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Um novo modelo de lecionar e visões de ensino marcam o dia dos professores

Professores comentam o papel do educador durante e após a pandemia da covid-19. Uso da tecnologia deve permanecer como ferramenta de apoio no cotidiano dos alunos.

João Alves
Rhaiane Carvalho


É clichê dizer que ser professor é formar todas as outras profissões? Não, não é! Ser professor é uma vocação que nasce do amor e do comprometimento, chegando a ser quase que um sacerdócio. Sem professor, não há educação, não há profissões e não há futuro! Se durante a pandemia covid-19, profissionais da saúde foram devidamente homenageados por estarem na linha de frente do combate à doença, há que se homenagear também aquele profissional que sempre foi a primeira linha de frente na formação de uma sociedade comprometida com a ciência e a educação.

No dia 15 de outubro é celebrado o dia dos professores; uma data que deveria ser memorável a cada ano. Mas de tempos em tempos, é possível perceber que aqueles que optam pelo exercício da profissão, caminham com o desejo de manter firme o acreditar que é a educação que move e muda o mundo; é o acreditar que o amor supera todas as dificuldades imposta à classe.

Dentre tantos problemas enfrentados pelos professores como a desvalorização da profissão, falta de estrutura, salários incompatíveis com o legado, cargas de trabalho excessivas; há dois anos a realidade ainda exigiu um novo modo de trabalhar. Com a chegada da pandemia de covid-19, há quem teve que adaptar a casa para dar aulas, aprender a mexer com a tecnologia; enfrentar o medo que a intimidação da câmera pode trazer; e ainda sim, tentar repassar o conhecimento sem o contato direto com os alunos. Se foi difícil? Para muitos, sim. Para outros, a pandemia oportunizou sair da zona de conforto e se reinventar.

Para saber como tem sido lecionar nos últimos tempos; as dificuldades impostas e como cada um as driblam; o enfrentamento da pandemia como profissionais da educação; e o voltar para a sala de aula, o Jornal Cidade conversou com professores que contaram suas experiências. Muito mais que um dia, um mês de homenagens, é preciso conhecer de perto como os heróis da Educação formam profissionais, os melhores profissionais da cidade, do estado e do país.

Regiane Costa é professora há dez anos, ela contou que quando escolheu a profissão enfrentou o preconceito, e quando iniciou o exercício da mesma, a dificuldade. “Na verdade, o que faz a gente se manter na profissão é o amor mesmo. Quando a gente acorda para ir trabalhar, junto, para a escola, vai a nossa esperança de que algum dia a Educação seja a prioridade do nosso país. Me esbarro em dificuldades a todo momento, mas estou firme. Eu acredito nos meus alunos! Eu acredito nas pessoas que estou ajudando a formar. Não vou à escola só pra fazer qualquer trabalho e receber; vou para salvar alguém do mundo das drogas; outro da violência doméstica e até mesmo sexual; vou para ajudar na formação de pessoas; vou pelo meu papel que é muito maior do que ensinar o Português; meu papel é fazer a diferença no meio em que estou inserida”.

A professora ainda falou da dificuldade de trabalhar quando o país atravessa uma pandemia.

“Existe a dificuldade em aprender a utilizar novas ferramentas e o fato de muita coisa ser cobrada, em um curto período de tempo. Sobre as novas tecnologias utilizadas, por exemplo, eu posso citar o fato de que muitas pessoas têm facilidade em falar com multidões, mas falar para uma câmera é algo totalmente diferente e desafiador. O volume de trabalho aumentou bastante depois do regime de aulas a distância. Como eu não estava acostumada com esse tipo de trabalho, tive que aprender a utilizar muitas ferramentas, sem falar que o formato das atividades feitas a distância é bastante diferente das feitas em sala de aula e isso é bastante desafiador. Mas agora estamos voltando gradualmente às salas de aula, e isso dá uma sensação de alívio; de que tudo isso pode estar acabando e que a gente logo vai poder ter os alunos mais perto da gente”. 

Roberto Wagner, é professor de história e, há 10 anos, ocupa o cargo de diretor na Escola Estadual Virgínio Perillo, em Lagoa da Prata. Quando perguntando sobre a maior dificuldade enfrentada pela categoria durante o ensino remoto, o diretor foi bastante enfático: “Tudo! Até a pandemia, o ensino a distância era exclusivo de estudantes de pós-graduação e de graduação, de realidades bastante diferentes dos alunos do ensino fundamental e médio. Tudo foi muito difícil. Buscar esses alunos, fazer com que eles estivessem em dia com as atividades escolares, entrar em contato com os pais, e o mais importante: manter a motivação dos alunos que, durante esse período, sofreram a perda do vínculo com a escola e parte do entusiasmo com o ensino”.

Roberto Wagner. Diretor da Escola Estadual Virgínio Perillo, em Lagoa da Prata. (Arquivo pessoal)

 

Outro assunto abordado na entrevista foi a valorização do professor na sociedade brasileira, o diretor esclareceu que, embora a categoria receba críticas – comentários negativos que acabam monopolizando o debate sobre o papel do professor – o apoio recebido por parte da comunidade é expressivo.

“Como professor, e agora que estou no cargo de direção, em que acompanho o trabalho de aproximadamente 70 servidores, digo que recebemos bastante apoio da comunidade em geral, porém, algumas críticas costumam se sobressair a esses elogios. Parece ser algo cultural do Brasil. Considerando a realidade da nossa escola (Virgínio), a comunidade apoia muito, reconhece os feitos e elogia muito. Andamos bem juntos com a nossa comunidade”.

