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Hollywood e Minas: um paralelo

Cara e coroa. Claro e escuro. Quente e frio. Doce e salgado. Duro e macio. Dentro e fora. Baixo e cima. Morto e vivo. Para mim, é mais ou menos essa a relação entre Hollywood e Minas: uma relação de opostos. Duas culturas totalmente distintas. Distintas e distantes.

O que é Hollywood? Ora, Hollywood é toda essa coisa glamourosa, cheia de purpurina e confete, essa vontade de ser grande, de ser famoso, de aparecer, essa coisa de ter que ser o(a) mais bonito(a) e o(a) mais gostoso(a). Hollywood é esse exagero de flashes, fotos e poses (exagero que não é apenas hollywoodiano, mas também facebookiano). Hollywood é a terra das “Estrelas”, das coisas grandiosas e brilhantes, é o lugar das coisas do alto. Hollywood é esse exagero todo.

E o que é Minas? Minas é justamente o oposto do transbordamento hollywoodiano. Minas inspira humildade, pequenez, fala mansa e prosa boa. Minas é terra de coisas menores, é lugar de miudezas. Aqui a água corre, a fruta cai, o galo canta e a vida segue sem precisar de muito alarde. A vida aqui é mais miúda, mais pequena. O mineiro é essa figura tímida e humilde, que não gosta de muito luxo, mas de simplicidade e coisas mais verdadeiras:

Mineiro não é sujeito de ficar fazendo pose. Enquanto Hollywood se preocupa com as “estrelas” e as coisas do alto, o mineiro gosta mesmo é das miudezas, das coisinhas do chão, como diz Manoel de Barros. Tenho pensado bastante na questão do cinema americano, na sua proposta, nos sentimentos que ele inspira. E pensando nesse assunto, tenho percebido que as histórias contadas pelo cinema americano são, com raras exceções, grandiloquentes, heroicas, megalomaníacas até. Tem sempre um acontecimento extraordinário no meio da história: invasões extraterrestres, batalhas heróicas, lindos sacrifícios, salvamentos de mundo, noitadas loucas, amores impossíveis, etc.

Fazendo uma descompromissada análise psicológica do cinema de Hollywood (psicologia de buteco, naturalmente), penso que dentro da “mentalidade hollywoodiana” há sempre a espera por algo extraordinário que aconteça e dê brilho e cor à vida comum e ordinária. Em Hollywood, a vida simples, miúda e cotidiana não basta: em Hollywood é preciso brilhar. Em Hollywood, a vida em sua pureza não basta: é preciso acrescentar “efeitos E o pior é que essa mentalidade hollywoodiana, essa cultura grandiloquente e megalomaníaca é exportada para o mundo inteiro, e a gente compra essa idéia numa boa, sem pensar duas vezes. Hollywood não é um lugar, é um estado de espírito, um jeito de ser, que se espalha cada dia mais nas cabeças e nos corações das pessoas.

Mas o mineiro não entra nessa onda não, ele rema firme contra a correnteza do exagero e da grandiloquência. O vírus do “hollywoodismo” não pega nele. Ele toca a vida pra frente sem precisar ser celebrado: sem flashe, nem pose, nem foto. O mineiro resiste e insiste na sua mineiridade. Eu por aqui, só torço para que ele tenha forças pra continuar resistindo. E viva o mineiro e a mineiridade!

Helder Clério é escritor e músico.

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