Falta de coordenação nacional para vacinação gera transtornos na região

Falta de coordenação nacional para vacinação gera transtornos na região

Cidadãos tem se queixado da demora na vacinação. Prefeituras alegam que tem recebido doses insuficientes para vacinar as faixas etárias determinadas pela Secretaria Estadual de Saúde.

Grupos foram incluídos na campanha de imunicação contra a covid-19. Foto: Poder 360/Divulgação
Roberta de Oliveira

Com o número de mortes batendo recordes em abril, aumentou também a ansiedade pela vacinação na região, principalmente entre aqueles que já receberam a primeira dose e aguardam a aplicação da segunda. Segundo os especialistas, esse quadro é extremamente alarmante, pois a segunda dose é fundamental para consolidar a proteção contra o coronavírus.

Em Minas Gerais, dos mais de 2,7 milhões de pessoas que receberam a primeira dose da vacina, pouco mais de um milhão receberam a segunda dose. Em entrevista recente, o governador Romeu Zema disse que as cidades que mais vacinarem seus cidadãos, receberiam mais doses da vacina, criando uma espécie de gincana entre os municípios. A “corrida pela vacina” foi logo rebatida pelo presidente da Associação Mineira dos Municípios (AMM), Julvan Lacerda. “O grande problema é que são muitos sistemas para alimentar, tem o municipal, estadual e o federal, às vezes, as prefeituras não atualizam com frequência. Mas a questão é que as vacinas são poucas, tem cidade recebendo sete doses. As prefeituras estão loucas para vacinarem”, destacou. 

No início de abril, o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga afirmou que cerca de 1,5 milhão de brasileiros aguardavam a aplicação da segunda dose da vacina. Nossa reportagem fez uma análise comparativa dos dados dos sites do Ministério da Saúde, da Secretaria de Estado de Saúde e nos boletins divulgados pelas prefeituras da região, e realmente encontrou diversas divergências, principalmente no site do Ministério da Saúde. As prefeituras têm mantido os números mais próximos dos divulgados pela Secretaria Estadual de Saúde (SES), quando divulgam.

Na região, apenas a Prefeitura de Lagoa da Prata mantém a divulgação atualizada em tempo real. Segundo a Prefeitura, até nesta sexta-feira (23) haviam 1186 doses de vacinas armazenadas, sendo 896 exclusivamente para aplicação da segunda dose.

Lagoa da Prata também divulgou a quantidade de doses consideradas como perda: duas doses por falha no manuseio e 148 por “doses de vacinas recebidas a menos dentro dos frascos em relação à quantidade informada pelo fabricante”. Também há dados sobre “Ganho Técnico”, que é quando vieram vacinas a mais do que descrito no lote.

A Prefeitura já está aplicando a primeira dose da vacina para idosos com idade acima de 64 anos, em todos os PSF’s e na Policlínica 2. A Secretaria de Saúde já está praticamente finalizando a aplicação da primeira e segunda doses para idosos com idade acima de 74 anos. O prazo da aplicação das doses varia de acordo com a vacina utilizada, entre 14 e 21 dias para Coronavac e 90 dias para a Astrazeneca. Para receber a segunda dose, no entanto, o idoso deverá se dirigir à Policlínica 2.

Esta centralização foi bastante questionada pela população, já que muitos cidadãos não têm como se dirigir até o local. No início da vacinação, a vacinação ocorria apenas pelo sistema de drive-thru, o que fez com que muita gente a pé tivesse que ficar na fila, entre os carros, como foi o caso da dona Irani Queiroz Pires. “Fui sem saber que tinha que vacinar de dentro do carro e fui a pé. Eu e minha neta tivemos que aguardar na fila atrás dos carros, debaixo de sol forte. Na segunda vez, foi tranquilo porque eu já estava sabendo como seria”.

Depois de alguns questionamentos, a Prefeitura passou a vacinar os cidadãos nos PSF’s, chegando, inclusive, a fazer um mutirão no sábado, dia 3 de abril, onde, segundo a Secretaria de Saúde, foram vacinados mais de 1400 idosos. A segunda dose desses cidadãos, no entanto, tem sido aplicada, desde a semana passada, na Policlínica 2. A Prefeitura alega que, desta forma, minimiza o risco de perda de vacinas, já que os lotes abertos tem que ser utilizados dentro de um prazo curto de tempo.

A Prefeitura de Santo Antônio do Monte iniciou a vacinação nas residências dos idosos com idade acima de 75 anos e depois passou a vacinar nos PSF’s. Houve falha na comunicação da vacinação para idosos entre 70 e 75 anos que, a princípio, seriam direcionados a um único local, no sistema drive thru, sendo depois redirecionados, em questão de horas, aos PSF’s mais próximos. Os idosos foram avisados em cima da hora sobre a vacinação.
O senhor Otaviano Pereira de Oliveira disse ter sido avisado pela agente de saúde da família 30 minutos antes de se dirigir ao local de vacinação. “Foi tudo bem rápido, não teve fila: cheguei, apresentei meu cartão e entrei para tomar a vacina, coisa de dez minutos e eu já estava liberado. Me deram um prazo de até 30 dias para receber a segunda dose, mas alertaram que eu poderia ser chamado antes, o que aconteceu. Graças à Deus, agora estou imunizado”.

Para a segunda dose, o senhor Otaviano e todos os moradores que haviam recebido a primeira até 31 de março, foram direcionados ao Centro de Vacinação, aberto no dia 15 de abril na cidade. Houve fila e o senhor Otaviano disse que ficou aproximadamente 30 minutos aguardando para ser atendido. “Tinha gente de todo lado da cidade, muitos vieram de carro, desciam e entravam na fila. Quem não tem carro, faz como? Sai lá do alto da cidade e vem a pé?”. A Secretaria de Saúde optou por dois horários de vacinação: de manhã, os cidadãos a pé e, à tarde, os cidadãos dentro dos carros. Como boa parte dos moradores idosos moram em bairros distantes, muitos foram de carro, de carona ou táxi até o local de vacinação. A ansiedade também fez com que muitos idosos, com medo de perder a vacina, chegassem mais cedo, mesmo tendo carro.

