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Os transtornos mentais não explicam nada

Rodrigo Tavares Mendonça
Psicólogo e especialista em psicoterapia de família e casal

Pacientes com um transtorno mental especificado costumam acreditar que a causa do seu
sofrimento ou comportamento disfuncional está no transtorno. Por exemplo: “Eu vivo triste
assim porque tenho depressão” ou “Eu fico tão preocupada com tudo porque tenho ansiedade
alta demais”. Esses dois exemplos, que penso serem explicações comuns em nossa sociedade,
mostram como as pessoas acreditam que os transtornos mentais que elas possuem causam o
seu sofrimento ou comportamento disfuncional, como se eles explicassem o que acontece
com elas. Essa crença explicativa, inclusive, pode aparecer acompanhada de um alívio:
“Então é por isso que sinto essas coisas. Ufa, achei a causa do meu problema!”. Na verdade,
contudo, não é bem assim.

Geralmente, os transtornos mentais não explicam o que acontece com as pessoas, eles apenas
descrevem. O diagnóstico de depressão, por exemplo, não explica o por quê a pessoa
apresenta tamanha tristeza e desânimo, não revela a causa do seu sofrimento. O diagnóstico
de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) também não explica a razão pela qual a pessoa
tem um medo intenso de ser contaminada ou de adoecer, como acontece na maioria dos casos
de pessoas com esse transtorno. O diagnóstico de ansiedade generalizada, infelizmente
excessivamente comum na atualidade, também apenas descreve os medos generalizados que
a pessoa tem, não explica o motivo de isso acontecer com ela.

Existe uma diferença fundamental entre os transtornos mentais, as doenças da mente, e as
patologias físicas, as doenças do corpo. Sabemos que corpo e mente estão intrinsecamente
relacionados, que um afeta o outro constantemente. Assim, quando observamos a fisiologia
de pessoas com transtornos mentais encontramos alterações que diferenciam, por exemplo, o
cérebro de uma pessoa saudável do de uma com depressão. Porém essas alterações não
explicam a depressão, não revelam a sua causa, e isso porque o que acontece no domínio da
fisiologia não determina o que acontece no domínio da psicologia. Além disso, observamos
alterações também entre o cérebro de uma pessoa feliz e de uma pessoa triste, no de uma
apaixonada e no de uma não apaixonada. Em resumo, todas as alterações emocionais são
acompanhadas de alterações neurofisiológicas, e elas não explicam o por quê as coisas
acontecem. Em outras palavras, por exemplo, não são as alterações neurofisiológicas que
explicam o motivo de você se apaixonar pela pessoa amada.

Voltando à diferença entre as doenças da mente e do corpo. Grosso modo, as doenças do corpo explicam o que nos acontece. Se você apresenta febre e dor no corpo, por exemplo, você espera que o médico faça o diagnóstico certo e, assim, encontre a causa do seu problema. O vírus da gripe pode ser a causa. Se você apresenta manchas na pele a causa pode ser, infelizmente, um câncer de pele. O câncer explica o por quê as manchas aparecem. E nada disso acontece com os transtornos mentais. Por que uma pessoa apresenta tristeza, ansiedade, medo, insegurança? A causa não está na fisiologia, no corpo (mesmo que encontremos alterações na dinâmica cerebral), mas na mente.

Recentemente, uma paciente minha me disse que tinha bipolaridade e que por isso seu humor se alterava constantemente. Na psicoterapia, contudo, ela descobriu que buscava desesperadamente atender as expectativas paradoxais da mãe e que, por serem paradoxais, eram impossíveis de serem atendidas. Assim, a tentativa era sempre frustrada. A paciente, então, alterava frequentemente entre momentos de sucesso e de fracasso, e dessa forma seu humor também se alterava. Diferentemente da sua crença, o diagnóstico de bipolaridade não explicava o seu comportamento, como se suas alterações do humor fossem causadas por
alterações fisiológicas espontâneas.

Perceber que ela não era uma vítima indefesa do transtorno bipolar possibilitou que enfrentasse com mais clareza as causas do seu problema. Não raro, o diagnóstico de transtorno mental afeta negativamente o paciente, fazendo-o acreditar que existe uma alteração fisiológica que está causando o seu problema. Se assim for, não há nada que ele possa fazer a não ser tomar a medicação e esperar seus altos e baixos. E isso acontece não apenas com a pessoa com bipolaridade, mas com as que têm depressão, ansiedade generalizada e, possivelmente, todos os outros transtornos mentais.

A crença na explicação do transtorno mental, que ele causa o problema, faz da pessoa uma vítima indefesa do transtorno e a impede de encontrar a verdadeira causa e trabalhar sobre ela, para realmente solucionar o problema. Em resumo, as respostas para nossos problemas emocionais não estão em nossa fisiologia, e sim em nossa psicologia. Por isso, apesar das medicações psiquiátricas poderem afetar positivamente os sintomas emocionais, trabalhar sobre as suas causas, ou seja, sobre o que acontece na psicologia do paciente, é sempre a melhor solução.

 

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