Psicólogos lagopratenses explicam fatores pelos quais suicídio é a 3ª maior causa de morte entre jovens

Psicólogos lagopratenses explicam fatores pelos quais suicídio é a 3ª maior causa de morte entre jovens

Escola de Lagoa realizou passeata de conscientização e prevenção ao suicídio; ato faz parte das ações da campanha ‘Setembro Amarelo’ na cidade.

Escola de Lagoa da Prata realiza campanha ao Setembro Amarelo. (Foto: Escola Estadual Virgínio Perillo/Divulgação).

Reportagem: Matheus Costa

Vivemos uma era em que tudo tem que acontecer de modo muito rápido e, muitas vezes, não é possível acompanhar essa velocidade. Atualmente, a busca por profissionais da área da psicologia vem crescendo devido aumento na demanda de pessoas com depressão e ansiedade, sendo dois dos fatores que podem levar ao suicídio. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil tem um número equivalente a um suicídio a cada 45 minutos. No mundo, há uma tentativa falha de tirar a própria vida a cada três segundos – e uma definitiva a cada 40 segundos. São cerca de 1 milhão de suicídios em todo o planeta. Segundo os mesmos dados, o suicídio é a terceira maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil, ficando atrás de violência interpessoal e acidentes de trânsito. Cerca de quase todos esses suicídios estão relacionados a transtornos mentais, como a depressão.

Segundo o Ministério Público do Paraná (MPPR), a ideação suicida é comum na idade escolar e na adolescência; as tentativas, porém, são raras em crianças pequenas. Tentativas de suicídio consumado aumentam com a idade, tornando-se comuns durante a adolescência. Crianças suicidam com fatores desencadeantes: discussão com os pais, problemas escolares, perda de entes queridos e mudanças significativas na família.

Até os 7 anos a criança encontra-se na fase do pensamento pré-lógico, com predomínio do pensamento mágico, com dificuldade de simbolizar e conceituar o que lhe chega sob forma de percepção. No seu modo egocêntrico e animista de pensar, a criança não admite a existência do acaso, já que relaciona todos os eventos a suas próprias experiências. Nesta fase, a ideia de morte é limitada e não envolve uma emoção em especial.

O pensamento mágico vai sendo substituído pelo raciocínio lógico e a morte para de ser vista como processo reversível e torna-se uma ideia de processo de deterioração do corpo irreversível, porém, sem preocupação com o que virá após a morte. Aos 11 a 12 anos, ocorre a passagem do pensamento concreto para o pensamento abstrato. Estágio das Operações Formais. Nesta etapa surge a preocupação com a vida após a morte. O jovem entra no mundo através de profundas alterações no seu corpo, deixando para trás a infância e é lançado num mundo desconhecido de novas relações com os pais, com o grupo de iguais e com o mundo.

Assim, invadido por forte angústia, confusão e sentimento de que ninguém o entende, que está só e que é incapaz de decidir corretamente seu futuro. Isso ocorre, principalmente, se o jovem estiver num grupo familiar também em crise, por separação dos pais, violência doméstica, alcoolismo ou doença mental de um dos pais, doença física ou morte. O jovem que considera o suicídio comum a solução para seus problemas deve ser observado de perto, principalmente se estiver se sentindo só e desesperado, sofrendo a pressão de estressores ambientais, insinuando que é um fardo para os demais. Pode chegar a dizer que a sua morte seria um alívio para todos.

Rodrigo descreveu atitudes que propiciam desencadear depressão. (Foto: Rodrigo Tavares/Arquivo Pessoal).

Em uma conversa com o psicólogo Rodrigo Tavares de Lagoa da Prata, ele contou ao Jornal Cidade que são vários os fatores que deixam as pessoas vulneráveis a terem depressão e, consequentemente, cometerem suicídio.

“Em termos gerais, eu posso dizer que toda depressão é causada por crenças negativas que a gente desenvolve sobre nós mesmos, sobre a vida, sobre os outros, sobre o futuro. Então se eu desenvolvo uma crença, passando a acreditar que a vida não tem valor nem importância, que o futuro não vai ser bom e não vai trazer nada de novo, que a vida é isso mesmo e nunca vai sair do lugar onde ela está, isso acaba se tornando um fator que deixa a pessoa vulnerável à depressão”, contou.

Outro fator bem famoso e comum é a ansiedade que, ainda segundo Rodrigo, também é causada por crenças negativas ou disfuncionais.

“Todos as crenças de depressão também cabem na ansiedade, embora cada um tenha a sua especificidade. Em geral, a pessoa avalia o risco/ameaça externa como maior do que ela é e as suas capacidades como menores do que são. Então a pessoa tem ansiedade quando acha que está em uma situação na qual ela não tem forças para lidar, como por exemplo, na hora de fazer uma prova e a pessoa avalia que o risco de tirar uma nota ruim é muito alto ou é catastrófico. Vale também para casos interpessoais, quando você quer se aproximar de alguém mas acha que vai fracassar. Em suma, a ansiedade é causada quando a pessoa acha que corre um grande risco de fracassar e que isso irá gerar uma consequência muito ruim”, ressaltou.

