COMPARTILHAR
Continua depois da publicidade.

Guerrilha cultural. Esse talvez seja o nome que melhor reflita o que vem acontecendo no interior de Minas Gerais. São festivais de música, dança, teatro, exposições de artes plásticas, cineclubes, saraus, intervenções urbanas, tudo realizado de forma independente e com recursos mínimos. Quem faz acontecer são pessoas comuns, que não têm vínculo partidário e sequer recebem pelo seu trabalho. Elas se organizam através de coletivos, grupos independentes, associações e fundações. Sem nem mesmo se conhecerem, comungam uma luta. Seu front de resistência (e persistência) faz pulsar a cena cultural Minas adentro.

Criar um público, captar recursos, enfrentar a desconfiança ou o elitismo, conviver com a disputa de interesses são alguns dos empecilhos enumerados por membros de grupos independentes de promoção artística cultural. Isso, no entanto, não desmotiva os ativistas e entusiastas. Por que a persistência?

Eu diria que esse desejo de movimentar a cultura está intimamente ligado a um desejo de mostrar que a vida é, sobretudo, diversidade, movimento, e que outros modos de viver, sentir, cantar, dançar e experimentar o mundo são possíveis e necessários

Continua depois da publicidade.

“Eu diria que esse desejo de movimentar a cultura está intimamente ligado a um desejo de mostrar que a vida é, sobretudo, diversidade, movimento, e que outros modos de viver, sentir, cantar, dançar e experimentar o mundo são possíveis e necessários. Eis o papel da arte: liberar as potencialidades adormecidas da vida”, justifica o psicólogo e músico Helder Clério, um dos organizadores do Lacustre, festival de música independente de Lagoa da Prata.

Nessa cidade, em 2012, surgiram dois coletivos: o E-Cult e o Nexalgum, que, na época, realizavam eventos bimestrais. Mesmo com a importância dessas ações para a cidade, os organizadores do Lacustre decidiram não atrelá-lo a um coletivo específico na edição deste ano. “Não sentimos necessidade de institucionalizar o grupo de realizadores. Desde o início, o evento foi pensado como temporário, efêmero”, diz Clério.

“Trocando cebola”

Pouco mais de 4.200 habitantes, estima o IBGE acerca da população de Japaraíba. Na pequena cidade, a Associação Comunitária Cultural (Ascult) está, desde abril de 2009, desenvolvendo um trabalho de educação e resistência. Hoje são mais de cem alunos, entre crianças e adolescentes, que se apresentam com uma banda e um grupo de flauta em diversas cidades. As aulas são gratuitas, mas os professores recebem salário. Indagada sobre como a Ascult sobrevive, a integrante Kôka Lopes repassa: “Temos uma subvenção municipal e algumas doações dos alunos. Fazemos uns bingos e vamos trocando cebola”. Assim, o grupo já concretizou um calendário de artes na cidade, apresentando dois eventos de destaque: o encontro literário e a semana do músico.

Riqueza cultural que pulsa entre as montanhas

O berço da iniciativa cultural mais recente é Santo Antônio do Monte, onde foi fundado, há apenas dois meses, o Pólvora Cultural. O nome faz alusão à atividade econômica predominante na cidade, conhecida por ser uma das maiores produtoras de fogos de artifício do planeta. O coletivo nasce do “desejo de muitos de tornar a cultura local algo tão valorizado quanto esta atividade”, explica a psicóloga e produtora cultural Priscila Costa, integrante do novo coletivo.

destac - pólvoraEssa centelha uniu um grupo de jovens que trabalha na consolidação de um calendário de ações. Caso do 1º Pólvora Sonora, festival de música que deve receber artistas da região.

Já o Coletivo Independente In-Pulso agita a cena em Bom Despacho desde 2012, por meio de jovens que não se contentavam em ficar esperando que as oportunidades surgissem milagrosamente.

A última realização do grupo foi o 2º Grito Rock, que carrega o selo do Fora do Eixo (organização que dialoga com coletivos de todo país). O In-Pulso visa o “fomento da cultura regional alternativa, como saraus, festivais de bandas, oficinas e zines”, explica a historiadora e professora Gláucia Neto.

A ordem é não se render

Algumas cidades, como Divinópolis, ostentam tantos coletivos que, lá, optou-se por fundar a associação Rede Age – Ponto de Cultura. Em Formiga, o poeta Gabriel Nogueira exportou um formato de sarau batizado de Poesia no Talo!. São apresentações itinerantes, com microfone aberto a quem quiser vociferar textos (próprios ou consagrados).

Além de canal para divulgação e interação (público e artista), as iniciativas “reafirmam a riqueza cultural que temos, trazendo à tona o que o povo é capaz para transformar e construir o cenário em que deseja viver”, avalia a cantora Thalita Aneda, vencedora do concurso de bandas do Festival Lacustre.

O músico Zé Cotché, de Contagem, vê hoje, no interior de Minas, uma ação bem mais conjunta que alguns anos atrás. De fato, com um número crescente de iniciativas que, aos poucos vão se conectando e se fortalecendo, as cidades têm sido tomadas por festivais e eventos jogam luz sobre as mais diversas vertentes artístico-culturais. Não que as dificuldades não existam. Para o fotógrafo e produtor cultural de Formiga Gustavo Borges, o importante é não se render. “Vamos continuar na luta, sempre!”, brada.

Por: Alex Bessas – Hoje em dia

Deixe o seu comentário e compartilhe no Whatsapp