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Mulheres em posições historicamente masculinas inspiram outras mulheres a lutarem por mais espaço na sociedade

“Hoje, com quase 12 anos de profissão, depois de ter passado por incontáveis situações em que precisei ‘provar’ minha competência, não me permito mais ser colocada em tais provas”, comenta a engenheira civil, Anita Bessas.

João Alves


Não é preciso voltar muito no tempo para perceber que o ingresso de mulheres em espaços de poder historicamente masculinos, como em cargos políticos e de chefia, é um evento bastante recente. Mesmo hoje, quando o número de mulheres no mercado de trabalho cresce, ainda que timidamente, é comum ouvir da boca de figuras conservadoras frases como “lugar de mulher é na cozinha” ou “isso não é trabalho de mulher”

Comentários deste gênero, ainda que pareçam reproduções inofensivas e cada vez mais descoladas da realidade, evidenciam o caráter machista de uma cultura responsável por colocar o homem no centro das relações sociais, sejam elas trabalhistas, da política ou da mídia, e manter a mulher presa ao ambiente doméstico. E não é só, tais alegações criam também uma “barreira de ferro”, dividindo profissões e papéis sociais por gênero – “coisa de homem” e “coisa de mulher”. Ultrapassar esta barreira, quase sempre, requer das mulheres esforços, sacrifícios e uma auto-cobrança – especialmente para mostrar que são capazes de realizar algo – desproporcionais, especialmente quando comparados aos empenhados pelos homens com os quais elas dividem  espaço. 

No Brasil, por exemplo, apenas 34% dos cargos de liderança sênior são ocupados por mulheres, de acordo com a pesquisa do International Business Report da Grant Thornton. Na política, este número é ainda menor: mulheres representam 16% dos vereadores eleitos em 2020 e 12% dos prefeitos. No Congresso Nacional, apenas 15% das cadeiras da Câmara do Deputados são ocupadas por mulheres, ao passo que no Senado Federal, este número é de 12,4%. 

Dispostas a mudar este cenário preponderantemente masculino, lagopratenses que assumem posições de liderança em diferentes setores da sociedade inspiram outras mulheres a lutar por direitos, respeito e equidade de gênero. 

“É de suma importância que as as mulheres acreditem em si mesmas”

Um desses exemplos é o da empresária Thalita Magno, hoje, à frente da Netwise. A empresária relata que logo no início da sua trajetória profissional, na época como instrutora de estágio de enfermagem, sofria constrangimento com comentários de cunho sexista como “você tem cara de médica não de enfermeira”, que desvalorizavam a sua profissão de formação. Pouco mais de um ano mais tarde, seguindo o legado das mulheres de sua família materna, Thalita decidiu empreender em uma franquia de chocolates finos.

“Tive a oportunidade de empreender, através de uma franquia de chocolates finos. Foi uma oportunidade incrível, onde conheci pessoas incríveis e, principalmente, tive a oportunidade de trabalhar com meu pai, um homem muito visionário, que apesar de me dar total autonomia no negócio, me ensinou muito. Porém, creio que minha veia empreendedora veio das mulheres da família materna. Minha avó que além dos afazeres domésticos já trabalhava fora de casa e costurava para ajudar na renda familiar, todas minhas tias estudaram e se formaram em faculdades, todas mulheres muito fortes”, comenta a empresária.

Após assumir este cargo de liderança, Thalita alega que recebeu um tratamento diferenciado daquele que um homem, na mesma posição, provavelmente receberia. 

“Com medo, inexperiência, e pouca idade, todas pessoas que iam à loja, perguntavam pelo responsável, isso naquele momento não tinha significado para mim, hoje consigo entender melhor. Já passei por momentos em que, em reuniões juntamente com meu irmão e sócio, pessoas não dirigiam a palavra a mim ou fingiam não ouvir o que estava dizendo, por não acreditarem no meu conhecimento ou potencial”.

