Máscaras, sabão, água e distanciamento têm se provado muito eficientes com nenhum tipo de efeito colateral, diz imunologista sobre o kit covid

Máscaras, sabão, água e distanciamento têm se provado muito eficientes com nenhum tipo de efeito colateral, diz imunologista sobre o kit covid

Desde o início da pandemia da covid-19, a ciência tem sido questionada e, em alguns casos, desmoralizada. Resultando em desinformação e o descumprimento das medidas sanitárias.

Karine Pires e Rhaiane Carvalho

 

A venda de remédios do chamado “kit covid” disparou, mesmo com a ciência dizendo que eles não funcionam. Hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina fazem parte do chamado tratamento precoce, que, segundo cientistas e instituições de pesquisa renomados, não funciona.

A ivermectina é um vermífugo, usado para combater parasitas, como lombrigas e piolhos; a cloroquina é usada no tratamento de malária, lúpus e artrite reumatóide; e a azitromicina é um antibiótico. As vendas de hidroxicloroquina subiram 173% em fevereiro desse ano em relação ao ano passado e as de ivermectina, mais de 700%.

Foto: Arquivo Pessoal/ Tiago Bruno Rezende de Castro

A redação do Jornal Cidade conversou com o imunologista, Tiago Bruno Rezende de Castro, que falou sobre o uso do ‘kit covid’ e assuntos relacionados ao coronavírus. Tiago é natural de Lagoa da Prata e é formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais, é mestre em bioquímica e doutor em bioinformática pelo programa de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele é pós-doutorando na Universidade Rockefeller e trabalha na área de imunologia.

Jornal Cidade: De onde surgiu a ideia de que o kit covid poderia funcionar?

Imunologista: Drogas como a hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, dentre outras, foram inicialmente publicadas e rapidamente tidas como verdades no meio popular. Enquanto isso, a ciência passou a trabalhar duro para entender a verdadeira capacidade de cura desses medicamentos. Drogas são publicadas com estudos preliminares e é preciso muito tempo para que o conhecimento seja estabelecido e carimbado como definitivo. Apenas um ou alguns estudos a favor de uma ideia são insignificantes quando a grande maioria dos estudos apontam para outra direção aos resultados obtidos. É por isso que após chamar a atenção da comunidade científica em fevereiro de 2020, a cloroquina rapidamente perdeu seu posto de potencial droga e foi reclassificada como não recomendada por praticamente todos órgãos de saúde mundiais.

O problema é que ao criar um mercado e demanda, que a ciência não poderia preencher já que mostrou a ineficácia desses medicamentos, tal demanda foi preenchida por charlatões e aproveitadores. Além disso, muitos estudos que inicialmente davam crédito a estas drogas foram retratados após a descoberta de falhas graves de metodologia ou até falsificações. O site retraction watch mantém uma lista atualizada desses estudos. Os riscos à saúde ao tomar esses medicamentos derivam do fato de nunca terem sido testadas sob estas circunstâncias. Até o presente momento, a maioria esmagadora dos estudos rejeitam a ideia de que qualquer forma de tratamento precoce tenha algum benefício contra a covid-19.

Jornal Cidade: Resumidamente, como o sistema imunológico reage quando se depara com um vírus?

Imunologista: Quando uma pessoa é infectada pela primeira vez por qualquer agente infeccioso (causador da doença), existe uma certa demora na resposta imunológica. As nossas defesas se iniciam quando as células atacadas começam a morrer, e nesse momento a infecção já está ocorrendo a algumas horas ou dias. Ao entrar em uma célula, o vírus sequestra as funções celulares para produzir novas partículas virais. Inicialmente as células de defesa tentam eliminar os vírus matando outras células infectadas que são verdadeiros reservatórios de novas partículas virais. É importante ter em mente que um vírus é milhões de vezes menor que uma célula do organismo, podendo ser observado apenas com poderosos microscópios, portanto cada célula poderá acumular milhares de novos vírus antes de serem eliminados para infectar novas células.

