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Artigo de opinião – Quem deseja ser feliz deve ser firme

E o sentido de firmeza aqui é o tradicional: tem a ver com segurança, consistência, estabilidade.

A inspiração para um artigo meu, geralmente, são as histórias dos meus pacientes, bem como o processo de tratamento pela psicoterapia. Contudo, o ponto de partida deste artigo foi um livro, intitulado “Persuasão”, escrito por Jane Austen no século XIX. Em uma caminhada pelos campos no interior da Inglaterra, um dos personagens diz: “O pior dos males de um caráter maleável e indeciso é que não se pode confiar em ter influência sobre ele. Nunca podemos ter a certeza de que uma boa impressão será durável. Todos são capazes de influenciá-lo. Quem deseja ser feliz deve ser firme.”

Para o personagem, a felicidade exige firmeza. E o sentido de firmeza aqui é o tradicional: tem a ver com segurança, consistência, estabilidade. A felicidade, então, pressupõe esses estados de espírito.

É claro que sempre se está em terreno movediço quando se busca caracterizar a vida de forma universal, encontrar uma explicação que sirva para todas as pessoas em todos os momentos históricos pode ser um erro, pois a felicidade pode ser caracterizada por cada um de forma diferente, as pessoas são autônomas para isso. Contudo, parece-me importante lançar uma luz no caminho da felicidade para iluminar aqueles que estão caminhando no escuro. Vou apresentar duas distinções sobre o conceito de felicidade e, em seguida, articulá-las com a noção trazida pelo livro de Austen.

A primeira distinção que faço se refere aos conceitos de felicidade e prazer, e essa iluminação me veio pelo monge francês Matthieu Ricard. Ele afirma que muitas pessoas na atualidade esperam encontrar a felicidade pelo acúmulo de prazer, como se a felicidade fosse momentos de prazer. Assim, muitas pessoas buscam viver o hoje, o aqui e agora, sem pensar muito sobre as consequências futuras, porque a felicidade está no momento presente. Esse pensamento, que faz parte do imediatismo contemporâneo, promove prazeres constantes e infelicidades igualmente constantes. A pessoa vive em uma montanha-russa, cheia de altos e baixos. Sem pensar muito nas consequências futuras, buscando viver apenas o momento presente, a pessoa pode esquecer a própria ética, machucar as pessoas que ama, não construir uma vida sustentável.

A felicidade, afirma o monge, pressupõe a estabilidade. A felicidade é um sentimento constante, uma forma de ver a vida. É o sentimento de satisfação por existir, mesmo nos momentos de sofrimento. Sem essa satisfação, a pessoa pode facilmente se deprimir e sentir vontade de morrer. A felicidade aqui se assemelha ao conceito de paz de espírito. Estar feliz, para o monge, significa estar em paz consigo mesmo e com a vida. Assim, a pessoa feliz está estável emocionalmente. As suas relações, inclusive, apresentam uma estabilidade e segurança que fortalecem a sua felicidade.

A segunda distinção que faço se refere à consistência dos valores de uma pessoa. E essa iluminação me veio pela psicóloga brasileira Maria dos Anjos Lara e Lanna, que me ensinou que o bem-estar emocional aparece quando existe sintonia entre nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos. Assim, a nossa forma de viver precisa estar adequada à nossa forma de pensar e sentir, aos nossos valores. Viver uma inconsistência ética, por exemplo, pensar de uma forma e se comportar de outra, pode trazer um mal-estar emocional. A pessoa vive momentos de prazer e, em seguida, uma infelicidade constante.

A felicidade exige firmeza. A estabilidade emocional é um aprendizado do ser humano quando adulto, pois a infância é naturalmente instável. Crianças choram e se alegram quase ao mesmo tempo. Um adulto instável como uma criança certamente é um adulto imaturo, ou seja, infantil. Conquistar a estabilidade emocional, a consciência dos próprios pensamentos e sentimentos e se comportar de acordo com eles, é necessário. Assim, direcionar a vida para onde você quer que ela vá é fundamental. Ser o passageiro da sua própria vida, ser levado pelas pessoas que estão ao seu redor, ora influenciado por um, ora influenciado por outro, é o caminho para uma instabilidade constante. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche resumiu toda essa explicação em uma única frase: “Torna-te quem tu és”. Em um sentido semelhante, o personagem de Austen disse: “Seja firme”.


 

(Foto: Arquivo pessoal/Divulgação)

 

Rodrigo Tavares Mendonça é psicólogo e especialista em psicoterapia de família e casal. Contato: (37) 9.9924-2528.

 

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