Na última semana, a prioridade da Prefeitura de Samonte foi a vacinação na Zona Rural, que foi feita pelos agentes de saúde. A esposa do senhor Otaviano, a dona Teresinha Oliveira, recebeu a segunda dose nesta quinta-feira (22) e precisou enfrentar fila. Ela chegou às 6h para se vacinar e já havia, segundo ela, cerca de 15 pessoas na fila. Ao sair, a fila já alcançava a esquina. Um vídeo circulou nas redes sociais, questionando a falta de organização e a aglomeração dos moradores. 

A Secretária de Saúde, Carla Lorena e a enfermeira Franciele gravaram vídeo, no mesmo dia à tarde, informando que marcações foram feitas para determinar a distância segura entre as pessoas nas filas e orientando a população que não havia necessidade de se aglomerar, uma vez que as doses disponibilizadas atenderiam a todos aqueles que estivessem aptos a receber a segunda dose da vacina. Franciele mostrou que o Centro de Vacinação estava vazio no período da tarde, já que boa parte das pessoas, temerosas com a possibilidade de acabar o estoque de vacinas, foi no período da manhã.

Samonte está atrasada na vacinação: nesta sexta-feira foi iniciada a vacinação de idosos de 66 e 67 anos, além dos de 68 anos que ainda não receberam a primeira dose. Segundo dados do Vacinômetro da SES, das 6907 doses de vacinas enviadas ao município, apenas 4855 foram aplicadas, ficando um saldo de mais de 2000 vacinas aguardando aplicação. A Prefeitura de Samonte só publica o vacinômetro uma vez por semana e há divergências entre os dados informados pela SES e pela Prefeitura.

Em Formiga, houve filas que atravessaram a madrugada na semana passada, para o recebimento da primeira dose. A Prefeitura alega que tem recebido quantidades insuficientes e também relatou que receberam frascos de vacinas com quantidades menores de imunizantes que estão descritas na embalagem.

Em Arcos, houve reclamação em relação à demora em vacinar. A senhora Marta Castilho, 75 anos, disse que “as moças que atendem a gente são boazinhas, educadas, mas a gente tem que esperar demais. Tem de ficar indo porque nunca sabemos quando terá ou não, eu fui três vezes”.

A Prefeitura de Arcos não divulga a quantidade de vacinas recebidas pelo Estado, apenas as doses de vacinas aplicadas, junto do boletim diário do coronavírus na cidade.

O mesmo acontece em Formiga:

A falta de transparência em relação aos dados somada à demora na divulgação das datas para início da vacinação por faixa etária na região leva os cidadãos ao total descrédito em relação às gestões. A maioria alega que fica sabendo sobre a vacinação um dia antes, quando não minutos antes do início da aplicação das doses.

Netwise

Porém, a falta de coordenação não é culpa apenas das prefeituras, que alegam que a informação vem da Secretaria de Estado da Saúde. Com lotes de vacinação chegando em cima da hora, já com prazo e público alvo específicos para aplicação, as prefeituras tem se desdobrado para manter a comunicação com a população o mais próxima possível da realidade. Não há uma determinação estadual ou federal de como a vacinação deverá ser feita, se em um único local, se dividida por unidades de saúde, e cada prefeitura toma as decisões de acordo com a demanda ou das doses recebidas, que tem sido cada vez menores.

A recomendação do Ministério da Saúde, responsável pelo plano de imunização, é que a segunda dose da CoronaVac seja aplicada entre 14 a 28 dias após a primeira. Com o atraso na entrega das doses, os cidadãos correm o risco de ter a imunização prejudicada. Diariamente recebemos notícias de que novos lotes de vacinas estão sendo adquiridos pelo Governo Federal, porém, estas doses não tem chegado ao destino final dentro dos prazos.

Mortes por covid-19 entre idosos em Minas caem 64% após vacinação

É fato que quanto mais idosos imunizados, menor o risco de morte. Desde o início da campanha, em janeiro, as mortes entre os idosos com mais de 90 anos reduziram 64%, enquanto as internações recuaram 66%. Os dados são da Secretaria de Estado de Saúde (SES). Quando o Estado iniciou a imunização dessa faixa etária, do total de óbitos por complicações da enfermidade, 8,56% eram de pessoas acima dos 90. Na mesma época, 5,1% dos leitos hospitalares eram ocupados por esse grupo.

Com a aplicação da segunda dose, os números despencaram, reduzindo óbitos e casos graves dessa população. De acordo com a SES, pouco mais de dois meses depois – com dados até 4 de abril –, 3,05% do total de vidas perdidas eram de mineiros com mais de 90 anos. Ao mesmo tempo, as hospitalizações do grupo reduziram para 1,7%.

Estudos localizados também indicam redução significativa de casos de covid-19 e também de mortes entre profissionais de saúde, após o início da vacinação, em janeiro. Dados do Conselho Federal de Medicina (CFM) indicam queda de 83% nas mortes de médicos em março, na comparação com janeiro. Dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), porém, ainda não refletem queda no número de óbitos da categoria. Nos três primeiros meses do ano, foram 275 mortes — uma média de 91,6 casos por mês. Em 2020, segundo Eduardo Fernando de Souza, coordenador do Comitê Gestor de Crise do Cofen, foram 468 óbitos.
Em nossa região, ainda há muitos profissionais da saúde que aguardam a vacinação.

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