Lagopratenses contam com saudade sobre o período do corte de cana

Lagopratenses contam com saudade sobre o período do corte de cana

No dia 16 de janeiro foi celebrado o dia do cortador de cana e, por isso, o Jornal Cidade conversou com algumas pessoas que trabalharam no ramo por muitos anos.

Karine Pires e Matheus Costa

A história do intenso trabalho dos cortadores de cana-de-açúcar permeia Lagoa da Prata. Nos canaviais da antiga Usina Luciância, havia muitos risos, tristezas, gente simples, humildes, histórias de vida inimagináveis, e ainda sim, tornou-se um tempo de muita saudade para aqueles que madrugavam em busca do pão de cada dia em um trabalho muito árduo e pouco reconhecido. No mês de janeiro é celebrado o dia do cortador de cana-de açúcar e para falar um pouco sobre quem conhece de perto esse trabalho, o Jornal Cidade conversou com personagens que escreveram a história de Lagoa da Prata.

A cana-de-açúcar foi e ainda continua sendo um grande negócio dos poderosos no campo brasileiro. Conforme o portal Brasil de Fato, se observado do panorama atual, o Brasil mantém a condição de grande produtor e exportador mundial de cana e de seus principais derivados — açúcar e álcool. Com 430 usinas e destilarias, que empregam em média 1,5 milhão de trabalhadores, o país desfruta do posto de maior produtor de açúcar do planeta e de responsável por 45% da produção mundial de etanol.

Foto: Reprodução/Internet

No dia 16 de janeiro celebrou-se o dia do cortador de cana; esta categoria que, durante o período da safra, soma uma média de 300 mil trabalhadores no país. Lagoa da Prata faz parte deste cenário. Por causa da Usina Luciânia, gerações passadas trabalharam cortando cana na usina por muitos anos.

Edna Pereira da Silva, de 61 anos, contou à redação que trabalhou como cortadora de cana durante os anos 1980 a 2010, onde se aposentou, e como sente saudades daquela época, por mais difícil que fosse.

“Era um trabalho pesado. Na época, era braçal mesmo, no podão. Eu trabalhava porque precisava, mas não posso negar que era divertido. Era muita gente, e estar todo dia com aquela turma, acabava que nos divertíamos bastante. Por isso, sinto tanta saudade, era pesado, mas era divertido estar com o pessoal. Hoje não trabalho mais porque a idade não permite, senão eu não estaria parada.”, contou Edna.

A doméstica Shirley Aparecida Corrêa, de 51 anos, afirma que o período em que trabalhou cortando cana na usina foi a melhor época da vida dela. “Aonde eu criei minha família (Usina Luciânia), meu marido era um dos melhores cortadores de cana da usina. Foi muito bom e muito gratificante não me arrependo hora nenhuma, foi a melhor coisa que a usina fez pra nós e hoje a gente sente muita falta daquela usina. Eu só tenho a agradecer a Deus pela Usina Luciânia, tenho muitas amizades boas através da usina.”

Supermercado da Vila Luciânia. Foto: Reprodução/Internet

Os amigos feitos na profissão, são lembrados por José Geraldo da Silva de 51 anos, aposentado, que trabalhou como cortador de cana na usina de 1985 a 1998. “A minha experiência foi boa e tenho muitos amigos daquela época.” Maria das Graças Ribeiro de Almeida, de 55 anos, atualmente mora em Iguatama e não se lembra do período em que trabalhou na Usina Luciânia. Para ela o trabalho foi um desafio, mas também tem lembranças boas do período vivido por lá. Também trabalhou na Usina Luciânia por alguns meses, “foi bom, eu gostava de trabalhar, sabe?! Não era fácil, porque entrávamos no canavial e eu que não dava conta de cortar muita cana, eles jogavam a gente lá pro final do canavial. Mas graças a Deus eu nunca machuquei”.

