Emprego e pandemia: como está o cenário na região?

Emprego e pandemia: como está o cenário na região?

A taxa de desemprego de jovens adultos chegou a 31% e de adolescentes ficou em 53%.

Foto: Revista Economia Brasil
Rhaiane Carvalho

Sem condições de estudo o suficiente para investir na carreira, as pessoas veem a estabilidade empregatícia cada vez mais longe. Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas Social (FGV) aponta que os jovens foram os que mais perderam renda durante a pandemia. A taxa de desemprego de jovens adultos chegou a 31% e de adolescentes ficou em 53%.

Ainda de acordo com a pesquisa da FGV, os jovens tiveram a maior perda de renda no primeiro trimestre de 2020. O ganho médio de adolescentes com idades entre 15 e 19 anos caiu 34%, enquanto para a faixa de 20 e 24 anos caiu 24%. Já entre 25 e 29 anos, o ganho médio baixou em 22%.

O Jornal Cidade fez uma enquete na rede social Instagram, para saber se realmente essa faixa etária está sendo afetada. 91% dos entrevistados responderam que ou eles ou algum jovem da família estão enfrentando dificuldades para se inserir no mercado de trabalho.

Isabela Silva conta que, como mora de aluguel em Santo Antônio do Monte com sua mãe, estão guardando o máximo de dinheiro possível. Durante a pandemia, algumas clientes da mãe fizeram uma vaquinha interna para ajudá-las.

“O mercado de trabalho está bem difícil, existe sim lugares que estão contratando mas, eu acho que pelo grande número de candidatos, está bem mais difícil de conseguir alguma coisa. Eu consigo entender que não é minha culpa, que é uma coisa bem maior que eu”, disse.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego entre os jovens de 18 a 24 anos ficou em 29,8% ao fim de 2020. Houve alta de seis pontos percentuais em relação à 2019. É a maior taxa anual da série histórica, iniciada em 2012.

O segmento, como todos os outros, foi afetado pela pandemia da covid-19. Os primeiros casos da doença no Brasil foram registrados em fevereiro de 2020. Em março, o número de infecções e mortes escalou e os estados adotaram medidas de isolamento social.

Na população em geral, a taxa de desemprego é de 13,9%. Em 2020, o país fechou o ano com recorde de 13,4 milhões de pessoas na fila por um emprego. Se considerados os subocupados, ou seja, os que trabalharam menos horas do que poderiam e os que estavam disponíveis para trabalhar, mas não procuravam uma vaga por algum motivo qualquer, a conta sobe para 31,2 milhões, também o maior patamar já registrado.

Netwise

Francisca Corrêa, de 38 anos, foi uma das trabalhadoras que perdeu sua fonte de renda quando a pandemia chegou. Analista de ouvidoria em uma seguradora em Arcos há mais de dez anos, entrou para as estatísticas do desemprego do país em março do ano passado.

“Nunca imaginei que com anos de experiência entraria tão rápido para a fila do desemprego. Tive que fazer muitas mudanças na minha vida e, uma delas, foi começar a vender marmita para me sustentar”.

O Jornal Cidade fez um levantamento no Sistema Nacional de Empregos (Sine) para saber sobre a oferta de vagas, encaminhamentos e quantos profissionais dos municípios de Lagoa da Prata, Santo Antônio do Monte, Arcos e Formiga estão no seguro-desemprego. Confira:

 

Cidade Inscritos Encaminhados Monitorados Segurados Vagas oferecidas Vagas ocupadas
Lagoa da Prata     178            126        162      195     19
Santo Antônio do Monte     18              0         69         0       0
Arcos      67              3        326        82        0
Formiga 54 4 154 19 0

*Dados divulgados sobre os meses de janeiro e fevereiros de 2021

A reportagem do Jornal Cidade também fez uma pesquisa nos sites do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e no Ministério do Trabalho (TEM), onde a pesquisa aponta mais admissões do que demissões, confira:

 Lagoa da Prata

Em Lagoa da Prata ocorreram 1.177 admissões e 745 desligamentos. A cidade lidera com contratações na área industrial e desligamentos no comércio.

Fonte: Caged

Arcos

A cidade de Arcos registrou 1.072 admissões e 739 desligamentos, sendo a área industrial a que mais contratou e a área de serviços (serviços de limpeza, transporte, armazenagem, correio, alojamento e alimentação, serviços domésticos, administração pública, comunicação, atividades financeiras, educação etc) a que mais demitiu.

Fonte: Caged

 

Santo Antônio do Monte

Santo Antônio do Monte teve 345 contratações e 255 desligamentos. A área que mais contratou foi o comércio e a que mais demitiu foi a indústria.

Fonte: Caged

 

Formiga

O município de Formiga registrou 1.499 contratações e 996 demissões. A área que mais contratou foi a de serviços e a que mais demitiu foi também a mesma.

Fonte: Caged

 

Ao observamos os gráficos da pesquisa feita no site do Caged e no Ministério do Trabalho, pode-se notar que os números, embora produzidos por órgãos competentes, não condizem com a realidade da maioria dos entrevistados.

