Dia Internacional da mulher - A luta delas

Dia Internacional da mulher – A luta delas

O Dia Internacional da Mulher não é um mero dia voltado simplesmente a homenagens triviais às mulheres, mas diz respeito a um convite à reflexão referente a como a nossa sociedade as trata. Essa reflexão vale tanto para o campo do convívio afetivo, familiar e social quanto para as questões relacionadas ao mercado de trabalho.

Rhaiane Carvalho
Karine Pires

No dia 8 de março é celebrado o Dia Internacional delas! Elas, Maria da venda, Joana D’arc, Renata, Carla, Frida Kahlo, Ana Pimentel, Chica da Silva, Anita Garibaldi, Princesa Isabel, Mariele Franco, minha mãe, sua vó, sua tia… Elas! Todas as mulheres que fazem história no país, no mundo e dentro de suas casas.

Para falar um pouco sobre esse universo feminino e suas lutas diárias, o Jornal Cidade conversou com diversas mulheres. Mas antes disso, como se chegou até aqui?

No dia 8 de março de 1917, um grupo de operárias saiu às ruas para protestarem contra a fome e contra a Primeira Guerra Mundial. Elas foram fortemente repreendidas e o episódio acabou dando início à Revolução Russa.

Desde então, o movimento internacional socialista adotou a data como o Dia internacional da Mulher e as comemorações e passaram a ser realizadas no mesmo dia em vários países.

A voz delas

Cada mulher tem uma história de vida que revela muito mais do que achamos que podemos ver. Por trás de tantos semblantes femininos mundo a fora reside uma luta, força e beleza a ser mostrada e valorizada. Tantas mulheres que comandam lares e, muitas vezes superam a violências, barreiras e obstáculos, mantendo a alegria e esperança. Tantas mulheres que comandam empresas e que lutam diariamente por seus lugares. Tantas! Todas elas, tantas! São as mais especiais!

Desafio de ser empresária, mãe, dona de casa e esposa

“Me casei aos 21 anos e, devido às dificuldades financeiras no início, nasceu a ideia de dar aula particular em casa, pois daria uma renda bacana e eu poderia trabalhar em casa para cuidar das coisas como mãe e dona de casa.  Quando a Isabela nasceu, eu já tinha em meu coração que não iria trabalhar fora de casa mais. As pessoas foram gostando do meu trabalho, da minha didática e da forma de lidar com os alunos. Os alunos foram se multiplicando, uns falando com outros e aí começamos a padronizar logomarca, uniformes, aumentamos salas de aula. Quando comecei, dava aula em minha cozinha; estava grávida ainda. Da minha residência, o negócio cresceu, então tive que alugar um apartamento inteiro para atender a demanda. Hoje a minha escola tem alunos felizes, e gostam da escola. Hoje, tenho funcionários e meu esposo também veio trabalhar conosco devido à quantidade de serviço. Como mãe e mulher enfrento muitos desafios, não daria nem pra enumerar. É muito difícil conseguir administrar tudo com uma criança pequena, que está aprendendo os limites das coisas. Não fico na escola o dia todo, pois priorizo muito a educação da minha filha. Eu que cuido da minha casa, não tenho ajudante na escola. É extremamente cansativo e difícil, mas fazemos tudo com muito prazer e amor, e os frutos acabam vindo”.

Nayara Cristina da Silva Alves Rodrigues, 27 anos, é empresária, mãe e esposa, nasceu em Pedro Leopoldo, mas há 11 anos reside em Arcos.

Nayara Cristina da Silva Alves Rodrigues (Arquivo pessoal)
Luta em casa, na rua e no trabalho

Para a jornalista Ana Paula Tinoco, ser mulher hoje representa luta. “Apesar de já termos conquistado alguns direitos, nós ainda estamos longe da igualdade que merecemos, pois ainda nos falta igualdade no ambiente de trabalho e até mesmo em nossas casas”, afirma Ana Paula. Já quando se fala no trabalho, Ana Paula ressalta que o ambiente é sempre um desafio. 

