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Psicólogos falam sobre geração de pessoas com transtornos de ansiedade, depressão e outros problemas psicológicos

O brasileiro chegou ao menor índice de felicidade média em 15 anos, desde que o número começou a ser medido, em 2006, pela Fundação Getúlio Vargas.

Rhaiane Carvalho


O mundo está em mudança, e talvez isso seja permanente para nosso modo de viver, pensar e agir. Essas mudanças estão sendo exigidas cada vez mais, principalmente, daqueles que enfrentam uma pandemia no auge da juventude e daqueles que possuem família para sustentar. É comum conversar com jovens e pais de crianças e adolescentes, e de pessoas cujo trabalho é a única fonte de renda de suas residências e ouvir que estão passando por um período difícil em suas vidas em relação a diversos transtornos psicológicos como ansiedade, crises de pânico, depressão e outros problemas psicológicos, ocasionados pelo desemprego, excesso de informações, e até mesmo pelos estragos da pandemia.

De acordo com o site da CNN Brasil, com a pandemia, o brasileiro chegou ao menor índice de felicidade média em 15 anos, desde que o número começou a ser medido, em 2006. A conclusão é da pesquisa Bem-Estar Trabalhista, Felicidade e Pandemia, divulgada no dia 14 de junho pela FGV Social, centro de políticas sociais da Fundação Getúlio Vargas. A felicidade média do brasileiro, numa escala de um a dez, chegou a 6,1 — 0,4 ponto menor do que a registrada no ano anterior. O dado é obtido a partir de uma avaliação dos entrevistados da satisfação com a própria vida. A queda foi maior do que a média registrada em 40 países, que vão da China ao Zimbábue, segundo dados da Gallup World Poll analisados pela FGV. No restante do mundo, o índice foi de 6,02 a 6,04, ou seja, permaneceu relativamente estável. Essa perda de felicidade, porém, não é uniforme e foi sentida de maneira mais forte pela população mais pobre do país. Entre os 40% mais pobres, a queda foi de 0,8 ponto; enquanto, entre os 20% mais ricos, houve ligeira alta, de 0,1 ponto.

A pesquisa também mostra que a desigualdade, medida pelo índice de Gini, bateu recorde no primeiro trimestre de 2021, chegando a 0,674. A escala, que leva em conta uma série de fatores, vai de 0 a 1 — quanto mais próximo do zero, menos desigual.

Para comparação, o recorde anterior, observado no primeiro trimestre de 2020, era de 0,642. “A literatura considera este movimento um grande salto de desigualdade”, observa o texto. A renda média também foi do maior ao menor nível da série histórica. De janeiro a março de 2020, a renda média bateu recorde, com R$ 1.122. Em menos de um ano, caiu 11,3% e atingiu o menor ponto, de R$ 995. Essa é a primeira vez que fica abaixo de R$ 1 mil mensais. Os mais pobres do Brasil perderam quase o dobro da renda, da média dos brasileiros durante um ano de pandemia do novo coronavírus. Enquanto a população média viu uma queda de 10,89%, os mais vulneráveis caíram quase o dobro, tendo uma redução de 20,81% em sua renda.

 

A reportagem do Jornal Cidade conversou com os psicólogos Helder Cardoso e  Luciene Morais, para saber mais sobre o fundamento dessas doenças e como elas devem ser tratadas. Helder é psicólogo e especialista em saúde mental e Luciene é especialista em neuropsicologia, terapia comportamental e cognitiva.

Jornal Cidade:  Estamos há um ano na pandemia e, neste período, o número de pessoas com ansiedade e depressão subiram. No caso dos adultos, como saber identificar os sinais e procurar ajuda? Em relação ao público jovem, como os pais podem identificar esses sinais dos transtornos, principalmente os de ansiedade e depressão?

