As ruínas do que um dia foi o Museu Municipal estão jogadas ao descaso e população exige postura dos responsáveis pelo patrimônio

As ruínas do que um dia foi o Museu Municipal estão jogadas ao descaso e população exige postura dos responsáveis pelo patrimônio

Matagal, escuridão e comércio de drogas é o que se vê no casarão colonial que foi casa do fundador de Lagoa da Prata. Vizinhança teme pela segurança das famílias que mora no entorno. Impasse entre Prefeitura Municipal e Fundação Futura evidencia descaso com patrimônio municipal.

Museu pertenceu ao fundador da cidade Coronel Carlos Bernardes. (Fotos: Rafael Robatine).

Por: Alan Russel

“Um povo sem memória é um povo sem história”. Essa frase é da historiadora, Emília Viotti da Costa, uma das maiores referências nacionais em pesquisas do Brasil Colonial. Se Emília ainda estivesse viva e conhecesse Lagoa da Prata, ela também iria se indignar ao ver a situação que se encontra um dos nossos maiores patrimônios.

O Museu, como hoje é popularmente conhecido, é um grande casarão colonial construído no século XIX nas proximidades da lagoa que dá nome à cidade. Apesar de nunca ter sido de fato um Museu, o casarão recebeu esse nome por ser o primeiro casarão da região e foi a casa do coronel Carlos Bernardes, fundador de Lagoa da Prata. Até o início da década de 70 o casarão foi morada dos descendentes do Coronel.

Após a mudança da família em 1971, o casarão foi doado à Prefeitura Municipal, que na época não fez nenhuma ação ou trabalho para preservação do patrimônio. Após alguns anos de descaso e abandono, o casarão foi vendido em meados da década de 70 para o então proprietário da Usina Luciana, o empresário e médico Antônio Luciano.

Museu, como hoje é conhecido, é um grande casarão colonial construído no século XIX.

O intuito do empresário não era em preservar ou ocupar o casarão, mas sim de se apropriar dos móveis e dos objetos que haviam em seu interior. Muitas pessoas que tiveram o prazer de conhecer o casarão quando o mesmo ainda era mobiliado e decorado, diz sobre as belezas e os requintes do interior do imóvel.

Após Antônio Luciano remover todos os móveis e adereços do interior do casarão e levar esses pertences para outras fazendas e propriedades que ele tinha em Belo Horizonte, o então prefeito Rui Amorim, juntamente com o secretário doutor Ciro dos Santos, readquiriram o casarão e em 1978 fizeram do local o “Museu Municipal”. Infelizmente, já não havia mais nada em seu interior que pudesse contar a história de outros tempos do casarão colonial do fundador da cidade.

A situação atual do Museu.

Desde o ano 2000, o museu é gerido pela Fundação Futura. A Futura é uma fundação sem fins lucrativos, fundada em 1999, com o intuito de promover o desenvolvimento turístico, sociocultural e artístico de Lagoa da Prata. No início de seu trabalho, a Futura era responsável por gerir a Praia Municipal, o Museu e a Estação Ferroviária de Lagoa da Prata. Porém, a Prefeitura Municipal, após alguns anos, resolveu se reapropriar da Praia Municipal, ficando a Futura responsável apenas pelo Museu e Estação Ferroviária.

O Museu já passou por algumas reformas nas últimas décadas, mas, atualmente, se encontra abandonado, rodeado por matagal, sem iluminação e seu interior é frequentado por pessoas que usam do local para consumo de drogas. As quatro paredes exteriores ainda estão de pé, entretanto, no seu interior não existem mais divisões de cômodos e as madeiras que dividiam os dois pisos do casarão já não existem mais.

A associação dos moradores do Bairro Santa Alexandrina já realizou diversas denúncias e sempre estão atrás dos órgãos responsáveis para que alguma medida seja tomada. Joaquim é vizinho do casarão há quase trinta anos e disse ao Jornal Cidade que durante todo o tempo em que morou nas proximidades do museu, nunca viu um descaso como acontece hoje.

Atualmente, o museu está sob responsabilidade da Fundação Futura. (Foto: Rafael Robatine).

“Sou da época que o casarão era de fato um museu e um orgulho para a cidade. Era aberto ao público e aos turistas, tinham responsáveis por receber os visitantes e inúmeras pessoas vinham até aqui para fazer ensaios fotográficos. O casarão já foi um dos nossos maiores patrimônios e ponto turístico, e hoje está aí, nessa situação em que todo mundo pode ver. É um descaso não só com nós que moramos aqui na vizinhança, mas é também um descaso com a história de Lagoa da Prata”, explicou o vizinho do casarão.

Joaquim também salientou que o descaso com o Museu vem causando diversos problemas para a vizinhança. Além do matagal e dos lixos na proximidade do museu, o casarão é um reduto para o uso e comercialização de drogas.

“É inaceitável essa situação. Em qualquer praça da cidade que você vai tem iluminação pública e o mínimo de segurança. Agora, logo aqui no casarão, onde é um dos mais importantes pontos turísticos da cidade está dessa maneira. A praça está toda no escuro, o casarão está rodeado de mato e lixo. Isso sem falar que isso tudo colabora para que aqui vire um ponto de consumo e venda de drogas. Toda noite é isso aqui. Muita gente rodeando essas ruínas para usar e vender drogas. E todos aqui da vizinhança se sentem inseguros. Enquanto não tiver uma solução para essa situação a gente vai ficar à mercê disso tudo”, completou.

Foto: Rafael Robatine.