Há também outros casos, como o isolamento, o bullying e o cyber bullying que está relacionado à exposição ao ridículo, o medo do fracasso, e isso acaba afetando muito a autoestima principalmente do jovem que está na escola.

E cabe a todos observarem melhor as pessoas ao redor, ao menor sinal de isolamento ou de que a pessoa está sofrendo.

“É muito importante falar com um profissional, não apenas aqueles que sofrem de transtorno mental, mas também aqueles que tem alguma crença disfuncional para uma vida mais saudável. E é preciso trabalhar esses pensamentos para que tenhamos uma consciência mais clara de quem a gente é, do nosso papel no mundo, pois acaba tornando nossa vida mais adequada, adaptada e feliz”, relatou o psicólogo.

É importante observar também o quão suicida está a geração atual, principalmente adolescentes até a fase jovem adulta. E por que estão sofrendo tanto com isso? Qual a principal causa?

Além de Rodrigo, o Jornal Cidade também entrou em contato com a psicóloga Cláudia Cristina, e ambos citaram a mesma causa; a frustração da realidade.

De acordo com Cláudia, a geração atual está muito imediatista. “Na era da tecnologia em que estamos vivendo o acesso à tudo é meio mágico, e as pessoas começaram a fazer uma dicotomia entre a realidade e a ilusão, e muitas vezes, na ânsia de resolver problemas e não experimentar momentos e processos de sofrimento que fazem parte da vida de qualquer pessoa, na ânsia do desespero e imediatismo, a pessoa acaba tendo como recurso o auto extermínio”.

Rodrigo diz que a forma de criação nos dias de hoje também contribuem a vulnerabilidade. “Eu diria que a forma como educamos nossos filhos hoje é muito mais permissiva que alguns anos atrás. Hoje as crianças são o centro da família, e como quase tudo são feitos para ela, os pais tem medo de serem rígidos. Isso acaba dando um poder à criança e ela começa a acreditar que seu desejo tem que ser satisfeito não importa o que. Então quando algo não sai da forma que ela deseja, a criança não sabe lidar e acaba se frustrando, e por causa disso buscam por comportamentos desadaptativos, como o uso excessivo de álcool e drogas, a dependência do videogame e da pornografia; o que acaba tornando-os vulneráveis”, finalizou Rodrigo.

Cláudia finaliza dizendo que deve-se incentivar as pessoas a terem um reconhecimento e uma diferenciação entre realidade e ilusão.

“As pessoas precisão entender que somos feitos de processos, desde sua fecundação até o nascimento. Nada vem de forma mágica, e isso é um processo natural do desenvolvimento, e que principalmente a frustração faz parte da vida, seja ela em momentos de alegria, tristeza, raiva, decepção, perda financeira. E que aprendam a lidar com limites”, finalizou.

Escola de Lagoa da Prata realiza campanha ao Setembro Amarelo

No início deste mês alguns alunos da Escola Estadual Virgínio Perillo saíram pelas ruas da cidade com panfletos, cartazes e faixas divulgando a importância da saúde mental, com a intenção de conscientizar a população sobre o assunto. A faixa com a frase “Enquanto houver vida, há esperança” era destaque.

De acordo com o vice-diretor Marcelino Mota, a ideia foi total e completamente dos alunos. “Foram os próprios alunos que tomaram iniciativa, e a escola por sua vez abraçou a ideia. Demos todo o apoio necessário, liberamos professores para acompanhá-los e ajudamos com relação a cartazes, folders e faixas. Graças a Deus estamos com uma galerinha muito conscientizada”, contou.

O Sou Mais Lagoa também conversou com uma das alunas que participou da campanha, Sofia Kellen, que também idealizou o projeto ‘Girls Power’ na escola.

“No início do nosso projeto Girls Power, nossa intenção era apenas melhorar o dia das colegas de escola, mas com o tempo fomos percebendo que podemos fazer muito mais do que isso. E a campanha do Setembro Amarelo é uma oportunidade de alcançar e tentar ajudar mais pessoas a continuar lutando pela própria vida. É muito gratificante saber que com pequenos gestos é possível “salvar vidas”, e isso já vale muito para cada uma de nós”, finalizou.

Setembro Amarelo

Iniciada em 2015, ‘Setembro Amarelo’ é uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, de iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). O mês foi escolhido para a campanha porque, desde 2003, o dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

A ideia é promover eventos que abram espaço para debates sobre suicídio e divulgar o tema alertando a população sobre a importância da discussão. Durante o mês da campanha, costuma-se enfeitar locais públicos com a cor amarela, simbolizando o girassol.

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