Helder Cardoso:  Os sintomas mais comuns dos quadros depressivos são o humor deprimido, choro fácil, tristeza profunda, alterações no padrão do sono, ausência de interesse e prazer em atividades que antes eram interessantes e prazerosas, falta de energia e vontade para lidar com a rotina, dentre outros. Em casos mais graves podem também estar presentes ideias de suicídio, que podem ir desde ideias vagas, ruminações, até o planejamento dos meios e realização de tentativas de suicídio.

Esses sintomas estão presentes tanto no caso dos adultos, quanto nos jovens. No caso dos jovens, porém, cabe ressaltar ainda a presença comum de comportamento autoagressivo, como a realização de cortes, escarificações no próprio corpo, especialmente nas garotas. É importante que os pais estejam atentos e construam uma relação que favoreça o diálogo com seus filhos. E no caso de notarem que eles podem estar passando por um episódio depressivo, procurar por um profissional da área da saúde mental.

Luciene Morais: É importante salientar que os sinais de depressão e ansiedade exacerbada podem se apresentar de formas variadas, portanto, diante de suspeitas, o melhor é procurar por avaliação profissional.

De uma forma geral, é comum que em adultos e jovens, a ansiedade elevada se apresente por meio de crises de pânico (sudorese, tremores, falta de ar, palpitações, sensação de perda de controle e de perigo/morte iminente), insônia, brusca diminuição ou aumento de peso, dificuldades para se concentrar, bruxismo, obsessão por limpeza ou organização etc.

Em crianças podem surgir sintomas como pesadelos recorrentes, dificuldades para pegar no sono, medo de dormir sozinha, enurese noturna, alterações no apetite e etc.

Quanto aos sinais de depressão, são mais difíceis de serem identificados, entretanto, é comum que, tanto em criança quanto em jovens e adultos ocorram a perda de vontade de fazer atividades que antes havia prazer em se fazer, isolamento, sensação de cansaço constante, irritabilidade, descuido em relação a própria higiene, alterações do apetite e sono etc.

Jornal Cidade:  Com relação aos transtornos, o número de suicídios por jovens teve um aumento. O que pode levar esses jovens a cometer o ato?

Helder: Trata-se de uma pergunta de difícil resposta, pois sempre é algo de ordem íntima, individual, que marca a existência desses jovens de forma que para eles parece não haver outra saída além da própria morte. Porém, ao mesmo tempo, não se pode deixar de notar que se trata de algo que tem relação com nosso tempo, nossa sociedade. O aumento das taxas de suicídio entre os jovens possui relação com as condições do que é ser jovem hoje: uma forte atenção à própria imagem e ao corpo, uma oferta imensa e ininterrupta de mercadorias que prometem preencher todos os vazios, uma relação de imersão intensa nas novas tecnologias da comunicação, um certo imediatismo, um individualismo extremo, uma dificuldade com as frustrações, com a dor, a tristeza etc.

Luciene: O suicídio é um fenômeno multideterninado, ou seja, não pode ser definido por um único fator. Condições biológicas, sociais e psicológicas precisam ser avaliadas em conjunto para então dizermos sobre os fatores de risco. No que se refere aos quadros psíquicos onde comumente ocorrem as tentativas de autoextermínio, podemos citar a depressão, o transtorno  bipolar, a esquizofrenia e o transtorno de personalidade borderline. No entanto, é importante considerar que outros transtornos também podem apresentar risco, principalmente quando funcionam como gatilhos para o abuso de drogas, o que também é considerado um fator que aumenta o risco de suicídio.

Jornal Cidade:  Como uma pessoa desenvolve ansiedade e depressão? (Explique por favor, também com relação às crianças e adolescentes).

