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Continuidade da pandemia coloca patrimônio musical de Lagoa da Prata sob ameaça

Cultura sob ameaça: pandemia obriga artistas locais da música a improvisar em um cenário repleto de incertezas.

Por: João Alves
(@joaoalvz)

Uma Lagoa prateada: estrelas que brilham longe e fora do palco. 

Lagoa da Prata se tornou destaque nacional em 2002, há aproximadamente 19 anos, como a cidade natal do até então meio-campo da seleção brasileira, Gilberto Silva. Mesmo atualmente, quando se comenta da cidade para alguém que ainda não a conhece, é esse o principal ponto de referência: casa do futebolista que trouxe o penta para o Brasil. Isso depois de explicar que a cidade do rocambole não é esta, e sim outra “Lagoa”, bem distante daqui. No entanto, para além do filho prodígio da cidade, Lagoa também é o lar de estrelas e astros que brilham em outros palcos, no sentido literal da palavra. Do rock ao sertanejo, passando pela música popular brasileira e até pelo axé, a cidade abriga talentos da música que ajudaram a moldar a identidade cultural de Lagoa da Prata e que são motivo de orgulho para o lagopratense. Por isso mesmo, a forma mais apropriada de apresentar a cidade talvez seja: “é a cidade do Gilberto Silva, dos caramelos da Embaré (e não do rocambole de Lagoa Dourada) e de inúmeros artistas independentes da música que circulam entre os mais variados gêneros.

É sabido que as restrições impostas pela covid-19, especialmente quanto à circulação de pessoas, impactaram a economia local e nacional de forma nunca vista. O comércio precisou se adaptar ao “novo normal” – isto é, aqueles que não sucumbiram aos desafios da pandemia e não precisaram fechar as portas definitivamente, e o desemprego ainda assombra parcela considerável da população. No entanto, pouco foi comentado sobre como os artistas independentes e locais da música foram afetados pelo isolamento social. Muito provavelmente, pela forma como os artistas de grande influência lidaram com a situação, através das lives com recorde de visualizações, e de postagens em redes sociais que davam a impressão de que pouca coisa mudara. A realidade, entretanto, se mostrou bem diferente por aqui.

Por onde andam os artistas da música lagopratense?

Carol Schneider, musicista independente de Lagoa da Prata, tem a música como principal fonte de renda e relatou alguns dos impactos que percebeu logo no início da pandemia. De acordo com a artista, antes da covid-19, ela costumava tocar todo final de semana em bares da cidade, festas e eventos particulares, além de festivais e intervenções culturais em espaços públicos.

“Com a pandemia foi nítido o impacto no meu trabalho. Por si só, a música, através dos shows está associada a aglomerações, foi o primeiro trabalho a parar e será um dos últimos a voltarem ao normal, mesmo que esteja um período de inconstância, de vai e volta. Quando tudo chegou efetivamente no Brasil, lá em meados de março do ano passado, tive 3 meses de shows cancelados. Durante o ano passado cheguei a fazer alguns poucos shows, quando reconhecia que era possível tocar com segurança, sem correr riscos, mas foram poucos, também devido a inconstância de poder ou não tocar”.

Questionada se chegou a realizar lives, a cantora e instrumentista afirma que: “Desde o começo da pandemia comecei com as lives. Lá em março de 2020, fiz algumas lives pelo instagram, de forma mais descompromissada, para interagir com pessoal que me acompanhava e distrair um pouco do momento em que estávamos passando. Posteriormente, vi que era uma forma de readaptar o meu trabalho e ainda fazer acontecer, então produzi de forma independente algumas lives mais profissionais, que foram transmitidas pelo youtube. Também cheguei a participar de festivais onlines e lives beneficentes”.

Foto: Carol Schneider (arquivo pessoal/reprodução)

Mozair Santos, contador que dividia seu tempo com o trabalho de músico, relata que

“como tocava sempre para um público grande, o número de apresentações após o começo da pandemia chegou a ser 0. Alguns casamentos e festas foram cancelados e até mesmo por uma questão de segurança eu preferi não me apresentar. Não cheguei a passar dificuldades de natureza financeira porque tenho outro emprego _ embora eu tenha precisado adaptar o meu padrão de vida, mas tenho amigos que viviam exclusivamente da música e precisaram procurar outro meio de sobreviver”.

O artista se refere ao músico local Jeremias Davi, para quem as restrições impostas pela pandemia da Covid-19 representaram uma mudança radical em sua trajetória profissional. Hoje, “Jerê” trabalha como entregador em uma lanchonete até que este cenário bastante infrutífero para os artistas da música apresente sinais de melhoras. Em relação às lives, o contador e músico Moazir Santos comenta na entrevista que participou de várias, muitas delas beneficentes, mas que apenas uma, a última delas, foi patrocinada.

O fim de uma era: pandemia obriga tradicional banda de Lagoa da Prata a um desfecho. 