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Não ser levada a sério em um ambiente de trabalho majoritariamente masculino, acredito que a maioria das mulheres já passaram por isso; falar ou explicar algo e precisar que um homem diga ou explique a mesma coisa para que sua fala seja levada sério; escutar comentários machistas; situações invasivas em que homens se sentem no direito de tocar em você; forçar intimidade que você não permitiu.

Foto: Arquivo Pessoal/Ana Paula Tinoco

Ana Paula ainda relatou situações constrangedoras que sofreu em um emprego. “No primeiro caso, estávamos falando sobre ferramentas de áudio e vídeo e um colega de trabalho veio me explicar o que era áudio e o que era vídeo. Quando disse que sabia o que era, ele fez cara de surpresa. Em outro momento, falávamos sobre aplicativos de banco e precisou que um colega confirmasse o que eu havia explicado sobre pagamentos feitos pelos aplicativos. Sobre assédio, a mesma pessoa se sentiu no direito de fazer massagem nos meus ombros e tocar meu cabelo enquanto fazia comentários de baixo calão”, aponta a jornalista.

Em relação ao movimento de apoio entre as próprias mulheres, Ana Paula enfatiza que o sofrimento já faz parte da trajetória feminina na sociedade. A empatia e a união seriam maneiras de contribuir neste movimento.

 O mundo é cruel conosco. Já sofremos bastante vivendo nesse mundo guiado pelo patriarcado. Não canso de pensar que se nós mulheres fossemos mais unidas, olhássemos mais para os nossos problemas e nos simpatizássemos mais com a causa da outra, nossos problemas diminuiriam drasticamente. Arrisco a dizer que se nós nos uníssemos, já teríamos dominado o mundo.

Gestão invisível da casa

“Quando casei, mulher boa, era mulher que fazia bem os serviços da casa. Hoje está tudo muito diferente. Mas eu, além de cuidar da casa, também trabalhei fora, cozinhava para os  médicos em um hospital. Ali aprendi de tudo, até técnicas de enfermagem. Mas o mais difícil era chegar em casa, pois meu marido era viciado em jogo, fumava, bebia. Um dia saí pra trabalhar e ele bebeu tanto, deitou com um cigarro na mão e quase que a casa pega fogo, só não pegou porque eu cheguei. Ali estavam meus três filhos. Eu gritei de susto, e ele me falou que aquilo tinha acontecido devido eu sair pra querer ser gente e deixar a casa abandonada. São muitas histórias! Mas já fico feliz por saber que as mulheres não estão aceitando isso mais” – P.M.M., 73 anos, não quis se identificar devido ainda morar com marido e se sentir acuada, embora não apresente mais comportamento agressivo.

Mulheres na política

Nos últimos anos, o Brasil vivenciou uma progressão no debate público em torno das questões femininas. Temas como assédio, aborto, maternidade e carreira, vem sendo discutidos amplamente na sociedade e ganhando espaço no cenário político. A luta pelo direito das mulheres vem progredindo não só no Brasil, mas em todo o mundo. Alguns avanços já foram conquistados nas últimas décadas, como o direito ao voto e o direito de serem eleitas. Porém, no que tange a representatividade das mulheres na política, esse debate ainda se encontra muito distante do desejado.

Muitas mulheres ainda têm dificuldades de ocupar cargos de poder, serem eleitas ou terem voz ativa nas tomadas de decisões políticas. Isso acontece devido à exclusão histórica das mulheres na política e que reverbera, até hoje, no nosso cenário de baixa representatividade feminina.