Helder: Mais uma vez, trata-se de uma pergunta de difícil resposta, pois é sempre de algo singular, ligado à história de cada sujeito que vivencia essas experiências. Há diversas causas envolvidas no desenvolvimento de um quadro depressivo, desde alterações hormonais (disfunções na tireoide e menopausa são bons exemplos), outras doenças físicas de base, eventos traumáticos (morte de alguma pessoa querida, término de relacionamento etc), ou mesmo certa maneira disfuncional do sujeito estar no mundo. O que é importante deixar claro é a importância de estarmos atentos aos sintomas de um possível quadro depressivo ou ansioso em algum familiar, algum amigo, e o incentivarmos a procurar pelo apoio de um profissional da área da saúde mental, que é quem irá investigar as possíveis causas e tratá-las.

Luciene: Como citei anteriormente, nunca falamos em uma causa, mas em fatores biopsicossociais que probabilisticamente podem aumentar os riscos de ocorrência do adoecimento.

No que se refere ao biológico, entende-se que algumas pessoas já trazem em sua carga genética maiores predisposições para desenvolver tais quadros. Pode ocorrer também alguma vivência atípica, como um adoecimento que interfira no funcionamento neurológico e desencadeie o adoecimento.

No que tange aos fatores sociais, entende-se que inúmeras variáveis podem interferir, tanto no desenvolvimento quanto no processo de recuperação de quadros de ansiedade e depressão. Os tipos de influência, estimulação e apoio que a pessoa tem estão diretamente relacionados às questões sociais em que está inserido.

Quanto aos aspectos psicológicos, podemos citar a dificuldade em lidar com situações novas como gatilhos para quadros de ansiedade ou depressão, por exemplo, perda ou mudança de emprego, morte de familiar, adoecimento, divórcio, mudança de cidade e a própria pandemia.

Quanto às diferenças na apresentação dos dois quadros psíquicos, de uma forma simplificada podemos dizer que a ansiedade se caracteriza pela previsão que o indivíduo faz quanto ao risco de ocorrência de algo aversivo, bem como a sensação de incapacidade para fazer algo que evite, postergue ou amenize seu sofrimento. O organismo fica em constante estado de alerta, buscando por alguma saída, o que pode levar a um esgotamento físico e mental. É comum, no entanto, que a pessoa busque por apoio ou alguém perceba a situação e ofereça algum tipo de direcionamento e apoio.

Na depressão, percebe-se a desesperança e diminuição da energia como fatores principais, ocorre o que é conhecido como desamparo aprendido, ou seja, o indivíduo se vê em uma situação aversiva e não percebe saída. Porém, ao invés de se desesperar e entrar em um modo de alerta, o indivíduo paralisa e entra em um processo de desistência. O problema aqui é que a depressão pode passar despercebida, pois nem sempre o indivíduo busca apoio e os sintomas não são tão evidentes como na ansiedade.

Helder Cardoso é psicólogo e especialista em saúde mental CRP04/42716. Contato: (37)937 8819-3790. Luciene Morais é especialista em neuropsicologia/terapia comportamental e cognitiva. CRP 0437799 Contato: (37) 9 9869 9964

 

Jornal Cidade:  Quando procurar ajuda?

Helder:  Sobre o momento de procurar ajuda, diria que é preciso procurar por um apoio profissional quando se nota que o transtorno vem prejudicando de forma significativa a vida da pessoa (a vida íntima, profissional, as relações familiares…). Quanto a esse ponto, apenas duas ressalvas: por um lado, não se deve esperar o quadro se agravar a ponto de chegar a uma tentativa de suicídio, logicamente; por outro, é importante não confundir tristeza com depressão, ou mesmo considerar que um jovem menos sociável, menos falante, mais caseiro pode estar deprimido. Isso pode ser apenas um modo singular de ser daquele sujeito.

Luciene: É importante procurar ajuda quando o transtorno está provocando sofrimentos excessivos ou prejuízos funcionais na vida desse indivíduo, por exemplo, no autocuidado, na área laboral, escolar e social. Se a pessoa fala em sumir, tirar a própria vida ou manifesta outros sinais de ideação suicida é importante levar a sério e procurar ajuda o mais rápido possível com profissionais da psiquiatria e psicologia.

