Informação não é conhecimento

Informação não é conhecimento

Helder C. S. Cardoso

Vivemos em tempos de superinformação. Talvez nunca na história da humanidade um ser humano tenha tido a possibilidade de ter acesso a tanta informação e de forma tão instantânea como agora. Basta “dar um Google” e qualquer dúvida se esclarece. Nas conversas de botequim, não há mais aquelas velhas discussões intermináveis sobre a escalação do time titular do Cruzeiro de 2003 ou sobre quem levou o Oscar de melhor filme no ano retrasado.

No entanto, parece que nem tudo são rosas em nosso mundinho superinformado. Junto com essa torrente de informações que nos chega sem parar, vem todo um cortejo de ansiedade, fake news, desinformação, superficialidade e outras coisas mais. Se nunca fomos tão informados, pode-se dizer também que nunca nos sentimos tão ansiosos e desnorteados como hoje.

O fato é que a tecnologia se desenvolveu nas últimas décadas de forma muito mais ágil do que nossa capacidade de lidar com a rapidez desse fluxo de informações que as novas tecnologias permite. Talvez nosso maior desafio hoje seja então nos adaptar (psiquicamente, cerebralmente, socialmente…) a essa nova realidade.

No campo da educação, por exemplo, isso se mostra de forma muito clara. O professor não é mais aquele que tem a missão de trazer informações a seus alunos a respeito de história, geografia, biologia, português, etc. Não precisamos saber qual a capital da Noruega ou se o certo é “chuchu” ou “xuxu”: basta perguntar ao Google, nosso oráculo pós-moderno, e a resposta chega até nós.

Mas diante disso alguém poderia então concluir: “ora, o professor não é mais necessário nos dias de hoje, é uma função ultrapassada”. E é aí que se engana completamente. O professor é hoje mais necessário do que nunca, e sua importância está relacionada a uma distinção fundamental, que é a distinção entre informação e conhecimento.

Informação é um dado simples, objetivo: a capital da Noruega é Oslo e Chuchu se escreve com “ch”, por exemplo. Já o conhecimento diz respeito a uma capacidade de processar informações, relacioná-las umas com as outras, comparar dados, questionar e construir ideias complexas. O conhecimento é aquilo que permite a nós fazermos uma certa leitura da realidade e compreendermos melhor as coisas, num sentido mais completo e profundo. É preciso um trabalho mental significativo para transformar informações em conhecimento. E é justamente aí que se insere o papel do professor nos nossos dias: ajudar seus alunos a transformar informações em conhecimento.

Um aluno pode ter a informação de que o nazismo foi uma ideologia e um regime autoritário que esteve no poder na Alemanha na primeira metade do século XX; porém para compreender de fato as circunstâncias que permitiram ao nazismo chegar ao poder e que permitem a existência de grupos neonazistas em pleno século XXI, é preciso de uma boa conversa com um professor de história. Uma aluna pode ter a informação de que os agrotóxicos são prejudiciais à saúde; porém para compreender de forma complexa como se dá o controle de pragas na agricultura atual, questionar porque se usa tanto agrotóxico, indagar quais as outras formas possíveis de plantar, é preciso de uma boa aula de biologia.

Por fim, eu diria que é preciso que cuidemos melhor de nossa relação com a informação para que não fiquemos “sufocados” com tanta coisa. E além disso, é importante que não contentemos apenas com informação, mas que busquemos o conhecimento. Para isso, porém, é preciso vencer a preguiça de pensar, esse velho vício que nos acompanha desde que o mundo é mundo…

Helder C. S. Cardoso é graduado em Psicologia (PUC Minas) e Especialista em Saúde Mental (Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais).

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