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Quando ceder se torna demais

Esperar uma retribuição ou, pelo menos, um reconhecimento é um preço comum que as pessoas cobram por ceder. Às vezes a irritabilidade é o preço que a própria pessoa que cede paga. É como se ela fosse acumulando em um pote todas as vezes em que cedeu, até que o pote entorna.

Em um relacionamento amoroso é comum observarmos um dos parceiros cedendo demais, enquanto o outro se mantém mais livre para ser ele mesmo e fazer o que quer. O parceiro que cede mais o faz, comumente, para evitar conflitos, ou seja, manter o relacionamento estável e pacífico. Mas essa atitude realmente funciona? E mais importante: Qual o preço que se paga por ela?

Após o economista estadunidense Milton Friedman (1912-2006), ganhador do prêmio Nobel de 1976, dizer que “não existe almoço grátis”, referindo-se aos custos de um benefício gratuito concedido por um governo, a frase ficou popularmente conhecida. Costuma-se dizer, então, que não existe almoço grátis porque alguém sempre paga a conta. Não me refiro aqui ao mérito econômico, mas observo uma padrão semelhante nas relações humanas. Em outras palavras, a pessoa que cede demais costuma pagar e cobrar um preço por isso. Um preço invisível, porém que pode ser muito alto.

Um paciente me mostrou um exemplo perfeito do preço que se paga por um “almoço grátis”. Ele, para agradar a namorada e a família dela, ia todos os domingos à missa. O problema era que ele ia sem querer, pois era ateu. Não era um sofrimento para ele, então ele não via sua atitude como um sacrifício grande. Era melhor, em sua visão, continuar indo porque os benefícios, como a felicidade da namorada e a aceitação da família dela, eram maiores do que os custos. Contudo, ele não percebia que cobrava um preço invisível pela atitude. Quando sua namorada não quis ir a um encontro com seus amigos, pois ela não gostava muito deles, ele rapidamente falou: “Mas eu vou à missa com você todos os domingos, você não pode fazer isso por mim?”. Essa fala mostra que sua atitude de ir à missa não era gratuita, ele esperava uma retribuição. Como dizem os estadunidenses, não existe almoço grátis.

Esperar uma retribuição ou, pelo menos, um reconhecimento é um preço comum que as pessoas cobram por ceder. Às vezes a irritabilidade é o preço que a própria pessoa que cede paga. É como se ela fosse acumulando em um pote todas as vezes em que cedeu, até que o pote entorna. A partir desse momento, pequenas frustrações com o parceiro se tornam a gota d’água. A impaciência e o nervosismo tomam conta da pessoa, assim explode quando contrariada. Como se costuma dizer, ela “desconta” sua raiva por ceder excessivamente nos outros. Nesses casos, ceder demais faz com que a pessoa perca a própria liberdade e, também, a sua paz. E isso pode ser um preço alto a se pagar.

As pessoas comumente não querem ser egoístas, então ceder parece ser uma atitude altruísta, que visa ao bem do próximo. É uma atitude aparentemente mais aceitável. Todavia, se existe um preço a se cobrar por essa atitude ela não é mais altruísta, assim o altruísmo aparece apenas para evitar o sentimento de culpa. Quando isso acontece, a pessoa cede para não parecer egoísta. Encontrar o equilíbrio entre ceder e não perder a liberdade para não cobrar por isso depois pode ser um desafio para muitas pessoas. Mas existe realmente uma atitude totalmente altruísta?

Um amigo psicólogo uma vez me disse que a amizade dele por mim era “interesseira”, ou seja, que ela existia por interesse dele. Isso pode parecer moralmente ruim, porque a nossa cultura condena pessoas “interesseiras”. Antes de emitir uma opinião, procurei ouvir mais. Em sua visão, o seu interesse na minha amizade era se divertir comigo, aprender comigo, aventurar-se pelo mundo comigo. E me disse ainda mais: “Não acredito em uma amizade sem interesse.” Assim, em seu ponto de vista, uma pessoa precisa ter interesse na outra para construir uma amizade ou um relacionamento amoroso, por exemplo. O interesse pelo outro é o motor para se aproximar dele. Ter interesse no outro não significa usá-lo como se usa uma ferramenta para descartá-lo depois, como normalmente se entende a palavra nesse contexto.

O pensamento de “sempre existir interesse” pode esclarecer o funcionamento humano. A pessoa que cede demais tem um interesse nisso, e ela precisa saber qual o seu interesse para não cobrá-lo depois de forma inconsciente. Meu paciente, por exemplo, não sabia que seu interesse em ir à missa com a namorada incluía uma exigência deque ela também se sacrificasse um pouco por ele. Assim, cobrava dela sem ter a plena consciência das suas atitudes.

Mesmo quando ajudamos o outro, apenas o fazemos porque temos interesse em ajudá-lo. O interesse em ser uma pessoa boa, em ter orgulho de si mesmo é um interesse válido. Ser visto como uma pessoa boa pelas pessoas ou por deus também é um interesse frequentemente observado. Saber identificar os próprios interesses nas relações que se estabelece com as pessoas que você ama ou com todas as outras pode ser um autoconhecimento importante para se ter mais controle sobre o próprio comportamento e, assim, não cobrar injustamente depois.

(Foto: arquivo pessoal/Divulgação)

Rodrigo Tavares Mendonça é psicólogo e especialista em psicoterapia de família e casal. Contato: (37) 9.9924-2528

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