Jornal Cidade: Como esses dois transtornos interferem na vida pessoal e profissional dos adultos?

Helder:  Esses transtornos, bem como os demais transtornos mentais, podem afetar significativamente a vida pessoal e profissional daqueles que o vivenciam. Freud tinha uma definição simples e concisa de uma pessoa saudável psiquicamente: alguém capaz de amar e trabalhar. Partindo dessa definição, eu diria que esses transtornos prejudicam a nossa capacidade de amar e trabalhar, no sentido amplo dos termos.

Luciene: Os dois transtornos podem ocorrer de forma conjunta, ou seja, após um quadro de intensa ansiedade, se a pessoa não encontra solução e amparo, pode surgir um quadro depressivo. Cabe salientar que nem sempre o problema está na pessoa! Alguns ambientes e relacionamentos podem apresentar fatores que desencadeiam quadros depressivos ou ansiogênicos. Nestes casos, o melhor é mudar o ambiente ou o relacionamento! Consideramos que a pessoa tem um transtorno psíquico quando o padrão comportamental dela ocorre mediante diferentes contextos e pessoas. Nesses casos, os prejuízos podem ser variados como: empobrecimento de relacionamentos sociais e\ou isolamento, perda de desejo e prazer por viver, problemas de aprendizagem ou interrupção de estudos, incapacidade para atividades laborais, autonegligenciamento e dependência química etc.

Jornal Cidade: Quais hábitos ou alternativas, além do tratamento do transtorno, as pessoas devem se atentar a inserir no dia a dia?

Helder:  Eu não saberia indicar hábitos ou alternativas válidas para todos. O que acho imprescindível é que cada um busque formas mais interessantes de usar seu tempo e sua energia. Formas de viver mais satisfatórias. Fazer da vida uma bela arte, como recomendavam os antigos gregos. Para uns, isso poderia consistir em incluir uma atividade física na rotina, para outros, começar a escrever poesias, ou costurar, ou aprender um instrumento musical, ou cultivar uma horta, ou começar a frequentar um grupo da igreja, ou participar de uma ONG, e por aí vai.

Luciene: Quando falamos em saúde mental também vale a máxima “Prevenir é melhor que remediar!” Alguns hábitos podem auxiliar na prevenção como: realização de atividade física (mesmo que seja uma caminhada), o estabelecimento de uma rotina diária, rotina do sono, alimentação balanceada, conhecer e respeitar os próprios limites, valorizar e reconhecer as próprias habilidades e realizações, ter um hobby, identificar  e aumentar a frequência de contato com pessoas e ambientes que despertam bons sentimentos, cuidar da saúde como um todo (física e mental), desenvolver hábitos produtivos e que envolvam satisfação, diminuir (dentro do possível) vivências que despertem sentimentos ruins e desejo de fuga.

Jornal Cidade:  Famílias que não possuem um diálogo aberto, tanto entre adultos, quanto com os filhos, qual a melhor maneira de introduzir e de incentivar o tratamento?

Helder: Penso que a construção de um ambiente propício ao diálogo é algo que se dá no dia a dia da família. É algo miúdo, cotidiano, artesanal mesmo. Não é algo que se constrói da noite para o dia. E a melhor maneira de construir esse tipo de relação é dispondo do nosso tempo para o outro e respeitando seu caminho singular, seu modo de ser. No caso de famílias em que não há uma cultura de diálogo, é bem mais difícil conversar sobre a necessidade de iniciar um tratamento em saúde mental, de fato. Nesses casos, pode ser interessante que a família procure por alguma pessoa de confiança para aquele que está necessitando de cuidados (um amigo, uma madrinha, um professor, por exemplo) para que essa pessoa seja uma interlocutora, e possa incentivar o familiar a se abrir para a possibilidade de um tratamento.

