Artigo: O Luto em tempos de pandemia

Artigo: O Luto em tempos de pandemia

Helder C. S. Cardoso

Desde que o mundo é mundo, a morte de pessoas queridas é um dos acontecimentos mais traumáticos pelos quais um ser humano pode passar. Não é sem razão que todos os povos conhecidos ao redor do mundo elaboram rituais para poder enterrar seus mortos. Não se tem notícia de nenhum povo sequer que trate a morte como algo banal, desimportante. Cada povo possui seu ritual particular relativo à morte; o que não muda é o fato de todo povo possuir algum rito para lidar com essa experiência.

De acordo com a visão do célebre antropólogo Claude Lévi-Strauss, os rituais são formas coletivas de elaborar, de tratar simbolicamente de certos acontecimentos especialmente fortes, intensos. É por esse motivo que todos os povos conhecidos possuem seus ritos próprios para o nascimento, para a transição para a vida adulta, para o matrimônio, para a morte, etc. Trata-se de ocasiões tão intensas que os povos e indivíduos necessitam de um rito, uma construção simbólica para poder dar sentido a essas vivências, compreender sua real dimensão e integrá-las à sua experiência de vida.

 Um bom exemplo para compreender a importância dos ritos fúnebres são os casos de pessoas desaparecidas. Como seus corpos não puderam ser encontrados, suas famílias não têm a oportunidade de realizar seu sepultamento, velar o corpo do falecido, reunir os demais familiares e amigos para chorar juntos, etc. Tudo isso é necessário para que as pessoas próximas ao falecido consigam elaborar psiquicamente, “digerir” a perda, por assim dizer. Isso é o que se chama, em psicologia, de “fazer o luto”. Por isso é que nos casos de pessoas desaparecidas, são comuns relatos como “parece que ele não morreu”, “eu ainda fico esperando ela voltar”, “a ficha ainda não caiu”, e outros do tipo. É como se as pessoas próximas ao desaparecido vivessem uma espécie de luto infinito, no qual a perda da pessoa querida não é possível de ser “digerida”, muito embora elas saibam que provavelmente seu ente querido não mais regressará.

No momento atual, em razão da pandemia da Covid-19, os rituais que tradicionalmente utilizamos para lidar com a morte tem sofrido uma série de modificações. Tal situação torna ainda mais difícil para os familiares e amigos se despedirem de seus entes queridos, o que já não é nada fácil em tempos normais.

Há diversas experiências ao redor do mundo durante a pandemia que constituem tentativas de reinventar os ritos fúnebres e dar às famílias a oportunidade de se despedir dos seus entes queridos. Ao mesmo tempo que causam surpresa e estranhamento por sua novidade, tais experiências dão testemunho de um intenso esforço psíquico que tem sido realizado no sentido de reinventar as formas de enterrar dignamente nossos mortos. Iniciativas como a celebração de missas de 7º dia online, despedidas de pacientes no leito de morte através de chamadas de vídeo, encontros por videoconferência de familiares enlutados, entre outras, demonstram a importância que o ser humano dá à forma como vivenciamos o derradeiro momento da vida.

Que nós, enquanto povo e enquanto indivíduos, consigamos fazer uso de nossa inesgotável capacidade criativa para nos reinventar nesses tempos tão difíceis. Reinventar nossas relações com a morte, com a vida, com nossos amigos, com o tempo, com o ócio, com a política, com nossa casa, com nós mesmos…Tal reinvenção dá trabalho, é doída, mas é apenas a partir dela que conseguiremos estar à altura dos desafios que o destino nos impõe.

Helder C. S. Cardoso é graduado em Psicologia (PUC Minas) e Especialista em Saúde Mental (Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais).

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