Médica fala sobre o perigo do uso de medicamentos para tratamento precoce de covid-19

Médica fala sobre o perigo do uso de medicamentos para tratamento precoce de covid-19

Nas redes sociais, é comum ver depoimentos de pessoas a favor ou contra a utilização desses medicamentos, bem como até relatos de pessoas que utilizaram.

Rhaiane Carvalho

Moda ou não, medo de ser infectado ou não, fato é que muitas pessoas estão aderindo ao uso precoce de medicamentos que, supostamente, impediria o ser humano de ter covid-19. Mesmo com evidências científicas de que o chamado tratamento precoce (conjunto de remédios como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina) não funciona contra a covid-19, uma quantidade expressiva de médicos segue prescrevendo os medicamentos para prevenir ou tratar a doença.

O assunto é um tanto polêmico, uma vez que alguns médicos e até políticos estão indicando o uso dos medicamentos que não são reconhecidos cientificamente para a doença pelos órgãos competentes. Evidências científicas apontam que esses remédios não têm efeito de prevenção ou tratamento precoce de covid. E médicos de hospitais de referência ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que a defesa e o uso do “kit covid” contribuem de diferentes maneiras para aumentar as mortes no país. “Alguns prefeitos distribuíram saquinho com o ‘kit covid’. As pessoas mais crédulas achavam que tomando aquilo não iam pegar covid nunca e demoravam para procurar assistência quando ficavam doentes”, diz Carlos Carvalho, diretor da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Em entrevista, o prefeito de Santo Antônio do Monte, Léo Camilo, informou que dará condições e fará a distribuição gratuita do “kit covid” nos PSFs e UPA, para quem quiser fazer o tratamento precoce. Ele relatou que sabe que o tratamento não é comprovadamente definido, mas que acredita e faz uso do ‘kit covid’.

“Estamos em uma guerra e, em uma guerra tem que valer tudo para a gente vencer. Muitas pessoas que fazem o uso desse tratamento precoce têm colocado suas boas condições de saúde a outras pessoas que não fazem. Convidei o farmacêutico e um grande estudioso, João Rodrigues, que vai reunir com os médicos, enfermeiros, técnicos dos PSFs e UPA e a gente vai dar essa possibilidade para quem quiser fazer o ‘tratamento’. Eu, por exemplo, faço o ‘tratamento precoce’, eu acredito no ‘tratamento precoce’ e a gente vai dar condição à população para fazer esse tratamento. É direito das pessoas, quem quiser fazer, que o faça, e o município vai dar condição pra que isso aconteça”.

A Associação Médica Brasileira pediu o banimento do chamado “kit Covid” no dia 23 de março. “Medicações como hidroxicloroquina e cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina, entre outras drogas, não possuem eficácia científica comprovada de benefício no tratamento ou prevenção da covid-19, quer seja na prevenção, na fase inicial ou nas fases avançadas da doença”, afirmou a organização em nota.

Entre os efeitos da procura tardia por atendimento está a intubação, quando o pulmão já está muito lesionado pelo esforço para respirar. Pacientes que recebem máscara de oxigênio ou ventilação mecânica invasiva antes de chegar à insuficiência respiratória aguda têm mais chances de sobreviver, explicam os médicos intensivistas.
“A falta de organização central e as informações desconexas sobre medicação sem eficácia contribuíram para a letalidade maior na nossa população. Não vou dizer que representa 1% ou 99% (das mortes), mas contribuiu”, completa Carlos Carvalho, que também é professor da Faculdade de Medicina da USP.

“Esses remédios não ajudam, não impedem o quadro de intubação, e trazem efeitos colaterais, como hepatite, problema renal, mais infecções bacterianas, diarreia, gastrite. E a interação entre esses medicamentos pode ser perigosa”, completa Barbas, que é professora de medicina da USP e referência internacional em ventilação mecânica”, informou a pneumologista Carmen Valente Barbas.

“Em termos de risco de morte, eu daria destaque para a cloroquina e hidroxocloroquina, com potencial para provocar arritmias fatais. E invermectina, como já comentei, com potencial de depressão do sistema nervoso central, lesão hepática, lesão renal, entre outros”, complementou a médica.

Nas redes sociais, é comum ver depoimentos de pessoas a favor ou contra a utilização desses medicamentos, bem como até relatos de pessoas que utilizaram. Para saber como anda a opinião dos leitores, o Jornal Cidade fez enquetes nas redes sociais perguntando se as pessoas já fizeram uso desses medicamentos; qual a opinião delas sobre esses; se alguém já teve efeito colateral com essas utilizações.

Foi perguntado se já haviam tomado o “Kit covid”, e 80% responderam que não e 20% que sim.

Sobre a eficácia desse kit, 64% disseram não acreditar e 36% disseram acreditar.

A enquete também perguntou aos leitores se algum familiar havia tomado o kit e quais as reações. O JC recebeu muitos relatos, mas a maioria dos participantes, preferiram não se identificar. Confira as respostas:

“Meu tio tomou e paralisou o fígado. Ele entrou para a fila do transplante e infelizmente morreu”, anônimo.
“Meu irmão é diabético, tomou e passou muito bem”, anônimo.
“Minha tia quase morreu tomando Ivermectina”, anônimo.
“Conheço alguém que tomou por mais de um ano e agora está com covid e exames mostraram o fígado alterado”, anônimo.

“Fiz uns exames e a médica falou que está tudo tranquilo. Sobre o kit, tive consequências do uso, pois meus hormônios da tireoide alteraram, e os outros hormônios também; minha pele ficou super oleosa, empolei as costas todinha por causa do corticoide; e por causa do uso da azitromicina abaixou a minha imunidade. Em dois médicos que fui, eles me falaram que por causa desses remédios alterou tudo isso e principalmente da tireoide, pois agora teremos que mexer na dose do meu remédio por causa dos remédios do kit que tomei”, Renata Gomes Ferreira, consultora bancária.