“Hoje temos 53% de eleitora e apenas 15% delas assumem cargos a frente de poderes. Essa questão de termos tão poucas mulheres assumindo e participante de forma ativa e efetiva na política ainda é muito pouco. Ainda temos que continuar lutando muito para que a gente possa mudar essa realidade que temos no Brasil. Muitas das vezes, as mulheres não querem participar da política por sofrerem a violência de gêneros, e isso, infelizmente, é uma realidade que nós mulheres enfrentamos quando a gente se propõe a candidatar e, principalmente, quando somos eleitas para assumir aquele mandato. Ainda temos que lutar muito em busca da nossa igualdade e protagonismo. Tenho certeza que temos que continuar porque nós mulheres somos muito capazes para estarmos onde queremos estar. Como vereadora em dois mandatos, senti de perto a violência de gêneros, pois ainda é um ambiente muito masculinizado e hostil. A gente sente que causa um desconforto e incomodando. Mas isso não pode nos desanimar, e sim nos motivar a continuarmos, e incentivarmos outras mulheres” – Quelli Cássia Couto, ex-vereadora de Lagoa da Prata por dois mandatos.

Quelli Cássia Couto (Arquivo pessoal)

“A mulher na política é extremamente necessária. Isso vem a passos lentos, mas a representação feminina vem aumentando aos poucos, apesar de ainda estarmos em um ranking muito desfavorável em relação a este assunto. Mas vemos algum progresso e que as mulheres hoje estão mais sensíveis à causa política; a população também recebendo de uma maneira bem mais tranquila. Minha experiência na câmara, embora se tenha poucos dias, está sendo muito favorável, muito benéfica, principalmente, por termos conseguido uma harmonia maior entre os poderes executivo e judiciário para que não trave o processo democrático.  Aqui na câmara temos três representantes femininas e isso é uma conquista muito grande para as minorias. Lembrando que minoria não significa menor quantidade, e sim as partes da sociedade  que se sentem menos contempladas com os direitos, e a mulher ainda faz parte das minorias. Todas as partes acho importante a gente valorizar para que as pessoas se sintam mais interessadas na participação” Carol Castro, assistente social e atual presidente da Câmara de Vereadores de Lagoa da Prata.

Carol Castro (Arquivo pessoal)

 

Homenagem ou reflexão?

O Dia Internacional da Mulher não é um mero dia voltado simplesmente a homenagens triviais às mulheres, mas diz respeito a um convite à reflexão referente a como a nossa sociedade as trata. Essa reflexão vale tanto para o campo do convívio afetivo, familiar e social quanto para as questões relacionadas ao mercado de trabalho.

Inúmeros estudos comprovam que ainda hoje as mulheres sofrem com a desigualdade no mercado de trabalho em relação aos homens. A presença das mulheres no mercado de trabalho ainda é menor do que a dos homens, uma vez que dados de 2018 apontam que, no mundo, apenas 48% das mulheres maiores de 15 anos estão empregadas – para os homens, esse número é de 75%|1|.

Atualmente, menos de 70% dos homens concordam com o fato de que muitas mulheres preferem trabalhar a ficar em casa cuidando de serviços domésticos. As mulheres ainda sofrem prejuízos no mercado de trabalho por engravidarem, uma vez que o número de mulheres que abandonam o seu trabalho por conta de seus filhos chega a 30%, enquanto que somente 7% dos homens abandonam seus empregos pelo mesmo motivo|2|.

Para agravar essa situação, metade das mulheres que engravidam perdem seus empregos quando retornam da licença-maternidade|3| e ainda, em pleno século XXI, existem aqueles que defendem que mulheres devem ganhar menos, simplesmente por poderem engravidar. Isso, inclusive, é uma realidade no Brasil, pois as mulheres recebem, em média, 20% menos que os homens|4|.

Todas essas estatísticas demonstram como o preconceito de gênero prejudica as mulheres no mercado de trabalho. As mulheres, no entanto, não têm a sua vida prejudicada somente no mercado de trabalho, uma vez que a violência de gênero, o abandono que muitas sofrem de seu parceiro durante a gravidez e os assédios são realidades que muitas mulheres sofrem.

O 8 de março é um dia para reflexão a respeito de toda a desigualdade e a violência que as mulheres sofrem no Brasil e no mundo. É um momento para combater o silenciamento que existe e que normaliza a desigualdade e as violências sofridas pelas mulheres, além de ser um momento para repensar atitudes e tentar construir uma sociedade sem desigualdade e preconceito de gênero.

 

 

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