O retorno às atividades presenciais representa uma insegurança para as famílias dos alunos e também para muitos professores. Mesmo que os profissionais da educação já estejam vacinados com as duas doses contra a covid-19, alguns questionam se o momento é propício para o retorno em razão do número de pessoas envolvidas nesse processo. Roberto Wagner, no entanto, é bastante otimista quanto isso. Ele esclarece que, atualmente, a maior preocupação da comunidade escolar deve ser o aluno. “O aluno perdeu o vínculo com a escola, o hábito de acordar em um horário específico e permanecer na sala de aula durante quatro horas e meia”.

Em relação aos protocolos contra a covid-19, o diretor afirmou que o Estado investiu muito em EPIs e que o espaço está seguro para receber alunos e professores. Aferição de temperatura, distribuição de álcool em gel e máscara, distanciamento social, escala de horários para entrada, saída e para merendar também entram na lista de medidas preventivas contra o contágio. “Eu chego a fizer que dentre todos os setores da sociedade, a escola é o setor mais seguro para essa reabertura.”

Se a pandemia teve algum ponto positivo, foi a ‘reciclagem forçada’ de toda categoria em relação à tecnologia.”

Sobre o futuro da profissão, especialmente em relação ao uso da tecnologia – através da qual foi possível manter contato com os alunos durante o momento mais crítico da pandemia, Roberto Wagner acredita que a sala de aula deve continuar conectada mesmo após o retorno integral às aulas presenciais. Ele brinca que se a pandemia teve algum ponto positivo, foi a “reciclagem forçada” de toda categoria em relação à tecnologia. “Era uma realidade que precisava ter acontecido há muito tempo. Desde que entrei na direção da escola tentei deixá-la o mais informatizada possível, porém uma ala de professores ainda insistia em nadar contra a correnteza. Com a pandemia, todo professor precisou se capacitar tecnologicamente para conseguir oferecer um ensino de qualidade”. O diretor acredita que muitas ferramentas, como as oferecidas pela Google, devem ser mantidas e trarão mais dinamismo para a educação.

Perguntado se a profissão do professor ganhou um novo significado ou uma nova camada de responsabilidade com a pandemia, Roberto afirma que “muitos pais viram o que é lidar com a faixa etária de 5 aos 18 anos no sentido de orientar, ensinar e impor limites, porque durante a pandemia, esta tarefa ficou a cargo deles, nós apenas observávamos de longe. Com isso, a família viu a importância do professor não apenas enquanto docente, mas como conselheiro, psicólogo e educador em um sentido mais amplo. É possível dizer que ganhamos essa camada adicional de reconhecimento por parte da sociedade.

Zé Roberto, professor aposentado que lecionou por mais de 30 anos, comenta que esse novo desafio abrirá novas portas: “Passar os conhecimentos de uma geração a outra é algo muito importante e a internet é uma ferramenta muito útil neste trabalho essencial. Como há muita informação. Um desafio é filtrar a verdade. É buscar a verdade. É não ser enganado. Os envolvidos com a educação devem enfrentar a esses desafios”.

Zé Roberto. Professor aposentado (Arquivo pessoal)

 

A sociedade trata a educação como um bem não essencial”

Naldo Vieira, professor lagopratense que há 15 anos leciona na Região Metropolitana de Belo Horizonte, elegeu como a principal dificuldade do ensino durante a pandemia a falta de participação nas aulas remotas. O professor de química ainda disse que não se sente valorizado pela sociedade em geral, da mesma forma que a educação não é valorizada no Brasil. “A sociedade trata a educação como um bem não essencial”.

Contudo, em relação à adoção das tecnologias de informação nas aulas presenciais, suas opiniões vão ao encontro das opiniões de Roberto Wagner. “Sim. A tecnologia será adotada como mais uma ferramenta que poderá ser usada pelos profissionais da educação, como as várias plataformas adotadas no ensino remoto para reuniões online etc…”.

Além disso, Naldo concorda que a percepção da população sobre o professor ganhou uma nova dimensão em decorrência da pandemia:

“A população em geral descobriu a importância da interação física entre professor e aluno. O ensino a distância, durante a educação fundamental e média, não obtém o mesmo resultado e não possui a mesma qualidade que o ensino presencial, já que muitos lares não contam nem mesmo com acesso à internet. Além disso, o professor contribui para a formação do aluno enquanto indivíduo, na medida em que proporciona a ele experiências que vão além do âmbito intelectual”.

Se tem algo que pode mudar a sociedade é a educação

Após os comentários dos professores entrevistados pelo Jornal Cidade, fica bastante clara a importância do professor na transformação da sociedade. Muito mais que um reprodutor de informações, a pandemia deixou evidente que a relação entre professor e aluno é determinante para a qualidade do ensino em sentido amplo – educação que não se resume aos livros didáticos, mas também ao conhecimento necessário para o aluno exercer ativamente a sua cidadania. Numa sociedade que sofre com o excesso de informações, especialmente em uma época em que fake news conquistam espaço, o papel do professor é ainda mais desafiador: conduzir o aluno por um labirinto minado pela desinformação e pela ignorância.

Se tem algo que pode mudar a sociedade é a educação. Não só por ser capaz de mudar a realidade socioeconômica do aluno, ao proporcioná-lo condições para se formar no ensino superior, mas por transformá-lo em um cidadão consciente e em um agente de transformações, que respeita o próximo e que é crítico em relação a sociedade em que vive”. Roberto Wagner.

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