Thalita Magno (Foto: arquivo pessoal/reprodução)

Essa descrença na capacidade das mulheres de gerir negócios sem o auxílio de  um homem, inclusive, é uma microviolência que consegue passar despercebida por muitas. Thalita, contudo, além de tentar combatê-la, orienta que outras mulheres façam o mesmo. Perguntada como mulheres em posição de liderança, e que ocupam posições tradicionalmente masculinas, podem ajudar suas semelhantes a conquistar mais espaço no empreendedorismo, ela responde:

“Ter sucesso naquilo faz. Ser exemplo de vitória. Provar que somos tão capazes quanto. É de suma importância que as mulheres acreditem em si mesmas. Não podemos acreditar nos limites que as pessoas colocam em nós,  e às vezes internalizamos esses limites, deixamos de ter grandes conquistas, por medo, até mesmo das críticas das pessoas que nos fizeram acreditar nessas limitações”, finaliza.

“Em discussões, aprendi a impor minha opinião diante de outras opiniões, e o principal, não me deixei abalar pelas críticas”

A engenheira civil Anita Bessas, mesmo tendo se formado em 2014, atua desde 2010 no ramo da construção civil, área ocupada, em sua maior parte, por homens. Anita também foi a primeira – e única – mulher à frente da Secretaria Municipal de Obras e Urbanismo de Lagoa da Prata, posição que exerceu por quase 6 anos. Paralelo ao cargo de secretária, começou a empreender na área de desenvolvimento de projetos, inicialmente na Conceito Engenharia e Projetos e, em seguida, na Castel Construtora, da qual é proprietária em sociedade com o seu marido, o também engenheiro Caio Guadalupe.

Anita Bessas (Foto: arquivo pessoal/reprodução)

Anita relata que desde o início da sua carreira esteve cercada por desafios. Aos 23 anos, quando assumiu seu primeiro cargo de liderança, em uma área – para variar – quase exclusivamente masculina, precisou desenvolver  habilidades que, segundo a própria, em outras áreas não seriam necessárias.  

“Estudei muito para ter conhecimento para tomar decisões, e tomá-las com consciência e segurança. Sempre foi necessário impor minha hierarquia para delegar funções. Em discussões, aprendi a impor minha opinião diante de outras opiniões, e o principal, não me deixei abalar pelas críticas”.

Um fato curioso narrado pela entrevistada é que, durante a sua trajetória, ela precisou enfrentar não só o preconceito vindo de homens, mas também de outras mulheres, muitas vezes dentro do próprio ambiente de trabalho. “Ao me deparar com essa situação, pude perceber como está enraizado a cultura de homens em cargos de liderança”, comenta. 

Em relação a isso, Anita finaliza ressaltando que, no âmbito profissional, a capacidade de determinada pessoa não está atrelada ao gênero. Da mesma forma que conheceu profissionais homens que “só jesus na causa [sic]”, conheceu outros com uma competência ímpar. 

“Como sempre estudei muito, sempre soube da minha capacidade, e esse para mim é o principal ponto. As mulheres precisam quebrar em si mesmas a barreira do auto preconceito, não somente sonhar, mas saber que podem realizar. E para isso é necessário sim ir à luta. Hoje, com quase 12 anos de profissão, depois de ter passado por incontáveis situações em que precisei “provar “ minha competência, não me permito mais ser colocada em tais provas. Os desafios são diários, e busco encarar todos de frente, sem perder a minha essência feminina”, completa a engenheira e empresária. 

“Eu e meu irmão ajudávamos meu pai, sem diferença por ser homem ou mulher. Foi pesado no início, mas trouxe a certeza de que eu poderia fazer acontecer também”

O depoimento de Clarisce Gontijo, analista de comunicação e marketing do Sicoob Crediprata, destaca que o tratamento recebido pelos pais durante a infância é decisivo para que a mulher acredite ser capaz de fazer qualquer coisa. Quando perguntada se já vivenciou alguma situação de constrangimento em função do seu gênero, ela responde que, em alguns momentos, pessoas já lhe disseram que tal atitude não era de mulher. 

“Contudo, meu pai me ensinou que posso fazer qualquer trabalho ou atividade que eu quiser, porque sou capaz. Essa crença me impediu de supervalorizar esses comentários e seguir meu caminho com respeito a todos”, ressalta.

