“Já fui ameaçada de morte no exercício da profissão”, afirma repórter sobre atuação no Centro-Oeste MG

“Já fui ameaçada de morte no exercício da profissão”, afirma repórter sobre atuação no Centro-Oeste MG

Repórteres contam sobre os desafios, vantagens e desvantagens do jornalismo local, principalmente, durante a pandemia da covid-19.

Matheus Costa e Karine Pires

Apurar, ouvir, escrever e publicar uma notícia é papel fundamental de um repórter. O repórter no jornalismo exerce, talvez, a função principal de um veículo de comunicação, pois sem ele não há notícia para informar a população sobre fatos de utilidade pública. No mês em que é celebrado o dia do repórter no jornalismo brasileiro, a redação do Jornal Cidade conversou com jornalistas da região Centro-Oeste Mineira para saber os desafios da profissão em cidades de pequeno porte.

A relação com a escrita na infância fez com que Júnior Nogueira investisse no jornalismo. O jornalista não é formado na área, mas possui diploma de provisionamento do Ministério do Trabalho. Atualmente é proprietário e repórter do jornal O Papel, em Lagoa da Prata, veículo em que atua há 27 anos. “Desde pequeno sempre gostei de escrever, meu primeiro trabalho foi em uma rádio na área de jornalismo e, desde lá, eu sempre militei nesta profissão; só de ‘O Papel’ são 27 anos, então, não foi uma questão de escolha, acho que a primeira porta que abriu para mim nessa área eu entrei e nunca mais saí”, contou Júnior.

Já Bárbara Félix, jornalista do portal Sou+Lagoa de Lagoa da Prata, contou ao JC que decidiu ser jornalista nos seus 17 anos. Como repórter de um portal local, a jornalista também esteve à frente das notícias sobre a pandemia da covid-19 no município. Ela conta como está sendo difícil cobrir este cenário tão delicado.

“Desde março de 2020 até os dias atuais, tem sido como uma montanha russa! E falo isso porque cobrir um assunto tão delicado, que envolve saúde e política também, não era algo que estava acostumada a fazer no veículo que atuo. Além disso, muitas coisas sobre o coronavírus, no início da pandemia eram incertas para todo mundo, então foi preciso ter muito cuidado na hora de escrever as reportagens. Hoje é mais tranquilo e de certo modo ‘menos triste’, pois tive o privilégio de estar presente na chegada da CoronaVac na cidade, vi as duas primeiras pessoas sendo vacinadas no município… foi e continua sendo uma experiência e tanto!”, finalizou ela.

A pandemia foi algo que exigiu dos profissionais o aprendizado duplo, tanto como cidadão, quanto como profissional. Atividades que antes eram presenciais, passaram a ser on-line e o trabalho em formato home-office, assim como em outras profissões. Em Lagoa da Prata, os desafios do repórter foram e estão sendo grandes, mas os profissionais se uniram tendo como prioridade a transmissão da notícia para a população.

“Porque os meios de comunicação desenvolveram um laço de amizade muito forte, uma interatividade muito produtiva para poder trabalhar. Então, a gente se uniu nesse momento de pandemia para levar essa mensagem para a cidade, para poder manter a população informada, mesmo com todas as dificuldades impostas pelo poder Executivo da época. Mas, ao mesmo tempo, porque moramos numa cidade pequena e conhecemos praticamente todo mundo, as perdas nos afetam bastante”, contou Nogueira.

Netwise

A proximidade citada por Júnior, é algo que em alguns momentos pode ser uma dificuldade na visão da jornalista Cristiana Teixeira. Pois, a relação próxima de repórteres e fontes em cidades pequenas, é um dos desafios que o jornalismo local impõe na carreira de um jornalista, sobretudo, se o profissional atua na função de repórter. Cristiana atua na área há 12 anos e já trabalhou em vários veículos da região Centro-Oeste Mineira neste período. Atualmente ela trabalha na Rádio Vida de Arcos.

“Em cidades de menor porte, o jornalista está muito próximo das suas fontes, ele está muito próximo da notícia. Isso ao meu ver, atrapalha! Porque as pessoas confundem, o profissional com aquela pessoa que cresceu, se desenvolveu e que trabalha ali naquela cidade. Muitas vezes não conseguem separar o pessoal do profissional. E isso atrapalha, porque acabamos nos deparando com questões que temos que noticiar, que às vezes envolvem pessoas conhecidas e por isso essas pessoas acham que podem de alguma forma obter vantagens nesta divulgação. Já fui abordada várias vezes, por pessoas pedindo pra eu não dizer o nome, pedindo para eu não fazer a reportagem (…)” explica, Cris.

Violência

O Relatório Anual da Violência Contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), identificou 428 casos de ataques e dois assassinatos, o que representa um aumento de 105,77%, no Brasil em 2020. Os dados cresceram no governo de Jair Bolsonaro (Sem Partido) – que, diariamente, incita o ódio contra os profissionais no país através de xingamentos e humilhações durante entrevistas. Apesar dos dados de violência física e verbal acontecerem mais em capitais e em grandes veículos jornalísticos, no interior, é praticada da mesma forma, mas com uma incidência muito menor. Na visão de Cristiana, a violência contra repórteres não se resume a apenas a física.

“A violência contra o jornalista existe, ela é real! Não adianta a gente querer ignorar ou tentar ignorar. Eu mesma já fui vítima dessa violência, porque quando a gente fala em violência, remete-se a uma agressão física, né?! A um assassinato, a uma tentativa, mas muitas vezes essa agressão ela vem com uma ameaça, ela vem com silêncio, por exemplo, o silêncio do poder público quando você busca uma informação, e você é obrigado por outros meios a conseguir uma informação. Enfim, essa violência, ela acontece todos os dias. Eu mesma passei por essa violência do silêncio do poder público e posso dizer com propriedade que ainda estou passando”.

Assim como Cristiana em Arcos, Júnior também encontrou dificuldades de conseguir informações do poder público em Lagoa da Prata, durante a última gestão, conforme citado anteriormente. Algo que também foi sentido na redação do Jornal Cidade.

Cristiana ressalta que é preciso mais união da categoria para combater qualquer tipo de violência e ter como único objetivo: a informação.

“Devido minhas atuações passadas, que envolveram pessoas da atual administração e isso tem me causado atualmente essa situação, de me deparar com o silêncio deles, entre aspas por imposição. Então é complicado, é algo que nós temos que nos atentar e nos unir, pois os jornalistas pertencem a uma classe muito desunida, onde o egoísmo, o status, a soberba prevalece. Enquanto tínhamos que sermos unidos, para buscarmos as informações, para trazer informações de qualidade, de credibilidade, de responsabilidade para a população, afirmou Cristiana.

Em relação às violências físicas, Júnior lembra que o jornalismo local é mais “tranquilo” e que no caso dos profissionais da cidade, não há tantos efeitos dessa violência vista no cenário nacional. Em contrapartida, Cristiana já foi ameaçada de morte. “Já sofri ameaças de morte no exercício da profissão, enfim, posso não estar em frente da estatística do 105% de repórteres violentados no último ano, mas infelizmente já passei sim por violência no exercício da profissão.”

Apesar das inúmeras tentativas de silenciar o jornalismo, a profissão é uma missão social com desafios complexos. Portanto, o jornalismo local feito por veículos de comunicação pequenos, é tão importante quanto o jornalismo de grandes veículos das capitais do Brasil. Pois é ele o combustível de um grande veículo para noticiar a nível nacional, e ele nasce das mãos dos jornalistas, sobretudo, dos repórteres.

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