Festa de Congado há 106 anos encanta fiéis e devotos em Lagoa da Prata

Festa de Congado há 106 anos encanta fiéis e devotos em Lagoa da Prata

As guardas de congado do grupo dois já estão em festividades na Praça dos Congadeiros. O Grupo um inicia a festa no início do próximo fim de semana e seguem até segunda, 10, na Igrejinha do Rosário no bairro Américo Silva.

Devotos de Nossa Senhora do Rosário em festa (foto: Thiago Martins)

Reportagem: Alan Russel

Já é possível  ver e ouvir os devotos de Nossa Senhora do Rosário em festa pelas ruas de Lagoa da Prata. Começou no dia 5 de agosto os festejos de congado que já fazem parte da tradição religiosa do município. No último fim de semana as guardas do Grupo Dois desfilam durante o dia pelas ruas da cidade e a noite se encontram para as celebrações na Praça dos Congadeiros do Bairro Marília. No primeiro fim de semana de setembro é a vez do Grupo Um realizar a festa na Igreja do Rosário do Bairro Américo Silva.

Pode se dizer que, a Festa do Congado é a celebração religiosa e cultural mais importante e antiga de Lagoa da Prata. São 106 anos de celebrações que começaram antes mesmo da emancipação do município. A festividade de Nossa Senhora do Rosário começou em 1913, quando Lagoa da Prata ainda era o pequeno vilarejo de São Carlos do Pântano. O casal Antônio e Ana Pereira foram os patriarcas da festa, trazida de Santo Antônio do Monte e que há mais de cem anos é realizada em Lagoa da Prata.

A origem das festividades de congado no Brasil se deu em meados do século XVIII. A história oral conta que o responsável pelas primeiras festividades foi Chico Rei, um monarca africano, nascido no reino do Congo e trazido ao Brasil por comerciantes portugueses traficantes de escravos em 1740. Chico Rei é um personagem lendário da tradição oral de Minas Gerais. Segundo a tradição, após trabalhar muitos anos nas minas de ouro da então Vila Rica (hoje Ouro Preto-MG), Chico Rei conseguiu comprar sua alforria. Como forma de agradecimento, Chico Rei ergueu a igreja de Nossa Senhora de Rosário, onde foi coroado rei em cerimônia como as que aconteciam no Reino de Congo. Todos os anos, no dia de Nossa Senhora, Chico Rei repetia a solenidade, onde músicos e dançarinos realizavam um cortejo vestidos de ricas indumentárias ao som de caxambus, marimbas, ganzás e saiam a desfilar palas ruas de Vila Rica. Com o passar do tempo essa celebração foi crescendo e se expandiu para diversas cidades no interior de Minas, realizada por negros devotos de Nossa Senhora do Rosário em forma de fé, devoção e agradecimentos por graças alcançadas.

César Aparecido da Silva é o Rei de São Benedito na Festividade de Congado em Lagoa da Prata. César, que também é Secretário da Associação dos Congadeiros, recebeu a coroa como herança de seu bisavô, Zé Albino, que também era Rei de Congo. Desde então, é entusiasta e trabalha para que a festa e as tradições sejam preservadas. César salienta que o festejo em Lagoa da Prata tomou proporção e popularidade muito grande nos últimos anos e que se deve tomar devido cuidado ao dizer sobre a história e costumes dos congadeiros e da festa. “Muito se ouve de diversas pessoas a respeito da história e da festividade de Nossa Senhora do Rosário. Como é uma festa muito antiga, muita coisa se perdeu durante os anos e outras histórias foram criadas. Eu tenho todo um cuidado para que a história e costumes sejam preservados”, salienta César. Indagado se existe alguma relação entre as festividades de congado com religiões de matriz africana, o Rei de São Benedito é enfático. “As festas de congado são uma representação de cortejos de reinados africanos. Mas posso dizer com propriedade que aqui em Lagoa da Prata não há relação alguma com religiões de matriz africana. Nosso festejo é totalmente cristão e baseado na doutrina católica. Em algumas cidades já é um pouco diferente e pode ser que haja algumas misturas. Em uma ou outra cidade, alguns cortes de Moçambique apresentam certas semelhanças com religiões de matriz africana. Mas em Lagoa da Prata posso garantir que nunca houve essa mistura”, alerta César.

Padre Cristiano Caetano tem 37 anos e é pároco da Paróquia de São Carlos Borromeu em Lagoa da Prata. Padre Cristiano salienta que as festividades de congado são muito fortes na diocese, mais precisamente na região central e norte. “Vim conhecer e aprofundar um pouco mais a respeito das festividades quando vim para a região central da nossa diocese. A festa aqui é muito forte e tem grandes proporções. Lagoa da Prata, Japaraíba, Santo Antônio do Monte, Moema, Bom Despacho e Dores do Indaiá são exemplos de cidades que mantem viva a tradição do congado e festejos de Nossa Senhora do Rosário”, expliciou o pároco. Padre Cristiano também enfatiza que festejos como esses são muito importantes para conservar a tradição, fé e devoção a Nossa Senhora. “A festa do congado tem uma importância muito grande na vida do nosso povo porque retrata a origem da nossa fé. Principalmente no que se refere à origem da fé do povo negro”, reiterou Padre Cristiano.