Clarisce Gontijo (Foto: arquivo pessoal/reprodução)

Clarisce conta que teve uma infância humilde. Por ser a primeira de quatro irmãos – todos eles homens – ajudava juntamente com o segundo irmão mais velho na olaria de seu pai, sem qualquer diferença por ser uma menina.

“Eu e meu irmão ajudávamos meu pai, sem diferença por ser homem ou mulher. Foi pesado no início, mas trouxe a certeza de que eu poderia fazer acontecer também. Aos poucos fui buscando realizar meus sonhos e a crença  que me fortaleceu foi a de  jamais permitir que o fato de ser mulher me impeça de fazer algo”, conta a analista de comunicação. 

Outro ponto levantado por Clarisce em sua fala, é a importância do mercado de trabalho estar disposto a acolher funcionárias em seu time. Ela, atualmente, integra a equipe do Sicoob Crediprata, que possui mais de 70% do seu quadro funcional composto por mulheres – o que para ela é motivo de muito orgulho. “O que nós mulheres precisamos é buscar o autoconhecimento, conhecer nossas potencialidades a fim de realizar os nossos sonhos. Caso alguma empresa não valorize, felizmente existem empresas que respeitam e dão valor ao ser humano, sem distinção”, acrescenta. 

“Mulher, estou conquistando o meu espaço”

Carina Dias, gerente executiva da ACE/CDL, batalhou muito antes de ocupar um cargo de chefia, começando a trabalhar aos 14 anos. Natural de Japaraíba, trabalhou em uma fábrica de foguete, como empregada doméstica e babá. “Aos 14 anos, fui para Divinópolis trabalhar como babá. Gosto de contar esta história porque foi lá que aprendi a me desenvolver. Eu era uma adolescente cheia de traumas, mas sabia que queria escrever uma história diferente da minha família”, relata Carina. 

Após isso, começou a empreender. Montou um salão de beleza, uma clínica de estética e a filial de uma franquia de produtos de beleza. Só em 2015, Carina passou a integrar a equipe da ACE/CDL. Sobre sua experiência como empreendedora, a executiva conta que se deparou com o descrédito por parte da sociedade: “As dificuldades para alcançar espaço no mercado pelo fato de ser mulher, ainda mais nessa época, foram inúmeras a começar pelo descrédito no meio do empreendedorismo. Era mais comum ver homens se destacando com criação novos de negócios e abertura de empresas, ainda bem que hoje essa realidade tem mudado”.

Carina Dias (Foto: arquivo pessoal/reprodução)

Carina também revela outras situações de constrangimento pelas quais passou, como o “mansplaining” e “manterrupting” – termos que descrevem quando um homem interrompe a fala de uma mulher para explicar algo, geralmente por achar que ela mesma não é capacitada para explicar. 

“A mulher na sociedade sempre vai se deparar com constrangimento pelo simples fato de ser mulher. Antigamente, os homens eram preparados para proteger a mulher e os filhos. O homem era o provedor, saia para caçar e defendia a família das feras, eram rudes e bravos, digamos assim… E essa natureza os acompanha. Pensam que a mulher não tem capacidade de se interpretar e nem de concluir por isso interrompem e tentam ensinar novamente, ignorando nossa capacidade cognitiva”, explica a executiva. 

Contudo, ela acrescenta que não se incomoda e para momentos como esse, repete o mantra: “Mulher, estou conquistando o meu espaço”. 

“Em Lagoa da Prata, temos mulheres fortes e arrojadas, que não têm medo de desafios.”

Quando o assunto é representatividade política, Lagoa da Prata pode ser considerada uma exceção com relação às demais casas legislativas do país. Embora a porcentagem de mulheres vereadoras na Câmara não seja ideal – na composição da casa, há o dobro de homens em comparação às mulheres – a presidência do poder é exercida, pela terceira vez consecutiva, por uma mulher.

A própria presidente, Carol Castro, comenta que se candidatou ao cargo de vereadora em 2020 por entender ser necessário que as mulheres ocupem mais espaços, inclusive o político.

“É um desafio muito grande, porque o Brasil é um dos países com menos representatividade feminina no parlamento. Na câmara, nós somos três, e vejo que ainda é complicado as pessoas entenderem que as mulheres podem pegar esses cargos de liderança e de chefia. Em Lagoa,  temos mulheres fortes e arrojadas, que não têm medo de desafios. Tanto que há três mandatos consecutivos a câmara é presidida por mulheres.”, explica.