Luciene: A falta de diálogo aberto pode favorecer a desinformação e abrir margem para preconceitos e resistência à busca de apoio. Nestes casos é necessário a intervenção de uma terceira pessoa. É muito comum que o adoecimento não seja identificado por familiares, mas por amigos, vizinhos, professores ou até mesmo profissionais de saúde. No entanto, mesmo percebendo, nem sempre a pessoa se sente confortável para abordar o assunto diretamente com a família ou com a pessoa que está adoecida.  Caso isso ocorra, convém salientar que há formas indiretas de apoiar. É possível, por exemplo, informar a situação para uma agente de saúde atuante em programa de acompanhamento familiar, nas Unidades Básicas de Saúde. O importante é que tanto a pessoa quantos familiares sejam acolhidos, orientados e direcionados para o tratamento e intervenções necessárias.

Jornal Cidade:  Com relação aos adolescentes e crianças, o excesso de consumo de objetos eletrônicos ou a falta de sociabilidade das crianças tendem ao quadro de depressão?

Helder: Nosso tempo é marcado por uma presença marcante das tecnologias no cotidiano. Para nós adultos, que crescemos em épocas com uma presença um tanto menor das tecnologias em nossas vidas, esse excesso pode prejudicar, mas nem tanto. Já para as crianças e adolescentes, que atravessam essas fases tão importantes para o desenvolvimento imersos em objetos tecnológicos, isso pode ser bastante danoso, pois pode dificultar o desenvolvimento de certas habilidades sociais, impedir certa experiência da solidão, do silêncio. Penso que é importante que os adultos não assistam passivamente a isso acontecer. É claro que não é possível impedir todo acesso das crianças e adolescentes às novas tecnologias, mas é preciso orientá-los, moderar esse uso, introduzir outros objetos de interesse, outras atividades, como brincadeiras, jogos, esportes, leituras, etc. É preciso apresentar outras possibilidades para os jovens, outros modos de usar seu tempo, outras formas de satisfação.

Luciene: A dependência tecnológica, assim como outras dependências, com certeza está associada a diversos problemas de saúde mental, inclusive a depressão. O acesso às tecnologias proporcionam prazer de uma forma rápida e sem muito esforço. Em uma condição de concorrência, o excesso de comportamentos relacionados aos eletrônicos aumenta a frequência e reduz a ocorrência de outros comportamentos incompatíveis, porém necessários e importantes para uma vida ativa e saudável. As relações sociais, inclusive, podem ser afetadas, sendo substituídas por atividades eletrônicas diversas ou mesmo sendo substituídas por relações sociais eletrônicas. O repertório comportamental do indivíduo torna-se cada vez mais limitado e esse cada vez menos apto para lidar com situações cotidianas simples, podendo desencadear um processo depressivo.

Jornal Cidade:  Sobre a Síndrome de Burnout, do que se trata e como identificar e tratar?

Helder: A Síndrome de Burnout é um transtorno ligado ao mundo do trabalho. Como o próprio nome indica (Burn out seria algo como “queimar-se por completo”, “esgotar-se”), trata-se de um esgotamento completo do sujeito no que se refere a seu trabalho, seu labor. Os sintomas principais são fadiga intensa, exaustão física e mental, stress, sintomas físicos (dores de cabeça, dores musculares, fraqueza etc.), dentre outros. As condições de trabalho são fator determinante para o surgimento de um quadro de Burnout.

Luciene: A Síndrome de Burnout é também conhecida por Síndrome do Esgotamento Profissional, pois trata-se de um adoecimento relacionado às condições de trabalho. É mais comum em profissionais que, pela própria natureza da profissão, precisam lidar com situações extremas e contínuas de pressão como: médicos, professores, policiais, agentes penitenciários, bombeiros, seguranças e profissionais de saúde em geral. Pode ainda estar associada a condições de pressão e estresse contínuo não relacionados ao fazer profissional, mas sim relacionados a condições impostas por chefias/patrões. Os sinais podem variar, no entanto, é comum que surjam fadiga, insônia, dificuldades para concentrar, dores de cabeça, doenças relacionadas com baixa imunidade (gripes, problemas de pele), ansiedade excessiva e depressão.

