidos, mas a expectativa é que ao longo do tempo não se registre nenhum caso.
Atualmente, o Sindicato das Indústrias de Explosivos no Estado de Minas Gerais (Sindiemg) possui cerca de 31 empresas associadas e quase 3 mil funcionários diretos em Santo Antônio do Monte, Pedra do Indaiá, Lagoa da Prata, Japaraíba e Moema.

Medo aflige funcionários
A redação do Jornal Cidade conversou com três trabalhadores de fábricas de fogos e o que eles mais temem é sair de casa e não voltar para a família. Por medo de represália, os colaboradores preferiram não se identificar.
“Temos uma sede do Exército aqui e tudo é muito controlado. Mesmo assim, ficamos apreensivos de pensar que a qualquer momento pode acontecer uma nova explosão e matar ou ferir alguém da família ou conhecidos, ou eu mesmo”.
“Não quero falar que é culpa do proprietário da empresa, ele também não quer isso, mas a gente quando é registrado em fábrica de fogos sabe dos riscos. Precisamos trabalhar, mas o medo é companheiro diário”.
“Todos os dias quando chego em casa agradeço a Deus pela minha vida e de meus colegas. A gente trabalha com o medo ao lado, medo de não ver a esposa, nossos filhos, e nossos pais mais. Mas hoje melhorou muito as condições de trabalho, só que a atividade é perigosa, infelizmente. Quando as pessoas veem os fogos lindos no céu não têm ideia do risco que cada pessoa corre ali para fazer um espetáculo”.
Produção quase que puramente artesanal
A indústria pirotécnica é basicamente artesanal. Ela conta com poucas máquinas, pois a manipulação dos produtos químicos, altamente inflamáveis, requer cuidados especiais. O trabalho se passa nos barracões, geralmente construídos com bancadas de alvenaria. Ali, são proibidas instalações elétricas ou qualquer outra iluminação artificial, devido ao perigo de combustão da pólvora. Por isso, a produção requer um número maior de funcionários. Os barracões são divididos de acordo com os diferentes setores e etapas da produção. Há três setores principais: o setor de produção de pólvora branca, o de pólvora negra e o de arrematação.

Investimento profissional
Junia Cristina Miranda é proprietária da Fogos Piroshow há 20 anos por inspiração do seu irmão e devido o segmento das cidades da região nesse ramo. “Em mais de 20 anos nunca tivemos um acidente fatal. A empresa trabalha duramente na questão de segurança e responsabilidade social. Todas as legislações do R105 são seguidas. Temos em nossa empresa um engenheiro químico, técnico de segurança do trabalho, médico do trabalho, engenheiro ambiental, além de gerentes de setores. Todos trabalham em cooperação pra capacitar e instruir os funcionários sobre os riscos dessa profissão. Outro ponto muito decisivo para prevenção de acidentes, é ter uma matéria prima que siga as mesmas instruções químicas. Só usamos produtos com selos de qualidade exigidos pelo Exército”, explicou.
A empresária ainda explicou que a maioria dos acidentes acontecem por falha humana, mas que muitas mudanças foram realizadas ao longo do tempo para minimizar os riscos. “Seguimos por anos sem nenhum registro de acidente. Nos últimos meses tivemos um acidente, infelizmente, mas graças a Deus o funcionário está bem. Mesmo com toda nossa ação de prevenção, a maioria dos acidentes ocorrem por falha humana, pois o nosso produto é artesanal, portanto, a atuação da Segurança do Trabalho é muito significativa e na nossa empresa trabalhamos de forma efetiva, instruindo o funcionário sobre a forma correta de se trabalhar e evitar que acumule excessos de material no local de trabalho”, disse.
Com relação às mudanças realizadas, conforme ela, a melhor foi a substituição do produto químico clorato por perclorato. “Há anos, usava-se muito uma matéria-prima muito mais explosiva, o chamado clorato. Desde que o mesmo foi substituído por perclorato, os acidentes diminuíram muito. O problema é que tem muitas indústrias que importam matéria-prima e, geralmente, esse produto não tem as mesmas especificações exigidas pelo Exército, que é nosso órgão fiscalizador”. Miranda também explicou que toda profissão tem seu risco e que nem todas têm tanta exposição quanto os acidentes em fábricas de fogos. “O fato é que trabalhamos para ter ‘zero’ acidente. Toda empresa preza por isso, mas o fato é que, quando ocorrem acidentes em fábricas, há mais repercussão por causar um impacto muito grande. Não sei se devido ao barulho e à fumaça. Se fizermos uma pesquisa rápida é possível mostrar que os acidentes causados em fábricas são bem menores que muitos outros segmentos. Em nossa região, temos outro segmento, que são as empresas safristas. Nosso segmento emprega diretamente, cerca de 2500 funcionários. Empresas safristas devem empregar menos que isso. Se fizermos uma comparação entre os dois ramos, veremos que nossos números são bem menores, volto a afirmar, queremos que esse número seja igual a zero. Mas, infelizmente, os acidentes ocorrem. E os acidentes de fábrica de fogos ganham a mídia nacional, já os de outro segmento, na maioria das vezes, não ganham nem o noticiário local”.
Com 70 funcionários diretos, Junia ressalta que por se tratar de um produto explosivo, somente a regularização da empresa dará o mínimo de segurança ao funcionário. Desde o apoio previdenciário até mesmo à instrução de uso, além de terem que prestar contas a diversos órgãos fiscalizadores que trabalham em conjunto para minimizar danos físicos e morais. “Lamentamos muito quando ocorre um acidente. Lutamos com toda garra, para evitá-lo, mas nem sempre conseguimos”, finalizou.

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