Segunda ela, a baixa presença feminina no legislativo está relacionada a várias outras questões que interessam às mulheres, como por exemplo, a equiparação salarial. “É no parlamento que se defendem as ideias e que se fazem as leis para a sociedade. Enquanto a política ainda for dominada por homens, dificilmente as questões das mulheres terão a devida atenção. Se tivessem mais mulheres, ao menos pareando com o número de homens, talvez teríamos mais facilidade de mudar, porque com certeza elas defenderiam mais políticas públicas para o gênero feminino”.

Carol Castro (Foto: arquivo pessoal/reprodução)

Além disso, a vereadora e assistente social destaca que a mulher tem um papel fundamental na sociedade, como foi possível observar com o surgimento da pandemia da covid-19. Segundo ela, países liderados por mulheres conseguiram sair mais rapidamente dos momentos mais severos impostos pela doença e sofreram menos com os seus efeitos. 

Para onde as mulheres estão caminhando?

Questionada sobre a situação atual da mulher nos vários setores da sociedade, Carol Castro considera que esta posição, ainda que em passos lentos, avança. 

“Tudo vem da educação. A questão do machismo, de desmontar esses paradigmas de gênero, parte muito do que é ensinado. Temos que levar esse debate para a comunidade, para trabalhar questões como a violência doméstica, porque são essas questões de gênero que causam a violência como a mulher – quando o homem vê a mulher exclusivamente como um objeto”, pondera a presidente da Câmara.  

Thalita Magno, na mesma esteira, concorda que a mulher, hoje, ocupa espaços antes legados exclusivamente ao público masculino, porém ressalta: “Vejo evolução, mas também vejo muita falta de informação. É o que mais me preocupa, e também o que, muitas vezes, invalida muita nossa luta”.

A respeito da evolução do número de mulheres no mercado de trabalho, Clarisce Gontijo é mais otimista: “Felizmente conquistamos um avanço e a cada dia mais percebemos que as mulheres estão conquistando seu lugar. Precisamos que essas mulheres acreditem em sua capacidade de realizar, sem sentimento de inferioridade. Que façam acontecer na sociedade, na política, na mídia e no mercado de trabalho. Temos muito a contribuir”.

Para Anita Bessas, é fundamental que as mulheres conheçam o seu potencial e estejam dispostas a alcançá-lo – o que ainda só é possível com muita garra.

“As mulheres precisam quebrar em si mesmas a barreira do auto preconceito, não somente sonhar, mas saber que podem realizar. E para isso é necessário sim ir à luta”, ressalta a engenheira. 

Sobre isso, Thalita Magno acrescenta que, embora todas tenham necessidades individuais, o crescimento de uma mulher impacta diretamente no crescimento de outra: “Não busco reconhecimento – é claro que ser reconhecida é ótimo – mas minha real necessidade é ver a evolução das pessoas, fazer com que elas se sintam melhores consigo mesmas e gratas pelas suas conquistas, por menor que sejam”.

O potencial transformador desta aliança entre mulheres, inclusive, é comentado pela executiva Carina Dias, ao comentar o projeto “Câmara da mulher empreendedora”, da ACE/CDL.

“Queremos dar voz a essas mulheres que constituem a presença feminina do mercado de trabalho, da política, da mídia e da sociedade como um todo. Sabe porque a posição da mulher ainda é vulnerável? É vulnerável porque falaram pra elas e elas acreditaram nisso, estamos chegando e mudando essa realidade”, comenta. 

A gerente executiva ainda cita que a sociedade e o estado têm um papel fundamental na promoção da igualdade de gênero e que é fundamental discutir esta problemática coletivamente: “O papel do estado é fundamental na elaboração de políticas públicas voltadas à valorização e ao reconhecimento da mulher. O empoderamento da feminino pode levar o público feminino a exercer papéis nunca imaginados em todas as áreas da sociedade. E quem tem a ganhar com isso? Todos. Se as mulheres soubessem o valor que elas têm, uma ajudaria mais a outra a alcançar o seu objetivo”. 

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