“Meu maior medo era parto, hoje, meu maior medo é não chegar lá”, disse a gestante Juliana Ribeiro

“Meu maior medo era parto, hoje, meu maior medo é não chegar lá”, disse a gestante Juliana Ribeiro

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atualização mais recente indica que, além de mais suscetíveis à forma grave da doença, quando comparadas às grávidas sem covid, aquelas com o Sars-CoV-2 têm risco maior de desenvolverem a forma grave, de serem admitidas em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) ou de necessitarem de algum tipo de ventilação.

Foto: Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente/ Reprodução
Rhaiane Carvalho

A covid-19 vem causando grandes perdas em diversas famílias do mundo todo. Recentemente, na cidade de Moema, uma mulher grávida, de 37 anos, faleceu de covid-19. A mulher teve morte cerebral e a equipe conseguiu fazer o parto para salvar a vida do bebê, que é uma menininha. Com o Centro-Oeste de Minas enfrentando alta nos índices de contaminação pelo coronavírus, a situação vem preocupando gestantes não só pela falta de leitos, mas também se conseguirão chegar à reta final da gestação sem se contaminarem.

Em Lagoa da Prata, uma gestante com grave comprometimento pulmonar teve que ser submetida à uma cesárea de urgência, sendo necessário sete médicos e a equipe de enfermagem. O Hospital São Carlos tentou a transferência da gestante para hospitais de referência em covid-19, mas devido ao colapso do sitema de saúde, não foi possível. O parto foi realizado com sucesso. O bebê está bem e a mãe está internada e entubada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas seu quadro é estável.

Logo no início da pandemia da covid-19, surgiram dúvidas se as gestantes teriam um risco maior para o Sars-CoV-2 e, se caso infectadas, sofreriam complicações mais sérias da doença. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atualização mais recente indica que, além de mais suscetíveis à forma grave da doença, quando comparadas às grávidas sem covid, aquelas com o Sars-CoV-2 têm risco maior de desenvolverem a forma grave, de serem admitidas em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) ou de necessitarem de algum tipo de ventilação. As possibilidades de complicações são ainda maiores quando as gestantes têm comorbidades como hipertensão, diabetes e obesidade.

Foto: Arquivo Pessoal/ Ana Maria Vilela

“Nossos resultados sugerem que grávidas com covid-19 têm um risco aumentado de hipertensão, natimortos e prematuros. Seus recém-nascidos têm maior probabilidade de necessitar de cuidados intensivos”, disse Ana Maria Vilela, médica obstetra.

Gestantes com sintomas graves da covid-19 têm um risco particularmente alto dessas complicações. Segundo Vilela, o risco de parto prematuro é o dobro, e o de cesárea, 50% maior em gestantes com a doença sintomática, comparado às infectadas, mas com covid assintomática. Mulheres com a forma grave da enfermidade tiveram um risco quatro vezes mais elevado de hipertensão e parto prematuro. “O período gestacional compreende um estado imunológico altamente complexo, com possível exacerbação de enfermidades ou alterações preexistentes, além de novas patologias devido à imunossupressão apresentada pela mãe”, explicou.

Segundo a médica, o organismo da mulher poderia rejeitar o feto, que traz células maternas e paternas. Para evitar isso, o sistema imunológico se adapta com várias modulações celulares e neuroendócrinas que, se, por um lado, protegem a gestação, por outro, enfraquecem as defesas da grávida. Além disso, Ana Maria observa que alterações fisiológicas no organismo durante a gravidez podem agravar o quadro clínico de mulheres infectadas por qualquer tipo de patógeno, especialmente nos sistemas respiratório, endócrino, psicológico, imunológico e circulatório. “Na avaliação clínica da paciente obstétrica, o aumento fisiológico da frequência cardíaca e da ventilação e a diminuição da pressão arterial podem mascarar os primeiros sinais de infecção grave. A febre nem sempre está presente, mas um aumento de temperatura deve sempre levar à suspeita de infecção”, explicou.

Ela acrescentou que ainda não se sabe se a infecção por Sars-CoV-2 é transmitida verticalmente. “Ainda não há evidências suficientes na literatura para apoiar a ocorrência de transmissão vertical e/ou pela amamentação. Porém, estudos realizados apontam alta prevalência de prematuridade entre grávidas infectadas pelo Sars-CoV-2. Há um estudo de caso, publicado no Journal of the American Medical Association, mostrando que três de 33 bebês (9%) de mães com covid-19 apresentaram infecção precoce por Sars-CoV-2. No parto desses bebês, o controle de infecção e os procedimentos de prevenção foram implementados.

No entanto, é provável que as fontes de Sars-CoV-2 encontradas no trato respiratório superior ou no ânus dos neonatos fossem de origem materna. Embora estudos mostrem que existem achados clínicos ou investigações sugestivas de covid-19 em recém-nascidos de mães afetadas, mesmo quando todas as amostras, como líquido amniótico e leite materno, foram negativas para Sars-CoV-2, a transmissão vertical materno/fetal não pode ser excluída. Portanto, é crucial rastrear grávidas e implementar medidas rígidas de controle de infecção, como a quarentena de mães infectadas e o monitoramento de recém-nascidos com risco de covid-19”.

Netwise

O Jornal Cidade conversou com a gestante Yákara Lohana, que está à espera de José Pedro. Ela disse à reportagem que têm dias que o desespero de não conseguir ter o filho como sempre sonhou a deixa com muito medo.

“Fico pensando se terá leito, pois estou aproximando das 36 semanas. Penso se conseguirei chegar à fase final sem me contaminar e garantindo a saúde do José Pedro. Não sei, hoje minha meta de vida é trazer meu filho bem e estar bem para cuidar dele”.

Juliana Ribeiro, está com 28 semanas de gestação e também teme contrair a doença.

“Meu maior medo era parto, hoje, meu maior medo é não chegar lá. A gente fica imaginando: E se? E se? E com isso não estou vivendo o que eu mais sonhei na vida, que é curtir a gestação da Maria Clara. Sempre quis uma menina, sonhei com isso e agora esse vírus nos deixa à mercê”.


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