Educação na pandemia: Estudantes e profissionais de Lagoa da Prata falam sobre o ensino remoto e a nova forma de estudar

Educação na pandemia: Estudantes e profissionais de Lagoa da Prata falam sobre o ensino remoto e a nova forma de estudar

O processo de aulas virtuais envolveu a adaptação de pais, alunos e dos familiares dos alunos durante a pandemia da Covid-19.

Reportagem: Alan Russel e Karine Pires

A pandemia da Covid-19 completou 4 meses de duração no Brasil. Tempo em que hábitos, rotinas e comportamentos foram modificados em função do isolamento social, não só no país como no mundo inteiro. Este cenário impactou a forma de trabalhar e viver da população em diversos segmentos e na educação não foi diferente. Com a nova realidade, alunos e professores tiveram que se adaptar ao ensino remoto e para os estudantes o impacto foi ainda mais direto, pois as aulas agora só acontecem no ambiente on-line.

Imagem do site da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais. Foto: Reprodução/Internet)

Na rede estadual, a Secretaria de Educação de Minas Gerais, introduziu o ensino remoto no mês de maio, dois meses após a paralisação das atividades presenciais. Com o novo cenário, foi adotado uma uma metodologia baseada em três ferramentas, são elas: Apostilas com o conteúdo das disciplinas intituladas como Planos de Estudos Tutorados (PETs), o programa “Se Liga Educação” que é transmitido pela emissora Rede Minas e também o aplicativo “Conexão Escola”, que auxilia os alunos a acessar todos os conteúdos ministrados durante a semana.

 A comunicação entre aluno e professor é feita pelo aplicativo “conexão escola” durante os horários das aulas. Na rede municipal, o sistema não é diferente, assim como na rede estadual, alunos e professores se comunicam pelo aplicativo whatsapp. A Coordenadora Pedagógica do Ensino Fundamental Rede Municipal de Ensino, Aline dos Santos, aponta que as atividades são planejadas pelas próprias escolas e que os alunos recebem um roteiro dessas atividades via WhatsApp. O aplicativo facilita a comunicação dos alunos e professores no envio e resolução dos exercícios.Em relação aos alunos que não tem acesso à estas ferramentas, as atividades são entregues aos pais pelas próprias escolas. 

Pensando nesta situação, a redação do Jornal Cidade conversou com estudantes e profissionais da área de educação de Lagoa da Prata para compreender como está a situação dos alunos durante a pandemia.

Para os irmãos Bruno Gandra Pires e Romel Gandra Pires, estudantes do 3º ano do ensino médio na Escola Estadual Nossa Senhora de Guadalupe. O ensino remoto não tem sido fácil para eles, pois além de enfrentarem as dificuldades já encontradas no ensino presencial, agora, se sentem desestimulados até para perguntar o professor sobre os assuntos trabalhados nas aulas on-line. Bruno, afirma que entre os colegas há um grupo feito pelos próprios alunos no aplicativo whatsapp, onde os alunos trocam respostas dos exercícios.

A procura por respostas de outros colegas acontece por não conseguirem acompanhar as aulas da Rede Minas e não sentirem apoio nos professores, segundo Bruno. No entanto, o aluno reconhece que falta iniciativa de expor a situação pois assim está mais fácil de “estudar”.

Situação de um aluno da Educação considerada Especial

Romel é uma pessoa com deficiência (PCD) e, devido à sua condição, ele enfrenta dificuldades no aprendizado escolar. De acordo com ele, o ensino presencial faz falta por ter a presença da professora apoio para ajudá-lo com as atividades, agora, ele só recebe as respostas dos exercícios ao invés do auxílio da professora.

 “Para mim, é muito melhor o ensino presencial porque eu tenho a professora apoio, sem ela não entendo nada!”

Segundo o irmão de Romel e a mãe do estudante, Joelma Gandra, ele não consegue fazer as atividades e depende da ajuda de ambos para fazer os exercícios e quando precisa tirar dúvidas dos exercícios com a professora apoio, ela já envia as respostas ao invés de auxiliá-lo. Para a mãe, a situação de Romel é ainda pior, pois ela não consegue ajudá-lo por ter estudado até a 5ª série e o irmão ajuda como pode.

 “O Romel fica muito nervoso, em casa ele não tem a professora apoio, eu não consigo ensinar e ajudar, o irmão ajuda no que pode, mas fica com medo de passar errado.”

Desgaste também para os pais dos alunos

A nova realidade não está desgastante só para os estudantes, mas para os pais também, a mãe de Bruno e Romel, Joelma Gandra, afirma que é uma situação complicada para todos e que ela ajuda como pode.

“Está muito difícil pelo tempo, os professores das aulas on-line falam muito rápido, os meninos não conseguem acompanhar, não conseguem aprender e eles ficam muito nervosos. Então, um aluno passa a resposta e outro passa outra e assim eles vão fazendo como podem.” 

