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Metas para 2022: como evitar que um objetivo para o próximo ano se transforme em autocobrança e ansiedade?

De acordo com o psicólogo Rodrigo Mendonça, o planejamento de metas é saudável, desde que sejam realistas e se encaixem em uma rotina adequada ao seu cumprimento; no entanto, é necessário cuidado para não transformá-las em “missões impossíveis”.

Traçar metas para o ano novo já é um elemento constitutivo da personalidade social. “Ano novo, vida nova”, como é geralmente dito nas celebrações do período, representa o desejo de mudança para o ciclo seguinte e a oportunidade certa para realizar objetivos que, por algum  motivo, ficaram na “gaveta” durante o ano que passou.

Seja adquirir o imóvel próprio, aprender um outro idioma ou até mesmo iniciar um novo relacionamento amoroso, metas definem aquilo que será prioritário para os próximos meses e, com o planejamento ideal, podem ser o “ponto de virada” na vida de uma pessoa. No entanto, é necessário cuidado para que estes mesmos objetivos não se tornem  “super-exigências”,  gerando ansiedade e um sentimento de fracasso.

O Jornal Cidade conversou com o psicólogo Rodrigo Tavares Mendonça, que afirma que a mudança de ano, ainda que simbólica, pode ser produtiva para o planejamento de metas de mudança.

“A mudança de ano, a construção de uma “vida nova”, é apenas simbólica, mas precisamos de símbolos para nos orientar. Então, aproveitar o símbolo da mudança para planejar metas de mudanças pode ser produtivo. Contudo, antes de planejar as metas, a pessoa precisa descobrir o que a impediu de alcançar essas mesmas metas no passado. Sem isso, provavelmente o fracasso a visitará novamente”, adverte.

Além disso, o psicólogo esclareceu outros pontos sobre o tema que merecem atenção, especialmente agora, quando o ano de 2022 se inicia. Confira a entrevista na íntegra.

Definir metas para cumprir ao longo de um ano que está começando é um hábito saudável? Se sim, como agir para não transformá-las em cobranças excessivas e um estresse desnecessário?

Rodrigo Mendonça: As pessoas são muito diferentes umas das outras, para umas a definição de metas direciona sua vida, para outros, transforma-se em uma cobrança excessiva que produz muita ansiedade. O desejo precisa acompanhar o cumprimento das metas, ninguém consegue suportar uma tarefa por muito tempo se o desejo não estiver presente. Então, para muitas pessoas, o desafio maior é encontrar o que está bloqueando o aparecimento do desejo por uma tarefa necessária. Se a autossabotagem está presente, faz-se necessário investigar a existência de um ganho secundário em permanecer no fracasso.

 

Metas podem ser um gatilho para a ansiedade? Se sim, é possível evitar a ansiedade sem comprometer o resultado que a pessoa estabeleceu para si mesma?

Rodrigo Mendonça: Com certeza as metas podem ser um gatilho para a ansiedade. Contudo, elas causam ansiedade apenas se forem altas demais. A ansiedade aparece quando estamos com medo, quando estamos diante de uma ameaça e pensamos que não somos capazes de enfrentá-la. A autoestima baixa tem um papel essencial na produção dessa ansiedade. Se a pessoa acredita que não é capaz de alcançar uma meta que seja importante para ela, provavelmente a ansiedade aparecerá com força. É preciso construir uma boa autoestima, acreditar nas suas capacidades de superar desafios, para evitar a ansiedade.

Como reconhecer que determinada meta se transformou em uma missão impossível? 

Rodrigo Mendonça: Missões impossíveis são gatilhos certos para a ansiedade. Se a meta depende de uma outra pessoa, como conquistar o amor de um amor, com certeza é uma missão que causará ansiedade. Por outro lado, depende apenas de você, perceber a presença ou ausência do desejo é fundamental. Sem ele, a meta certamente se transformará em uma missão impossível. E desejo aqui deve ser entendido como desejo de superar os desafios, não apenas de realizar as tarefas planejadas.

Quando que algumas metas, como parar de fumar e emagrecer determinado número de quilos, que muitas pessoas recomeçam ano após ano, deixam de ser eficientes e passam a ser um indicativo de procrastinação?

Rodrigo Mendonça: Muitos elementos envolvem as metas de parar de fumar e de emagrecer. Frequentemente a meta de parar de fumar existe para agradar o outro, porque a família insiste. Se é assim, dificilmente a pessoa terá um desejo forte o suficiente para permanecer tentando. Se a meta realmente for da pessoa, a ansiedade causada pela ausência tanto da nicotina quanto do hábito de fumar pode produzir um sentimento de incapacidade. Suportar a ansiedade para possibilitar a prevalência do sentimento de capacidade é um desafio que precisa ser enfrentado. O emagrecimento altera a imagem corporal e, portanto, a identidade, podendo causar medo por abrir um mundo novo. Uma vez, uma paciente obesa que buscava o emagrecimento me disse, após meses de psicoterapia: “Se eu for magra e bonita, que desculpa terei para meus fracassos? Terei obrigação de ser capaz, de ser feliz!”. Portanto, o próprio processo de emagrecimento pode produzir ansiedade. As metas podem ser importantes, mas devem estar acompanhadas de um autoconhecimento para evitar a procrastinação e a autossabotagem.

Na sua visão, quais tipos de metas são válidas – as de curto ou médio prazo, por exemplo – e podem ser implementadas sem gerar uma “super cobrança”?

Rodrigo Mendonça: Todas os tipos de metas podem ser válidas, depende da pessoa que a planeja, porque as pessoas são diferentes umas das outras, o que funciona para um pode não funcionar para outro. Pessoas com dificuldade para cumprir metas longas podem planejar metas curtas, por exemplo: se exercitar duas vezes por semana por quatro semanas ou não comer doce por seis dias. Depois desse tempo, ela pode se permitir um curto período sem metas ou planejar uma nova meta, e seguir assim por muito tempo. Algumas pessoas são motivadas pelo impossível, gostam de superar desafios. Para elas, planejar metas difíceis é importante para manter o desejo aceso. O planejamento de metas em conjunto pode ser uma solução para quem tem dificuldade em cumpri-las sozinho e necessita de uma motivação externa.

Rodrigo Tavares Mendonça é especialista em Psicoterapia de Família e Casal. (Foto: Arquivo pessoal/reprodução)

Pela sua experiência, metas trazem mais malefícios do que benefícios? Além disso, para você, metas seriam o resultado de uma sociedade na qual a produtividade é cada vez mais cobrada?

Rodrigo Mendonça: Vivemos em uma época em que existe uma cobrança constante por produtividade, uma vontade constante de subir a escada econômica. Essa pressão com certeza estimula o planejamento de metas, como se fôssemos robôs programados para alcançar objetivos. Não somos assim. Por outro lado, acredito que o planejamento de metas pode ser uma motivação para o cumprimento de uma tarefa. Contudo, a meta precisa ser realista, um passo de cada vez, sem uma dificuldade excessiva, e a rotina muitas vezes precisa estar adequada para o seu cumprimento. Além disso, precisamos compreender que fazemos parte de um todo, que estamos vulneráveis ao inesperado. Aceitar o inesperado é essencial, assim como estar sempre prontos para flexibilizar as metas que planejamos.

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