“Precisei ser dona do meu negócio para não ter mais portas fechadas’, afirma empreendedora trans sobre o mercado de trabalho em Lagoa da Prata

“Precisei ser dona do meu negócio para não ter mais portas fechadas’, afirma empreendedora trans sobre o mercado de trabalho em Lagoa da Prata

Profissionais trans contam suas trajetórias no mercado de trabalho lagopratense e relatam dificuldades em conseguir emprego.

Karine Pires
@karinepiress

No dia 29 de Janeiro foi celebrado o “Dia da Visibilidade Trans”, mas muitas pessoas não conhecem o que significa o T da sigla LGBTQI+. O T se refere aos travestis, transexuais (homens e mulheres trans). A data tem por objetivo, promover a reflexão sobre a existência de pessoas trans na sociedade. Pensando nisso, o Jornal Cidade conversou com profissionais trans de Lagoa da Prata e região para conhecer a trajetória profissional delas na cidade.

Dhully foi impulsionada a investir no empreendedorismo de forma “forçada” devido a ausência de oportunidades de emprego em Lagoa da Prata. Foto: Arquivo Pessoal/ Dhully Santos de Oliveira.

Dhully Santos de Oliveira, de 30 anos, é cabeleireira, empreendedora, e atualmente trabalha na área da beleza. Até conseguir trabalhar neste setor, Dhully enfrentou dificuldades de conseguir emprego em empresas de Lagoa da Prata, fator que fez com que ela achasse na prostituição, o único caminho para sobrevivência.

“Trabalho desde minha adolescência. Antes de ser trans conseguia emprego mais fácil, depois que comecei a transição vi portas do comércio de Lagoa se fecharem para mim mesmo tendo experiência e boas referências, apenas por ser trans. Até as mais renomadas empresas daqui não me aceitaram, com necessidade de sobrevivência a vida me empurrou para a prostituição, não tinha mais para onde correr” afirmou.

Após alguns anos, Dhully conseguiu dois empregos e, um deles era em um salão de beleza, experiência que foi o pontapé inicial para que ela se tornasse empreendedora.

“Passaram alguns anos e então consegui dois empregos bons, um em restaurante de comida japonesa, e o outro em um salão de beleza, que foi onde comecei a entrar a fundo na área da beleza. Fiquei lá por quase três anos, um tempo depois comecei o meu próprio negócio, na minha casa mesmo, com poucas coisas. Mas mesmo assim as clientes vinham arrumar comigo (fazer procedimentos), me davam preferência e forças para crescer. Hoje tenho quatro anos de Dhully Fantine Hair (salão próprio). Precisei ser dona do meu próprio negócio para não ter mais portas fechadas, hoje eu abro as portas do meu comércio”, disse.

Além de ter seu trabalho reconhecido, Cláudia tem também seu trabalho respeitado na área da beleza na cidade. Foto: Arquivo Pessoal/Cláudia Rodrigues de Paula

Já Cláudia Rodrigues de Paula, 37 anos, que trabalha desde a infância, afirmou que também enfrentou dificuldades até ter seu trabalho na área da beleza reconhecido na cidade. A cabeleireira passou por algumas experiências profissionais com alguns serviços “pesados” e como estava em processo de transformação, também encontrou dificuldades para conseguir empregos. Mas Cláudia contou com a ajuda do pai para conseguir empreender na área e até mesmo, construir o próprio salão.

“Eu tive sorte, uma oportunidade e uma escolha na minha vida. Tudo que sou hoje, no profissional, eu devo a ele [ao pai], pois ele abriu uma porta pra mim e muitas vezes as pessoas quando estão mudando [em transformação] não tem essa oportunidade”. 

Cláudia lembrou que nunca gostou de escola, mas que conseguiu concluir o ensino médio para começar a atender as clientes na porta da casa de sua mãe.

 

 

Já Patrícia Queirós, de 23 anos, mora em Japaraíba e já enviou currículos para lojas de Lagoa da Prata, no entanto, nenhuma tentativa funcionou. Mesmo tendo ensino médio completo, um dos requisitos solicitados nas vagas de comércio. O emprego mais duradouro de Patrícia foi em um restaurante em Japaraíba, mas mesmo assim, segundo ela, ainda não havia transicionado.

A empregabilidade trans é um desafio no Brasil 

Mesmo tendo um diploma de ensino superior, a comunidade trans enfrenta dificuldades de serem admitidas no mercado de trabalho. É o que afirma Ricardo Sales, CEO da Mais Diversidade — empresa que atua na consultoria, na elaboração, acompanhamento e avaliação de políticas de diversidade no ambiente de trabalho, em entrevista dada ao portal Folha Dirigida em 17 de maio de 2020.

“O fator principal por trás disso é o preconceito. Se olhar para a nossa realidade no Brasil, hoje, apesar do cenário de exclusão e de preconceito, você tem algumas pessoas trans que conseguiram superar essas barreiras e chegar à universidade, por exemplo. E aí, elas descobrem que mesmo com diploma, isso não é garantia de que vão conseguir emprego, porque o preconceito passa à frente”.

Um caminho que o especialista enxerga para isso, seria o investimento em políticas públicas para a comunidade trans. Uma das iniciativas poderia partir de dentro das escolas, como uma forma de educar sobre as questões das pessoas trans com o objetivo de erradicar o preconceito e consequentemente, o desemprego dos profissionais no mercado de trabalho.

Netwise

“Carecemos de iniciativas maiores que, ao meu ver, deveriam vir de Brasília. Claro que temos iniciativas pontuais, mas os municípios e estados têm autonomia mais restrita. Isso deveria partir do Ministério da Educação, Ministério dos Direitos Humanos, Secretaria do Trabalho, nessa perspectiva de políticas públicas que se articulem com a iniciativa privada”, afirma Sales.

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