Senta que lá vem história: você sabe como nasceu a usina açucareira em Lagoa da Prata?
Fotografia retrata sede da Usina Luciânia. Foto: Reprodução/Internet

Durante algumas pesquisas, a redação do JC encontrou um arquivo no portal Lagoa da Prata Ponto Com, onde está uma parte dos trabalhos escritos e publicados pelo historiador Silvério Rocha de Oliveira nos jornais da cidade. A pequena história contada por Silvério explica como José Mendes Macedo* (primeiro prefeito de Lagoa da Prata – falecido em 2004, próximos dos 100 anos de idade) trouxe a usina:

‘Hoje, atendendo estudantes locais, vou contar como a usina nasceu. Conforme informações obtidas através do senhor José Mendes Macedo*, que foi o primeiro prefeito de Lagoa da Prata e mentor da criação, instalação e funcionamento da usina açucareira, esta nasceu em consequência de ligeiro bate papo acontecido no Rio de Janeiro, acontecido no primeiro semestre do ano de 1945, que foi contado assim: “Corria o ano de 1945 quando eu mantinha negócios na capital federal. Desde que me mudei de Lagoa da Prata, em 1940 – quando deixei de ser prefeito – e já residia em Belo Horizonte, de vez em quando ia lá para tratar de assuntos da empresa de que participava no Rio. Certo dia, via-me numa lanchonete carioca, na Barra da Tijuca, quando me encontrei com dois amigos bem conhecidos – de certa influência no Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Nesse contato, conscientizei-me da disponibilidade de cotas viáveis à instalação de usinas açucareiras bem como de destilarias de álcool, no país. Era um incentivo raro e interessante.

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Lutei pela causa, no IAA. Na ocasião, fui informado de já terem sido destinados ao município mineiro de Dores do Indaiá 50.000 cotas destinadas a recursos nessa destinação. Comentei sobre as qualidades de terras existentes aqui e falei do engenho existente na Olaria que já produzia aguardente deste 1920. Eram só terras boas. Das melhores da região. Falei que minha sogra era proprietária de muitos mil hectares de terras férteis aproveitáveis àquele fim. E que eu também que era dono da fazenda dos Coqueiros – herdada do meu sogro – que era continuação dessas mesmas faixas produtivas. Ficaram de estudar o caso e ordenaram a vinda de uma comissão do IAA a estudá-lo. Surpreendendo-me, tudo veio rápido e a conversa acabou gerando frutos muito importantes. Pois, vieram logo.

Aqui chegando, visitaram as fazendas indicadas, principalmente a Capoeira da Cana (onde hoje existe a usina). O assunto teve seguimento. Resultado: até aquelas cotas destinadas ao endereço inicial muram-se de rumo – vieram para Lagoa da Prata que obteve também igual número perfazendo 100.000, como início da participação na ideia. Confirmada a criação da usina com esse recurso inicial, procurei pessoas talvez interessadas e fui logo ao maior líder industrial conhecido na região: Jovelino Rabelo (e este trouxe um seu genro engenheiro para a orientação de tudo no começo desse mister: o Dr. Francisco Botelho Martins Vieira). Junto dele, fomos em busca de alguém ligado à questão e fomos convidando quem pudesse participar.

Vila Luciânia Foto: Reprodução/Internet

O ex- prefeito reuniu uma equipe para montar a usina da cidade e após diversas reuniões no Clube Recreativo da cidade, a usina recebeu o nome de Companhia Industrial e Agrícola Oeste de Minas no ano de 1946. Por fim, José explica como a usina foi a chegada da empresa francesa Fives Lilly e também sobre a primeira safra”.

“Criada e instalada, veio a produzir após ser autorizada pelo IAA e assim funcionou durante longo tempo ostentando o nome fantasia de “Usina São Francisco”. Para consolidar o objetivo é chegar-se a tanto, uma firma francesa, sediada em Paris – a Fives Lilly, encarregou-se do fornecimento e da montagem do primeiro engenho destinado ao fabrico de açúcar (a usina propriamente dita) cujo trabalho ficou por conta de um técnico, vindo de lá, de nome Mr. León Cousar, enquanto o setor de instalação e produção de álcool (a destilaria) era dirigido por um encarregado da Codiq – uma empresa paulistana, dirigida pelo seu encarrego conhecido pela alcunha de “Japão”, visto parecer-se japonês (não tendo me inteirado do seu nome). Veio também, para dar início à produção, um prático experiente na produção de açúcar encontrado numa das usinas já existentes: o sêo Borges que era até chamado de Doutor. Desse jeito, foi-se indo até acontecer a primeira safra em outubro de 1948. Logo após iniciada a produção, a Ciaom foi transferida aos domínios do grupo financeiro do Dr. Antônio Luciano Pereira Filho, ora sob a direção do seu pai: Cel. Antônio Luciano Pereira, que se tornou Diretor Presidente. Isto aconteceu em 26 de fevereiro de 1949 (conforme ata registrada na JCEMG – nº 30.075 – em 19 de março de 1949″.

 

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