Além disso, o sistema imune produz uma grande variedade de substâncias chamadas citocinas que geram uma cadeia de reações para ajudar a combater os agentes infecciosos. De forma exagerada, as citocinas podem causar mais danos que benefícios ao organismo e elas são responsáveis pela forma severa da covid-19. Febre, dores musculares, vômito e fraqueza são alguns dos sintomas causados pela ‘tempestade de citocinas’, como é chamada. Um processo de defesa mais efetivo é a criação de anticorpos contra as proteínas dos vírus que são essenciais para que a infecção ocorra. Esse processo é demorado e leva dias para ser completado. Durante esse tempo a doença tem muito tempo para evoluir e causar danos. Ao produzir anticorpos a infecção é mais facilmente combatida e é nesse momento que a recuperação é significativa. A partir daí nosso sistema imune passa a produzir anticorpos contra a doença por décadas e é por isso que no caso de reinfecção a reação imunológica ocorre de maneira rápida e eficiente.

Jornal Cidade: Por que é tão difícil encontrar um tratamento para as doenças causadas por vírus, especialmente para a covid-19?

Netwise

Imunologista: Todos organismos, incluindo os vírus, são feitos dos mesmos componentes básicos: aminoácidos, proteínas, açúcares, gorduras, DNA entre outros. Drogas funcionam bem quando atacam certas proteínas que existem no agente infeccioso (causador da doença), mas estão ausentes no ser humano ou animal. Por exemplo, antibióticos funcionam bem contra bactérias porque destroem componentes essenciais das bactérias que não existem no nosso organismo.

Ao mesmo tempo, esses componentes não existem nos vírus e é por isso que antibióticos não funcionam contra infecções virais. Vírus são muito simples. Basicamente uma pequena cápsula com seu material genético dentro (DNA/RNA). Fora das células eles não são capazes de fazer nada. Não se replicam. Por isso necessitam das proteínas da própria célula para conseguirem se replicar e se manterem vivos. Devido a essa simplicidade é difícil encontrar drogas capazes de atacar alguma função essencial e exclusivamente viral, que não afete nosso organismo. Drogas existentes foram desenvolvidas para outros vírus, e muitas vezes não possuem eficácia elevada contra a covid-19 por não terem sido otimizadas para esse fim. Um exemplo disso é o Remdesivir, a única droga recomendada pelo FDA (equivalente da ANVISA nos Estados Unidos), apenas em casos graves de covid-19.

Desenvolvido para combater hepatite C, também foi estudado para o tratamento de ebola. Entretanto, novos estudos levaram Organização Mundial de Saúde (OMS), a não recomendar o seu uso desde novembro de 2020. Entretanto, medicamentos utilizados estão passando por novos testes a todo momento e podem ter sua recomendação alterada a qualquer momento. Essa rápida alteração nas recomendações pode confundir a população que não entende o motivo das mudanças. A ciência está continuamente testando e obtendo resultados das mais diferentes formas. Quando os estudos atingem uma grande proporção é que o conhecimento se torna estabelecido. Esse processo pode durar muitos anos.

Entender como funciona o sistema imunológico, é importante para entender a ação de vírus “invasores” no organismo. Foto: iStock/Divulgação

Jornal Cidade: Como se pode explicar que a maioria das pessoas infectadas pelo novo coronavírus são assintomáticas ou apresentam sintomas leves e em outras as consequências são tão severas?

Imunologista: Essa é uma pergunta ainda sem uma resposta definitiva, e muitos cientistas estão trabalhando para respondê-la. A genética de cada pessoa tem um papel importante nesse fenômeno e existem estudos tentando identificar os genes que estão relacionados a essa variabilidade de respostas imunológicas ao novo coronavírus. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, uma resposta imunológica forte pode ter o efeito contrário e causar mais danos e prejuízos do que benefícios. Uma resposta imunológica controlada, que é capaz de se auto regular sem ser exacerbada, é mais comum em pessoas com a forma branda da doença. Em alguns casos muito severos o sistema imune gera uma cadeia de reações tão alta que nem mesmo a eliminação do vírus é capaz de fazê-lo retornar ao estado normal. Nesses casos, a dexametasona, que inibe o sistema imunológico, tem sido usada em hospitais para tentar controlar o sistema imune e salvar a vida do paciente.