Fundação Futura

O atual presidente da Fundação Futura é Lucas Guadalupe. Ele está à frente da entidade desde 2013. De acordo com Lucas, a Futura está sem exercer suas atividades desde o fim de 2016, quando a fundação deixou de receber apoio e aporte financeiro da Prefeitura Municipal.

Lucas Guadalupe foi eleito como presidente da Futura para o quadriênio de 2013 até 2016. De acordo com o presidente, durante os primeiros quatro anos à frente da fundação, inúmeros trabalhos foram realizados e centenas de famílias de Lagoa da Prata foram atendidos com os trabalhos da Futura.

“No nosso primeiro mandato à frente da Fundação conseguimos inúmeros feitos. Primeiramente conseguimos o projeto completo para reforma do museu. A fundação tem em mãos hoje o projeto arquitetônico, estrutural, elétrico e hidráulico para o museu. Isso sem contar com as mais de 600 crianças e jovens que foram atendidos pelo projeto de iniciação às artes, onde os alunos tinham aulas de música, artes plásticas e muito mais”, explicou Lucas.

Lucas afirmou que a fundação está desde o fim do primeiro mandato sem atuação e que dependia do apoio da gestão municipal para realizar os trabalhos. De acordo com o presidente, o segundo mandato de 2017 a 2020 está vacância e a fundação desde então está sem atividade alguma.

“A Futura era dependente dos recursos da Prefeitura para que pudéssemos realizar nossas atividades. Ao fim de 2016, quando o prefeito foi reeleito, o então secretário de Cultura veio até mim e disse que não haveria mais repasse de verbas para as ações da Futura. Infelizmente mais de 600 jovens foram prejudicados com esse corte, e as aulas foram até o fim do ano só porque houve um empenho de muitas pessoas, inclusive dos professores de artes. Nos últimos dois meses de 2016 já não tínhamos mais o suporte da gestão, e isso fez com que até a nossa contabilidade fosse prejudicada. É bom salientar que a Prefeitura recebe ICMS cultural por conta do Museu, que é um patrimônio tombado. E nunca essa verba referente ao ICMS cultural foi repassado para a Futura”, afirmou Lucas.

O presidente da Fundação é enfático ao afirmar que tem interesse em que a Prefeitura volte a ter responsabilidade pelo Museu e diz que a Futura abre mão de realizar os trabalhos que é de sua responsabilidade, para que a Prefeitura possa de fato fazer algo para a conservação e manutenção do Museu.

“Nós da Futura sozinhos não temos condições de manter e conservar o Museu sem o aporte da Prefeitura. Durante os anos em que houveram aporte financeiro, nós realizamos inúmeras ações, temos um projeto completo para a reforma do espaço, mas sem o apoio da gestão não conseguimos fazer nada. Se é para o bem do patrimônio e da população, nós abrimos mãos de gerir o Museu e repassamos essa responsabilidade para a Prefeitura que de fato pode e deve fazer algo para reformar e conservar o casarão”, completou Lucas.

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Foto: Rafael Robatine.

Prefeitura Municipal

De acordo com o secretário de Cultura de Lagoa da Prata, Vilmar Pereira, a gestão tem total interesse em receber de volta a responsabilidade de gerir o Museu e diz que já está trabalhando para isso.

“O Museu é um patrimônio de Lagoa da Prata e faz parte da nossa história. Estou a pouco tempo à frente da Secretaria, porém já venho tentando um diálogo para tentar fazer com que a Futura devolva o Museu para o município” afirmou Vilmar.

O secretário diz que já foi até a Promotoria para tentar uma maneira de resolver as pendências com relação ao Museu e Fundação Futura, porém, a Fundação está com problemas para resolver algumas prestações de contas que ainda estão pendentes e isso dificulta o processo da Prefeitura em se reapropriar do casarão.

“Inclusive já fui à Promotoria, mas a informação que temos é que a Fundação está com problemas com prestação de contas desde o ano de 2016. Enquanto não regularizarem essas pendências a Prefeitura fica de mãos atadas. Recentemente realizamos a Conferência Municipal de Cultura e um dos assuntos abordados foi com relação ao Museu, mas infelizmente nenhum dos membros da diretoria da Futura se fez presente na Conferência”, completou o secretário.

Força tarefa

No último dia 1 de outubro, aconteceu uma reunião com os interessados na reforma e manutenção do Museu. A reunião aconteceu no Teatro Fausto Rezende, no Terminal Turístico da Praia Municipal. Na ocasião estiveram presente a Associação dos Moradores do Bairro Santa Alexandrina, representantes da Futura e alguns secretários municipais.

Na reunião, os representantes da Futura deixaram claro o interesse em devolver a responsabilidade pelo Museu para a Prefeitura, que por sua vez disse novamente que tem interesse em gerir o casarão. Os moradores da região do museu marcaram presença na reunião e expuseram as demandas para a gestão. Os secretários da gestão se colocaram à disposição para dar o suporte necessário para levar mais segurança à região. Na ocasião prometeram agilidade no que tange à conservação e limpeza da região, assim como em fazer um serviço de manutenção completa na iluminação da praça e entorno.

Até o fechamento desta matéria, o Museu, assim como a praça e o entorno do casarão continuam da mesma maneira. Nenhuma intervenção aconteceu por parte da Prefeitura. O local continua rodeado por matagal, com muito lixo no entorno do casarão e a vizinhança continua sofrendo com a escuridão da praça e, consequentemente, com o consumo e comercialização de drogas, onde foi o primeiro casarão colonial de Lagoa da Prata.

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