Imunologista afirma que ações do homem contribuem e muito para surgimento de novas doenças

Imunologista afirma que ações do homem contribuem e muito para surgimento de novas doenças

Entre os sintomas da febre do Nilo, estão a dor de cabeça, vômito, febre e cansaço. Os casos mais graves da doença podem resultar em meningite e encefalite.

Após ser detectada pela primeira vez em Minas Gerais, a febre do Nilo, doença que pode levar à morte e é transmitida por mosquitos do gênero Culex às aves silvestres, e que pode infectar, acidentalmente, humanos e cavalos, tem preocupado as autoridades e a população em um momento que o país vive uma das piores pandemias, a da covid-19.

Entre os sintomas da doença, estão a dor de cabeça, vômito, febre e cansaço. Os casos mais graves da febre do Nilo Ocidental podem resultar em meningite e encefalite. Mas, isso acontece em um a cada 150 casos.

Para saber mais sobre essa doença, a redação do Jornal Cidade conversou com o imunologista, Tiago Bruno Rezende de Castro, que é natural de Lagoa da Prata. Ele é formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais, é mestre em bioquímica e doutor em bioinformática pelo programa de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e é pós-doutorando na Universidade Rockefeller e trabalha na área de imunologia.

Foto: Arquivo Pessoal/ Tiago Bruno Rezende de Castro

Jornal Cidade: Qual o histórico do vírus do Nilo?

Imunologista: O vírus do Nilo, chamado também de Vírus do Nilo Ocidental, foi descoberto pela primeira vez em 1937 em uma mulher febril de Uganda, no distrito chamado de Nilo ocidental, daí o nome. Entretanto, o rápido movimento de pessoas entre os continentes no mundo moderno propiciou seu aparecimento em inúmeros outros continentes, incluindo a Europa e as Américas. Nos Estados Unidos, o primeiro caso foi registrado em 1999 no distrito de Queens em Nova Iorque. No Brasil, os primeiros casos foram detectados a partir de 2009.

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Jornal Cidade: Como ele é transmitido e quais tipos de sintomas ele causa em uma pessoa infectada?

Imunologista: O vírus do Nilo Ocidental é transmitido por mosquitos do gênero Culex, comumente chamado de pernilongo ou muriçoca, que é o vetor da doença, ou seja, sem esse vetor ele não é capaz de ser transmitido. Desde sua descoberta, os cientistas determinaram que ele é um vírus neurotrópico, que significa que causa danos às células do sistema nervoso como o cérebro. Eles observaram por exemplo que ao injetar o vírus no cérebro de camundongos, quase sempre lhes causava a morte, enquanto que uma infecção subcutânea (debaixo da pele) raramente era observado qualquer sintoma e nunca a morte desses animais.

É um vírus comumente transmitido entre aves por mosquitos. Estas aves por sua vez alimentam o ciclo de infecção por passarem o vírus a outros mosquitos que venham a se alimentar novamente do seu sangue. Mamíferos como cavalos e o ser humano podem ser infectados, mas não transmitem a doença a outros mosquitos, por isso é dito que são hospedeiros sem saída. No ser humano este vírus não causa nenhum sintoma ou sintomas leves em 80 % dos casos. Sintomas parecidos com o de uma gripe afeta cerca de 20% dos infectados, estes incluem febre, dores pelo corpo e dores de cabeça dentre outros. Entretanto os sintomas podem ser mais severos em pessoas que tenham já alguma deficiência do sistema imunológico. A forma mais fatal ocorre quando há o comprometimento do sistema nervoso central, com o desenvolvimento de encefalite e ou meningite.

Jornal Cidade: É um vírus potencialmente perigoso?

Imunologista: As estatísticas mostram que a grande maioria das pessoas não irá desenvolver quaisquer sintomas ou irá desenvolver sintomas leves como de uma gripe. Entretanto, pessoas com algum tipo de comorbidade ou pessoas muito novas ou mais idosas podem vir a ter complicações. Infelizmente, não existe uma vacina contra este vírus e os tratamentos se resumem a aliviar os sintomas do paciente até que o sistema imune consiga eliminar o vírus. Nos raros casos onde a pessoa desenvolve uma encefalite ou meningite (cerca de 1 a cada 150 casos), as chances da doença causar morte se tornam muito altas.

Jornal Cidade: As ações do homem contribuem para gerar na existência de novas doenças? Ou não tem relação?

A resposta curta para esta pergunta é sim. As ações do homem contribuem e muito para o surgimento de novas doenças. As alterações climáticas que são causadas pelo homem, assim como as interações do homem com animais, tanto domésticos, como selvagens podem levar ao aparecimento de novas doenças. As interações entre as doenças e seus respectivos hospedeiros evoluem durante milhares de anos para um equilíbrio. Funciona desta forma: os vírus ou bactérias mais severas matam os hospedeiros muito rapidamente e por sua vez são eliminados da natureza, enquanto que os menos severos sobrevivem por manterem seus hospedeiros vivos. Por outro lado, os hospedeiros mais resistentes sobrevivem com maior frequência e deixam mais descendentes que os hospedeiros mais fracos. Após milhares de anos de intensa luta entre doença e hospedeiro, tanto um quanto o outro passam a se tolerar. Entretanto quando uma doença que está acostumada (adaptada) a algum animal passa a infectar um animal diferente, o que pode ocorrer ao acaso, esta se torna mortal por estar em hospedeiro em que é pouco adaptado. Por exemplo, a gripe foi passada aos seres humanos pelas aves e porcos que também passaram Coqueluche. As vacas passaram Varíola, Tuberculose e Sarampo. Em resumo, doenças novas e perigosas sempre vem de outros animais. No caso do vírus do Nilo Ocidental, é um vírus de aves que pode ser acidentalmente transmitido ao ser humano por pernilongos/mosquitos.

Jornal Cidade: Quais cuidados deveriam ser tomados para evitar que novos casos sejam registrados?

A melhor forma de evitar novos casos são as mesmas ações tomadas a outras doenças que também são transmitidas por mosquitos, como a dengue. O combate a reprodução dos mosquitos e pernilongos, evitando o acúmulo de água parada e também evitar ser picado. O uso de repelentes e proteções físicas, além de telas em janelas podem ajudar.

Jornal Cidade: As pessoas estão preocupadas sobre esse novo vírus. Atualmente, é preciso se preocupar?

O nível correto de preocupação requer bom senso por parte da população, ou seja, existe um ponto ótimo entre se preocupar demais e não se preocupar o suficiente. Lembre-se: os mosquitos e pernilongos são os verdadeiros vilões dessa doença, não as aves. Cavalos e outros mamíferos são hospedeiros sem saída, eles não transmitem a doença a outros mosquitos ou indivíduos. Evite propagar desinformação. Evite propiciar a reprodução de pernilongos, e tenha os cuidados para não ser picado. Mosquitos e pernilongos são responsáveis pelo maior número de mortes da história da humanidade. Transmitindo inúmeras doenças como malária, dengue, vírus do Nilo Ocidental, chikungunya, febre amarela, filariose dentre muitas outras. Atualmente, a melhor forma de combate é evitar a proliferação do mosquito do gênero Culex, no entanto, outros tipos de mosquitos, se infectados, também podem transmitir.

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