A mãe afirma que muitas mães reclamam que os filhos não estão aprendendo nada assim e, que assim como ela, acha que isso é em vão. Mas que ela sempre encaminha as reclamações dos filhos à escola, mas que as outras mães poderiam se prontificar de também questionar à escola sobre o assunto e que uma solução seria que pais e professores se reunissem para debater o assunto.

 A redação do JC também conversou com Janaína Luciene Rocha Fraga, Supervisora da escola, que diz entender as reclamações dos alunos, principalmente, de um aluno da educação especial. Ela explica que a dificuldade realmente vai existir, pois o ensino remoto não é o mesmo que o presencial, principalmente, para alunos com deficiência, mas que a escola tem se desdobrado para ajudar os alunos da melhor forma possível.

Adaptação dos professores

Esta adaptação não tem sido desgastante apenas para os alunos e suas famílias, mas também para os professores que estão se desdobrando cada vez mais para ajudar os alunos como podem.

Aline destaca que os professores da rede municipal têm buscado se reinventar neste período e que tiveram que aprender a gravar vídeos, editar vídeos, gravar aulas, montar conteúdos em slides no powerpoint, entre outros recursos. Ela ressalta que vários professores criaram canais no Youtube, plataforma de vídeos. Neste momento em que o virtual se tornou parte do cotidiano das pessoas, esses recursos auxiliam muito na hora de ensinar os alunos.

Janaína afirma que os próprios professores perceberam seu valor neste momento e que, inclusive, este período está servido para os profissionais reafirmarem sua importância que já estava desacreditada por eles. A supervisora também reiterou que o momento é de aprendizado para os professores também.

 Esse momento está servindo para a gente aprender muito, nós vamos voltar desta pandemia muito mais equipados para atender nossos alunos. Esperamos que os pais continuem essa parceria, eles têm sido nossos grandes parceiros nesta educação à distância.Afirma, Janaína.

 Adaptação em instituições privadas e a produtividade dos alunos

Foto: (Arquivo JC)

Assim como a rede pública, instituições privadas de ensino também tiveram que se adequar ao novo cenário. Ricardo Costa, professor e diretor do Centro Educacional Tutores, cursinho pré-vestibular com unidades em Lagoa da Prata e em outras cidades da região Centro-Oeste Mineira, afirmou que a instituição recebeu uma demanda de matrículas durante o período.

Também contou que os professores gravam as videoaulas para os alunos na instituição. Em relação ao ensino on-line, ele também destacou que esse tipo de ensino obriga o aluno a ter uma autonomia sobre os próprios estudos e alertou sobre o excesso de produtividade que os estudantes possam adquirir.

 “O aluno tem que tomar cuidado junto com às instituições para dosarem, senão o ensino fica muito massante, e aí veremos alunos e pais esgotados mentalmente”.

Em relação ao esgotamento, Núbya Miranda, aluna do 3º ano do ensino médio na Escola Estadual Virgínio Perillo e do Centro Educacional Tutores, relatou ter encontrado dificuldades e que vê pontos positivos e negativos na nova forma de estudar.

“Não está sendo fácil, pois em casa a distração e a procrastinação é bem maior. Já passei por momentos bons, como também por momentos ruins em que a angústia e a ansiedade vieram, e quando isso ocorreu me permiti fazer uma pausa, e tirar o dia para ficar bem! Estou com algumas matérias atrasadas porque é cada vez mais difícil ser produtiva em casa. Pensei várias vezes em desistir, a pressão cresce cada vez mais. Mas estou focada no meu objetivo e no meu maior sonho, e isso me mantém tentando estudar mesmo nesse período incerto”.

Assim como a Tutores, a Pontifícia Universidade Católica (PUC) também modificou o ensino, é o que afirma Gustavo Silva, aluno do primeiro período do curso de Direito da instituição. Em relação às mensalidades da instituição, a faculdade ofereceu possibilidades para parcelar o período. Na opinião de Gustavo, o ensino continua com qualidade e não se transformou em Ensino à Distância (EAD) e a instituição precisa manter os próprios gastos.

“Algumas pessoas estão comentando que deveria ser cobrado o valor de EAD, só que não estamos tendo ensino EAD, estamos tendo aula de um curso presencial por videoconferência com os professores.”

Solidariedade nos estudos

Foto (Reprodução/Internet)

Gustavo criou um projeto para venda e compra de livros usados, pela necessidade de não encontrar algum local que tenha esse serviço na cidade. Há livros didáticos das escolas que podem ser encontrados nesse espaço que ele criou.

O universitário se uniu à outros amigos e juntos criaram o projeto “Tenho Dúvida”, um perfil no Instagram que recebe dúvidas de estudantes que estão se preparando para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O projeto também está disponível nas redes sociais e por lá os membros do projeto, além de responder às dúvidas dos alunos também indicam conteúdos para fortalecer o repertório dos estudantes para o exame. Para saber mais informações sobre o projeto ou também tirar alguma dúvida basta procurar pelo perfil “tenho dúvida lp” na plataforma.

Não há previsão do retorno das aulas presenciais até o momento na rede pública e privada, mas os professores da rede pública reforçam que estão à disposição dos alunos e das suas famílias para o que precisarem.

 

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