Pacientes relatam consequências da covid-19 que afetam a saúde física e mental

Pacientes relatam consequências da covid-19 que afetam a saúde física e mental

Casos graves da doença, que exigiram internação e UTI (Unidade de Terapia Intensiva), tendem a abalar mais o organismo no longo prazo. Mas a verdade é que os episódios leves também podem deixar marcas prolongadas.

(Foto: Portal Engeplus/Ilustração).

Rhaiane Carvalho


A pessoa que se contamina e vivencia a covid-19 por determinado tempo nem de longe consegue imaginar que ao se curar pode ainda enfrentar as consequências da doença. Com mais de 11 milhões de indivíduos curados da covid-19 no Brasil até o momento, é justo se preocupar com uma possível epidemia mais silenciosa. Estamos falando da síndrome pós-covid. Casos graves da doença, que exigiram internação e Unidade de Terapia Intensiva (UTI), tendem a abalar mais o organismo no longo prazo. Mas a verdade é que os episódios leves também podem deixar marcas prolongadas.

Marilene Generoso, da cidade de Lagoa da Prata, disse que hoje ir em um hospital tornou-se um trauma, além de ter desenvolvido queda de cabelo e ter o paladar alterado pela doença. “Pra mim, o mais difícil tem sido lidar com o medo de ir à área hospitalar, mas infelizmente preciso, pois estou tratando da vesícula desde janeiro. Meu maior trauma foi ter contraído a doença dentro do hospital. O que está bem complicado é a queda de cabelo e dificuldade em sentir o gosto dos alimentos, tanto que tenho cozinhado muito pouco em casa. Devido a isso, tenho evitado, pois salgo a comida todinha por não sentir gosto. Além disso, meu psicológico está muito ruim, ainda mais vendo tanta gente conhecida como amigos, vizinhos e colegas de trabalho morrerem por esse vírus. Peço a Deus todos os dias para que isso termine logo e que todos consigam se vacinar pela honra e glória do Senhor”.

Ana Rita Gonçalves de Lagoa da Prata, destacou que o que mais a tem incomodado é o fôlego e dores de cabeça. “Tem dias que minha cabeça dói tanto que não consigo mexer, nem remédio para enxaqueca resolve. Tenho uma filha e toda vez que vou brincar com ela, sinto muito cansaço. Nada disso existia antes de eu ter a covid. Acho que essa doença é preocupante para não pegar, é preocupante quando se pega, e ainda sim, quando se sobrevive, a gente sente o peso dela na vida, na rotina e na saúde”.

Walter Bruno, de Arcos, relatou que após ser curado, ainda teve sintomas por cerca de trinta dias. “Hoje eu não sinto mais nada, mas durante um tempo, após sair do período de isolamento, eu fiquei sem vigor físico, fiquei sem ânimo. Acredito que um mês depois de estar curado fiquei com essa falta de ânimo”.

André Lacerda, de Santo Antônio do Monte, passou a lidar com a perda de memória recente, depois de contrair a covid-19. “Isso passou a me preocupar demais. Tive de recorrer a aplicativos e exercícios para me organizar e evitar mais perdas de memória”, conta.

Thais Gomes Ferreira, da cidade de Formiga, disse que além de passar pela doença, ainda sente vários de seus efeitos. “Muita dor de cabeça, cansaço, fadiga, dor nas costas, nas pernas e braços. A covid me deixou todas essas sequelas”, disse.

O Jornal Cidade conversou com o médico Túlio Azevedo, que explicou que o paciente, mesmo quando já deixa de ser paciente, ainda assim enfrenta dificuldades para voltar ao normal de sua saúde.

“Temos certeza que a infecção está longe de ser apenas uma questão localizada e passageira. Há repercussões prolongadas em vários órgãos”, disse.

Ele ainda listou as doenças pós-covid que mais trata em pacientes. “Já atendi pacientes que voltaram do pós-covid com sintomas que se tornam crônicos por meses, como fadiga, falta de ar, dores de cabeça, dores musculares, queda de cabelo, perda de paladar e olfato (temporária ou duradoura), dor no peito, tontura, tromboses, palpitações, depressão e ansiedade, e dificuldades de linguagem, raciocínio e memória”, explicou

E o psicológico?

O cérebro é um dos órgãos mais sensíveis ao excesso de inflamações pelo corpo e à queda da oxigenação. Um trabalho feito no Instituto do Coração (Incor) com 185 pessoas que contraíram o coronavírus mostrou que 80% manifestavam algum comprometimento cognitivo, como dificuldade de atenção e raciocínio, perda de memória e por aí vai, conforme explica o médico.

“Se, depois da doença, você ficar com sonolência excessiva, deve passar por uma avaliação. O mesmo vale se ficar muito desatento, esquecendo as coisas ou trocando palavras. Mas ler, escrever, fazer palavras cruzadas e manter a prática de exercícios físicos ajudam bastante. Hobbies repetitivos e detalhistas, na linha do crochê e do tricô, também treinam a concentração e colaboram para a melhora. Todo quadro é acompanhado de um processo emocional intenso, que interfere na recuperação do paciente e, por isso, não deve ser menosprezado. Notamos que os mais velhos tendem a ignorar pequenos comprometimentos. Isso pode ter outras consequências lá na frente, então temos insistido para que as pessoas façam esse acompanhamento”, destacou.

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