“Como profissional da área da saúde, me sinto na obrigação de relatar casos de duas pessoas próximas que tomaram e entraram para a fila do transplante de fígado por hepatite medicamentosa. É importante deixar isso claro pra quem toma. Talvez a pessoa não sinta nenhum efeito colateral, porém, o organismo uma hora reage de forma negativa”, Tayná Oliveira, biomédica.

No ano passado quando saiu isso do kit covid, ele ficou doido querendo tomar. Tomou todos os dias a Ivermectina e a Cloroquina até o início desse ano. Ele está com covid agora, fez os exames de sangue e deram todos alterados, principalmente, o fígado. Quem faz uso desses medicamentos sem necessidade prejudica muito o fígado. Agora estou torcendo para a recuperação dele, pois ainda não está 100%”, depoimento enviado em nossas redes sociais solicitando o anonimato.

“Claro que tem que acreditar gente!!! É o que temos para o momento. Tem muita politicagem por parte dos críticos ao tratamento precoce e um desinteresse total por parte da mídia em conhecer melhor sobre este assunto”, Tatiane Cristina.

Para esclarecer sobre o assunto, a médica Vanessa Cristina Coimbra, concedeu uma entrevista ao Jornal Cidade. Leia:

 

Foto: Arquivo Pessoal/ Vanessa Cristina Coimbra

Jornal Cidade: O kit covid tem sido recomendado por médicos no seu local de trabalho?

Médica: Infelizmente sim, no local que trabalho temos a turma que defende e a turma que não usa.
Jornal Cidade: Quais efeitos colaterais você tem notado que as pessoas têm sentido com o tratamento precoce?

Médica: Um dos principais efeitos que tenho notado são as diarreias, dores abdominais, queimação, náuseas, vômitos, inapetência (ausência de apetite) e, como consequência desidratação. Principalmente nos idosos, que já tomam outros remédios para diabetes, hipertensão, eles têm muita diarreia, epigastralgia (dor na região epigástrica), náuseas e vômitos, com isto, eles diminuem a ingestão de alimentos e líquidos, e chegam até nós muito desidratados.

Jornal Cidade: Por que mesmo sem comprovação científica e entidades médicas condenando o uso destes medicamentos, você acredita que colegas de profissão estão receitando o kit para os pacientes?
Médica: São dois motivos que são mais predominantes. Primeiro, para tratar a própria angústia e ansiedade do médico e do paciente em parecer que não se está instituindo nenhum tratamento, como se deixasse a pessoa piorar e morrer à mercê. O segundo é da expectativa e experiência com seus pacientes em pensar que o tratamento precoce está reduzindo as complicações.

Jornal Cidade: Quais os efeitos do uso incorreto desses medicamentos?

Médica: Náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal, hepatite, e até mesmo arritmias levando à morte súbita.
Jornal Cidade: Por que é importante, nesse momento, as pessoas acreditarem na ciência e não no que dizem pessoas que não estudaram para tal?

Médica: Porque a ciência é feita por especialistas que dedicaram anos de suas vidas estudando, com experiências teóricas e práticas, porque se o conhecimento não tivesse importância qualquer um poderia ser médico, pesquisador, bioquímico. Ir pelo achismo é isso. É um desmerecimento conosco da área da saúde que tanto estudamos, lemos, dedicamos nossa vida para isto para ouvir pessoas que não são da área, estas pessoas não têm o mínimo de conhecimento para prescrever medicação ou orientar tratamentos.
Jornal Cidade: Por que o tratamento precoce contra a covid-19 não funciona?

Médica: Porque o efeito da medicação IN-VITRO (em laboratório) é totalmente diferente do efeito da medicação no nosso organismo devido à complexidade do organismo humano e os processos de metabolização e disponibilidade do fármaco no organismo. A Ivermectina, por exemplo, teríamos que ingerir uma dose 30x à dose recomendada para que a medicação tivesse algum efeito benéfico contra o Sars-Cov2, e esta dose é tóxica ao nosso organismo, gerando hepatite e depois nos levando a um transplante hepático.

Jornal Cidade: Qual a verdadeira função da Ivermectina e da hidroxicloroquina?

Médica: A Ivermectina é um anti-parasitário, a função principal dela é para tratamento de verminoses e miíase. Já a Hidroxicloroquina é um anti-malárico e apresenta também uma ação imunomoduladora tendo efeito sobre lúpus, artrite reumataoide.

Netwise

Jornal Cidade: Com base em que você acha que alguns políticos estão indicando e até oferecendo esses medicamentos?

Médica: Por puro desespero, angústia e falta de conhecimento, pois assim eles têm uma falsa ideia de estar fornecendo um tratamento para a população e ter feito tudo o que era possível para tentar evitar o óbito.
Realmente, é angustiante ficar esperando o que vai acontecer, mas até o momento é o que nos resta. Inclusive, já temos vários estudos relacionando o corticoide na fase precoce ao aumento da gravidade e mortalidade da doença, pois ao suprimir o sistema imune aumentamos a carga viral no nosso organismo.

A Azitromicina e Amoxicilina com Clavulanato são duas medicações muito prescritas, ambos antibióticos, atuam contra bactérias, não contra vírus. O uso indiscriminado destas medicações gera uma indução à resistência bacteriana e após a covid é possível que tenhamos bactérias multirresistentes. E estas são nossas principais medicações utilizadas para pneumonia bacteriana, amigdalite, pielonefrite, sinusite. Estamos “queimando” um arsenal terapêutico extremante útil e importante no nosso dia a dia.

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