O pároco também deixa claro que busca fazer um trabalho de conscientização junto aos congadeiros no sentido de preservar os costumes e raízes das festividades de Nossa Senhora do Rosário na diocese. “Recentemente reuni com a corte, congo e capitães de Moçambique numa tentativa de tentar salvaguardar a história e tradição. Às vezes o congo ou as guardas caem na tentação de querer inovar e a tradição acaba esquecida. Existem muitas músicas e cantigas que os negros cantavam em senzalas e isso não pode ser esquecido. Fiz um apelo a eles que retomassem e mantivessem essa tradição para que não se perca o costume e a raiz histórica dos festejos de congado em Lagoa da Prata”, completa Padre Cristiano.

O Senhor Valdote tem 83 anos e dança congado desde os seis anos de idade. Valdote é uma das figuras mais importantes nas festividades de lagoa da Prata. Ele recebeu o título de Capitão-Mor, uma vez que é o mais antigo capitão de guarda de reinado em lagoa da Prata. A guarda do Capitão Valdote tem atualmente em torno de 60 congadeiros que dançam embalados por cantigas tocadas por sanfona, violão cavaquinho, caixa e pandeiro. Valdote deixa claro que sua guarda mantém as mesmas cantigas e danças do século passado. “Não mudei nada na minha guarda. As músicas e as danças são as mesmas que aprendi quando criança. Enquanto eu estiver vivo minha guarda vai manter as mesmas tradições, costumes, cantigas e danças”, completa o Capitão-Mor

Levantamento do Mastro na Igreja Nossa Senhora do Rosário

O início das festividades do congado aconteceu na noite de 4 de agosto, domingo, onde as guardas desfilaram em cortejo saindo da casa do Rei de São Benedito até a Igreja do Rosário, no Bairro Américo Silva. Na ocasião quinze guardas desfilaram e aproximadamente 600 pessoas participaram ativamente da festa.

O levantamento do mastro acontece sempre no primeiro domingo do mês de agosto e simboliza o início das festividades de celebração a Nossa Senhora do Rosário. Durante aproximadamente um mês os congadeiros se preparam para a festa e os Mastros levantados à frente da Igreja do Rosário simboliza essa preparação. Quem abriu e veio à frente do cortejo no levantamento do Mastro foi a guarda da APAE. Com traje colorido e tocando instrumentos em louvor a Nossa Senhora, alunos e professores  da Associação de Pais e Alunos Excepcionais abriram o desfile e emocionaram quem acompanhou o cortejo na Rua Santo Antônio do Monte, que da acesso à Igreja do Rosário.

Devotos de Nossa Senhora do Rosário em festa.

Guarda de Moçambique

A guarda do Moçambique é a mais emblemática nas festividades de Nossa Senhora do Rosário. Vestidos todos de branco, com chocalhos nas pernas, a guarda de Moçambique é composta quase que em sua totalidade por negros e é a ultima guarda a se apresentar no cortejo. De acordo com César Aparecido, Rei de Congo, o Moçambique é essencial para a festa de reinado e sem o Moçambique não existe festa. “O Moçambique é dono de coroa. Sem o Moçambique não se levanta bandeira e não se faz coroamento. Inclusive, se não tiver o Moçambique na cidade do festejo, é necessário convidar uma guarda de Moçambique de outra cidade para que a festa aconteça. A guarda do Moçambique é responsável por conduzir rei, rainha, levar as coroas, buscar trono coroado e conduzir até a igreja. O Moçambique é responsável também por fazer a abertura, mandamentos e encerrar a festa. Enfim, sem o Moçambique não existe festa de Nossa Senhora do Rosário”, finaliza Cesár, enfatizando a importância religiosa e cultural da guarda de Moçambique.

Para as festividades do primeiro fim de semana de setembro, além das quinze guardas lagopratenses, a festa vai contar com a presença de mais nove guardas de cidades vizinhas que foram convidadas para abrilhantar ainda mais o festejo. Na sexta-feira (06), acontece a abertura da festa com grande procissão saindo da casa do Rei Congo na Rua Joaquim Gomes Pereira para a Igreja do Rosário. No sábado (07), o festejo recebe a visita de duas Guardas de Moçambique, uma vinda da cidade de Campos Altos e outra de Belo Horizonte. A festa se estende até segunda-feira (09), onde os congadeiros farão uma homenagem a Nossa Senhora do Rosário com procissão, descimento das bandeiras, benção final e encerramento das festividades com despedida das guardas.

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