Rick, da tradicional dupla Rick e Zezé, presente há mais de 20 anos no cenário musical da cidade, foi outro que relatou dificuldades em se manter na música diante das restrições impostas pela Covid-19. Perguntado se a pandemia o forçou a se dedicar menos, ou a abdicar totalmente do trabalho de músico, ele respondeu que sim, e ainda acrescentou que foi obrigado a seguir outro caminho profissional: “fizemos lives, mas não obtivemos qualquer retorno financeiro!”.

Foto antiga de Rick e Zezé (arquivo pessoal/reprodução)
Foto: Rick e Zezé (arquivo pessoal/reprodução)

Sobre isso, Carol Schnider é bastante coerente em sua crítica: “um ponto negativo desse momento de lives é a desvalorização dos músicos e bandas, muuuitas lives que fui convidada para tocar não eram remuneradas, os produtores acham correto pagar os demais trabalhos para a realização de uma live e esquecem de pagar os músicos e bandas pelos trabalhos realizados. Realmente ficou um pouco complicado, devido a isso tenho me dedicado um pouco mais às minhas aulas de violão e bateria. Vez ou outra ainda bate um desânimo, é visível a desvalorização do trabalho do artista no Brasil, meio a essa pandemia ficou pior, às vezes penso em abandonar a música, mas por enquanto é o que sei fazer e gosto de fazer”.

A arte existe porque a vida não basta (Ferreira Gullar)

Diante da situação apresentada pelos artistas entrevistados, fica bastante evidente a situação de vulnerabilidade não só destes músicos em específico, mas de todo o cenário musical da cidade. Tratando-se Lagoa da Prata de uma cidade que valoriza os seus talentos, seja no futebol, na música ou nos mais variados campos da atividade humana, outra parcela da identidade do lagopratense é ameaçada pelo estado de emergência imposto pela pandemia: afinal, como estamos cuidando daqueles que através da sua arte honram o nome da cidade e, em consequência disso, honram o nosso próprio nome? Mais que isso, que entretém o grupo de amigos na hora do happy hour, que emocionam o casal de noivos quando reproduzem a canção-tema daquele romance, que proporcionam através da música um breve momento de esquecimento das muitas dificuldades que a vida cotidiana impõe.

Cultura Pós-Pandemia:  Continuação ou ruptura?

Embora as previsões sobre a plena superação da covid-19 deixem margem para incertezas, a maior parte dos artistas entrevistados vêem a retomada progressiva das atividades que envolvem público com bastante otimismo. Recentemente, por exemplo, a Prefeitura de Lagoa da Prata publicou o Decreto 151/2012,  a partir do qual as atividades recreativas  com música ao vivo foram liberadas. Tal medida certamente é favorável à situação dos músicos e vai de encontro a algumas das medidas assistencialistas promovidas pela gestão atual para o auxílio de profissionais autônomos. Além  do Auxílio Emergencial Municipal, cita-se também a Lei Emergencial Aldir Blanc para Artistas e Espaços Culturais, do Governo Federal, criada com o intuito de proteger agentes e espaços da cultura. Sobre isso, questiona-se se o valor repassado aos músicos foi  suficiente, tanto para o enfrentamento das necessidades individuais desses artistas, quanto para a subsistência de todo um setor cultural. A resposta para essa pergunta não é simples e acredita-se que o impacto da pandemia sobre a música deverá ser melhor compreendido nos próximos meses ou anos.  A Secretaria da Cultura de Lagoa da Prata foi questionada sobre esse problema mas, até o presente momento, a redação desta matéria não obteve resposta. Ademais, parece necessário ressaltar que o objetivo desta reportagem não é o de apontar dedos, e sim, o de dar visibilidade aos artistas da música lagopratense que, por mais de um ano, foram forçados a abandonar os palcos, e desde então aguardam ansiosos pelo retorno enquanto lidam com uma forma abstrata de ostracismo. 

A esperança é sempre bem-vinda, porém é bom ter cautela. 

Carol Scheiner, no entanto, alerta que “Enquanto não houver a devida vacinação, as coisas não vão para frente da forma correta. A melhora virá com a vacinação em massa. E estou ansiosa por isso, poder voltar a exercer meu trabalho sem medo e poder voltar pra estrada com a Kombinha Janis, levando minha música para vários lugares.”. Mozair Santos também é enfático ao afirmar também que acredita no potencial das vacinas como solução para este momento de crise e que espera conseguir através da música voltar a levar alegria para as pessoas, afinal é este o objetivo principal de quem trabalha com essa forma de arte. Para os leitores que nos acompanharam neste relato, deixamos essa reflexão em forma de convite: apoiar o artista independente local é uma forma fácil e eficiente de ajudar na disseminação da cultura pelo município e também de compartilhar um pouquinho de felicidade neste cenário dominado pela incerteza. Que tal começar, por exemplo, curtindo os nossos artistas nas redes sociais? 

A Cultura de Lagoa da Prata agradece!

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