Jornal Cidade: Se não tratada, a síndrome de Burnout pode evoluir para doenças físicas, como doença coronariana, hipertensão, problemas gastrointestinais, depressão profunda e alcoolismo?

Helder: Sim. Assim como os demais transtornos mentais, a Síndrome de Burnout pode provocar diversos tipos de adoecimento físico se não for devidamente tratada. É importante lembrar que essa divisão entre físico e psíquico é, sobretudo, didática: serve para organizar os fenômenos e explicá-los. Na experiência viva, no entanto, essa divisão não funciona tão bem, pois experienciamos essas dimensões de uma forma orgânica, única e completa.

Luciene: Sim. Quando somos expostos por um tempo longo e contínuo a situações estressoras é natural que nosso organismo altere o seu modo de funcionamento, o que pode desencadear diversos processos de adoecimento. É comum ainda que como refúgio as pessoas desenvolvam dependências com álcool ou outras drogas. O tratamento é essencial e a possibilidade de redirecionamento profissional pode ser necessária, caso não haja adaptações no ambiente profissional em que o indivíduo está inserido.

Jornal Cidade: O que as pessoas podem fazer para evitar desenvolver síndromes como essa em decorrência do trabalho? O que uma empresa pode fazer pelo funcionário neste período em que muitas pessoas se sentem sobrecarregadas no home office?

Helder: Como a Síndrome de Burnout é um transtorno que se dá em decorrência das condições de trabalho, a forma mais ética e eficiente de preveni-la é promover ambientes nos quais os trabalhadores tenham a possibilidade de participar das decisões a respeito das condições de trabalho. Portanto, penso que o melhor que uma empresa pode fazer por seus funcionários é dar a eles a oportunidade de ter voz ativa na organização dos processos de trabalho. No caso específico do home office, considero importante mencionar um ponto em especial que merece atenção: há uma certa ilusão bastante comum de ver o home office como um modo de trabalho mais light, porém, na prática o que vemos é uma imensa sobrecarga de trabalho e uma falta de divisão clara entre o tempo do trabalho e o tempo do descanso, do ócio. O sujeito trabalha depois do horário estipulado, troca mensagens de trabalho no Whatsapp, no fim de semana, responde e-mails tarde da noite, e por aí vai. Tudo isso contribui para um esgotamento, uma exaustão. É importante delimitar bem essas divisões do tempo.

Luciene:  Alguns fatores preventivos podem ser controlados pelo próprio indivíduo, por exemplo, organizar a rotina de forma que sejam incluídas atividades laborais, mas também de autocuidado, lazer e descanso. No entanto, existem fatores estressantes que estão relacionados a colegas de trabalho, chefia ou mesmo ao modo de funcionamento da empresa. Cabe considerar se há possibilidade de conversar no setor de RH para verificar a possibilidade de adaptações dentro da própria empresa, por exemplo, trocando de setor ou de função. Em último caso, deve ser considerada a viabilidade de trabalhar em outro local/empresa.

Com o home office, as pessoas precisaram lidar com o desafio de ter o ambiente doméstico como mesmo espaço físico para a realização de diversas atividades, laborais, familiares, descanso, lazer e até mesmo atividades físicas. Se por um lado isso pode ser confortável, por outro, pode ser estressante!

As empresas podem auxiliar na redução de estresse dos funcionários se flexibilizando para construir novas formas de estruturação, organização e realização do trabalho. A realidade é que o estresse ocorre para todos, patrões, funcionários e clientes. É preciso que todos tenham paciência, tolerância à frustração e principalmente flexibilidade para criar novas saídas que contemplem o mesmo fim: manter o funcionamento empresarial. A parceria é essencial!

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