Jornal Cidade: Muitas pessoas têm utilizado a vitamina D, o kit de tratamento precoce e também, tratamentos homeopáticos como forma de prevenção do novo coronavírus. Há ainda pessoas que utilizam limão e vinagre, através de gargarejos. Por que estes tratamentos não funcionam?

Imunologista: Existem explicações; elas existiram desde sempre; sempre há uma solução bem conhecida para cada problema humano – simples, plausível e errada. H. L. Mencken

O ser humano em geral tem grande dificuldade de determinar o que é verdadeiro e o que é falso. Até meros 200 anos atrás a comunicação de uma pessoa a outra era feita por cartas transportadas a cavalo. Além disso, foi apenas no final do século 17 que microrganismos foram descobertos. Nesse período, um método foi desenvolvido para que conhecimentos fossem acumulados de forma mais precisa: chamado Ciência. Na natureza o que pode parecer simples requer muito trabalho para ser solucionado. O vírus da covid-19 infecta células do sistema respiratório nos pulmões que não são atingidas por gargarejos. Mesmo se fossem, não existe mecanismo pelo qual essas substâncias possam inibir a replicação viral. As pessoas não deveriam experimentar nelas mesmas. Medicamentos muitas vezes são publicados ao terem sido testados em células de cultura (em placas fora do organismo) e usando concentrações muito maiores que as disponíveis em medicamentos encontrados em farmácias.

Além disso, após uma publicação inicial é preciso que outros estudos testem com métodos mais avançados e de outras formas para averiguar a real capacidade de determinado tratamento. Por fim, ao usar alguma fórmula, uma pessoa pode acreditar no seu método quando na verdade, foi o sistema imune da própria pessoa que a livrou da doença. É completamente compreensível que as pessoas tentem buscar soluções da forma que podem. No mundo todo, milhares de pessoas estão morrendo e muitas outras perdendo seus empregos. Entretanto medidas simples e baratas de proteção a covid-19 que têm se provado muito eficientes com nenhum tipo de efeito colateral: máscaras, sabão e água, distanciamento social.

Jornal Cidade: Como vacinas agem no organismo e por que no caso da covid-19 ela é indicada?

Imunologista: Uma vacina tem o objetivo de simular uma determinada doença de forma a induzir no organismo, a produção de anticorpos. Com isso o organismo aprende a lidar com uma doença sem a necessidade de entrarmos em contato com a doença de fato. Fazendo uma analogia: imagine que você comece um curso de pilotagem que oferece duas modalidades para iniciantes. Em um, seu primeiro dia de aula será pilotar um Boeing 737 em um voo internacional com 215 passageiros. No outro, você irá passar muitos anos estudando e usando simuladores antes de pilotar um avião verdadeiro. Qual você se sentiria mais confiante? A primeira vacina foi feita contra a varíola, usando um parente menos letal da varíola chamado de Vaccinia vírus (chamada de varíola das vacas). Apesar de menos letal possuía proteínas muito parecidas com o da varíola e quando o organismo aprendia a lidar com a vaccinia, automaticamente possuía anticorpos viáveis também contra a varíola.

Existem tecnologias mais avançadas que este método inicial para a produção de vacinas hoje em dia, mas a ideia de todas é a mesma: imitar a infecção natural. Muitas pessoas acham que se tiverem pegado a covid-19 naturalmente não precisam tomar vacinas, entretanto estudos mostram que pessoas já curadas de covid-19 que se vacinaram apresentaram imunidade superior ao de pessoas que passaram apenas pela infecção natural. Isso se deve ao processo desgastante e danoso que o sistema imune passa durante a infecção natural, que leva meses para se recuperar completamente. Portanto, quando chegar sua vez, faça o simulado contra covid-19! Vacine-se!

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