Oscilações no mercado laboral geral em Minas Gerais

Tentamos contato com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese-MG), que informou que as unidades de atendimento do SINE em Minas Gerais registraram 425.159 atendimentos entre janeiro e abril de 2020 (até 27/04), nos diferentes serviços ofertados pela rede, como habilitação do Seguro-Desemprego e intermediação de mão de obra, que contempla encaminhamento para vagas de emprego, captação de vagas e colocação de trabalhadores no mercado de trabalho.

A Sedese ainda informou que, de acordo com o Caged, fevereiro de 2021 apresentou uma perspectiva otimista para o mercado de trabalho formal em Minas Gerais, o que é evidenciado pelo saldo positivo registrado no primeiro bimestre do ano. Esse resultado surge em consonância em relação ao mês imediatamente anterior, que também antecipava uma tendência de recuperação gradual do mercado celetista, em que pese as adversidades impostas pela pandemia da covid-19. Assim, a aparição desse indicador positivo é recebida com otimismo por especialistas em mercado de trabalho, que enxergam a possibilidade de reaquecimento econômico e retomada da tendência de contratações desenhada no semestre de junho a novembro de 2021.

No entanto, cabe salientar que as oscilações do mercado laboral são determinadas pela situação econômica que, por sua vez, pode sofrer abalos caso o avanço da covid-19 imponha a necessidade de medidas mais restritivas de isolamento social. Esses impactos sobre o mundo do trabalho levam alguns meses para serem observados, já que são o resultado de uma cadeia de acontecimentos que tem como ponto de partida o aumento dos níveis de contágio, aumento do número de mortes pela covid-19 e colapso do sistema de saúde.

Nesse sentido, é curioso ressaltar que, em fevereiro de 2021, o Programa Minas Consciente, adotado no estado para monitorar os indicadores da pandemia, indicou que oito das catorze macrorregiões de Minas Gerais regrediram para a onda vermelha, a segunda mais restritiva do plano.  Além disso, na última semana de fevereiro, o Comitê Extraordinário Covid-19 divulgou que o número de casos da doença aumentou 4,5%, enquanto o número de óbitos cresceu 5,1% no mesmo período, indicadores que acendem o sinal de alerta para a observância dessas consequências para o mercado de trabalho ainda no primeiro semestre de 2021. Dando sequência a essa investigação retrospectiva da pandemia, que permite compreender o contexto durante o mês analisado pelo Caged, é válido evidenciar que, na última semana de fevereiro, o Governo do Estado de Minas Gerais anunciava a distribuição de 357,4 mil doses da vacina contra a covid-19 e a ampliação da campanha de imunização a fim de proteger idosos com idade acima de 80 anos.

No acumulado do primeiro bimestre de 2021 pode-se perceber, portanto, que 268.639 trabalhadores mineiros perderam seus empregos, número este que é significativamente menor do que aquele observado no mesmo período de 2020, quando foram registradas 281.814 demissões.

Em uma análise comparativa com as demais unidades da federação, o Estado de Minas Gerais ocupa a segunda posição no ranking de estados com os melhores saldos em fevereiro de 2021, ficando atrás apenas do Estado de São Paulo (+128.505).

Partindo para uma análise econômica da movimentação de trabalhadores em Minas Gerais, é possível identificar que o setor de Serviços registrou o melhor saldo em fevereiro – geração de 15.831 postos de trabalho. Na sequência, a Indústria aparece com a segunda maior performance (+15.492). O Comércio ocupa a terceira posição no ranking de melhores saldos (+10.141), seguido pela Construção (+8.040), que se manteve aquecida durante a pandemia, o que é perceptível pelo aumento da demanda por reformas e escassez de materiais. Por fim, a Agropecuária (+2.435) surge na última posição, com uma movimentação menos dinâmica dado o alto índice de informalidade desse grupo econômico.

Analisando os aspectos sociais do mercado de trabalho em Minas Gerais, é possível perceber que os homens mantiveram sua posição majoritária na força produtiva, haja vista o fato de que o saldo desse grupo é consideravelmente maior que o saldo das mulheres. As vagas ocupadas pelo público masculino fecharam fevereiro com saldo +32.496, ao passo que o público feminino registrou saldo +19.443. Apesar disso, janeiro mostrou-se um mês oportuno para a contratação de jovens com idade entre 18 e 24 anos, já que este foi o público com melhor saldo (+19.870) dentre os grupamentos etários analisados em Minas Gerais. Simultaneamente a essa maior inclusão produtiva da juventude, os idosos foram os únicos a perderem participação no mercado de trabalho (saldo de -446), o que evidencia a preferência dos empregadores por profissionais mais qualificados, com maior aptidão para atuar com as tecnologias digitais e que não façam parte dos grupos de risco para a covid-19. Por fim, no que diz respeito aos vínculos de aprendizagem, pode-se dizer que fevereiro foi um mês propício para a inclusão laboral da juventude, haja vista o saldo de +5.295 vagas.

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