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Paixão alvinegra: Torcedores atleticanos relembram que futebol é muito mais do que aquilo que se vê em jogo

Com a conquista histórica do Campeonato Brasileiro de 2021 - após deixar escapar a taça em 2012 - atleticanos da região contam ao Jornal Cidade detalhes da sua paixão pelo Clube Atlético Mineiro.

João Alves


“O futebol está no DNA dos brasileiros”. Esta afirmação, que certamente ajudou a consolidar a visão que o mundo tem de quem nasce no Brasil, além de reducionista e batida, parece equivocada à primeira vista, já que nem todo mundo gosta de futebol. Porém, não dá pra negar que até mesmo aqueles que abominam o esporte – a ponto de desligar a TV ao menor sinal da voz do Galvão Bueno – tem alguma memória afetiva com relação a algum time ou  alguma torcida.  

Considerando isso, talvez o futebol esteja mesmo no DNA do brasileiro. Não como algo determinante da sua personalidade ou trejeito, mas sim como uma herança quase genética, que é passada de pai para filho, de avô para neto – e assim por diante. O futebol escancara aquilo que alguns torcedores radicais muitas vezes não entendem – ele mais une que separa. Por isso, o esporte está muito mais para um fio que conecta duas ou mais pessoas do que barricada que separa arquibancadas inimigas.

“Dizimistas do Sagrado Coração Atleticano”

“Minha relação com o Galo começa um ano antes de eu nascer”, comenta a torcedora de Samonte Roberta de Oliveira, 44,  que também conta que o time foi responsável pela escolha dos nomes de seu irmão e de seu sobrinho. “ Meu sobrinho é um dos milhares de Victor que nasceram após a tão sofrida conquista da Copa Libertadores, um ano antes”.

Aliás, a história do clube, aos poucos, vai compondo também a história dos torcedores, na medida em que os momentos mais marcantes da história de um, impactam diretamente na história do outro. E vice-versa. Comenta a torcedora santoantoniense que a perda de dois amigos queridos que, com ela, completavam o trio autodenominado  “Dizimistas do Sagrado Coração Atleticano”, transformou a relação com o time de luta para luto.

“Assistir ao jogo com eles era uma farra e a gente torcia enlouquecidamente. Era comum eu receber mensagens durante os jogos, contando que a gente estava tão ensandecido, que toda hora a câmera da TV nos filmava. Dois deles, infelizmente, partiram. Daniel, de acidente, em 2015 e Gabriel, de câncer, em 2016. E aí minha relação com o Galo virou luto por uns bons anos. Era doloroso ir ao campo (só consegui ir duas vezes depois da passagem deles). Ainda dói bastante”, disse Roberta.  

Roberta com os amigos Gabriel e Daniel (Foto: arquivo pessoal/Divulgação)

 

Por isso mesmo, para Roberta, o significado do bicampeonato vai muito além do resultado de uma partida ou de uma campanha bem sucedida. É o momento de revisitar memórias de grande importância sentimental e que têm dois protagonistas em comum: o galo e a amizade. “Eu sei que, independentemente de onde estiverem, eles estão acompanhando o Galo por lá e estão felizes com cada vitória dessa campanha linda e impecável que estamos fazendo este ano. E eu vou comemorar, por eles e por todos que partiram”, comenta a torcedora mencionando os amigos Gabriel e Daniel. 

“Fomos roubados na cara dura em pelo menos 4 campeonatos brasileiros, e mesmo assim a torcida não abandonou o time”

Quando perguntado sobre esporte, o lagopratense Juliano Rossi, 44, comenta “eu não torço para nenhum time de futebol”.  Isto porque, para ele, torcer para o Atlético e ser atleticano são coisas distintas.

Eu sou atleticano. Nós somos do Clube Atlético Mineiro. Entre torcer e ser há um abismo que nenhum torcedor de outro clube entende. Venho de uma família toda atleticana. Fomos iniciados nessa atleticanidade pelo meu pai e assim será pelas futuras gerações. A catequese por aqui não falha”.

Juliano comenta que muitos torcedores se apegam aos títulos de seus clubes, ou se apegam às suas vaidades e soberbas, porém, para o atleticano, o time é mais importante do que qualquer conquista. 

O Atlético é o time mais roubado da história do futebol brasileiro. Fato. Não por acaso, foi o clube que se posicionou contra o “sistema” futebolístico e político durante a ditatura militar, representado pelo nosso eterno Rei, Reinaldo, que comemorava seus gols de punho fechado como um sinal de resistência ao regime ditatorial. 

Em relação à fidelidade da torcida atleticana, ele comenta que, em 2005, ano do rebaixamento do Atlético para a série B, a torcida do Atlético protagonizou uma das cenas mais lindas dentro de um campo de futebol. “Naquele fatídico empate do Galo contra o Vasco, que decretou o rebaixamento, a torcida, de pé, cantou o hino do clube demonstrando o seu amor incondicional ao Galo.”

O lagopratense ainda parafraseia Roberto Drummond: “_se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento”. Aliás, esta resiliência e fé incondicional do time são as características que melhor definem a torcida atleticana. “Os títulos virão. Mais cedo ou mais tarde. O certo é que o Atlético vai esporear forte na luta por todos eles”, comenta Juliano. 

 

“Estamos ajudando a construir essa história”

Carina Xavier, 28, é uma lagopratense cuja relação com o Atlético teve início de forma atípica. Ao contrário, inclusive, dos outros dois torcedores, ela não nasceu em um lar alvinegro.

“Meus pais não acompanham futebol e os meus tios e primos são cruzeirenses e flamenguistas. Sou a única atleticana da turma! Costumo dizer que o Galo me escolheu.” 

Além disso, seu interesse pelo Atlético começou no período em que ela considera a pior fase do time. No entanto, apesar das adversidades, este amor, com o tempo, só aumentou e se fortaleceu.

“Com o Galo experimentamos muitas emoções. Quando estou no estádio eu sou a pessoa mais feliz do planeta! Através do Atlético, faço várias amizades, e estou tentando atleticanizar algumas crianças da minha família para aumentar a família alvinegra”, comentou a atleticana ao Jornal Cidade.

Qualquer relação com a “catequese” comentada pelo torcedor Juliano Rossi não é mera coincidência. Já dizia a sabedoria popular que quando o amor é demais, ele transborda.

Carine conta que um fato marcante em sua “trajetória” alvinegra foi conhecer o seu ídolo, Diego Tardelli. “Em maio deste ano, fui à cidade do Galo para conhecê-lo e também conheci quase todo o elenco atual. Tenho uma camisa autografada pelo elenco e guardo com muito carinho!”.


Outra história da qual a atleticana se orgulha foi quando participou da campanha de lançamento do uniforme oficial de jogo do time.

Em meio a tantas histórias de amizade, superação e aceitação – afinal, se amigos são uma segunda família, tudo indica que uma torcida seria a terceira  – a conquista do bicampeonato, por mais importante que o título seja para o time, aparece quase como um fato coadjuvante para os atleticanos. “O que a gente gosta mesmo é da adrenalina de cada jogo, sabe?”, comenta Roberta.

 

“Um jogo de cada vez. Qual a história que a gente vai contar desse jogo? A gente faz disso uma filosofia de vida. E o que é uma vida plena? Aquela em que a gente valoriza e vivencia, intensamente, cada segundo, um dia de cada vez. Vencer é apenas o nosso ideal, tá no hino. O que importa pra gente é o trecho ‘Nós somos o Clube Atlético Mineiro’. O Galo representa tudo aquilo que somos”, enfatiza a torcedora. 

 

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