fbpx

Artigo de opinião: Como enfrentar o medo

Muitos são os fenômenos que podem causar o medo, mas uma pandemia, como a da Covid-19, especialmente com a chegada da variante ômicron, é com certeza um forte elemento desencadeante.

O medo é uma emoção que pode paralisar a vida de uma pessoa. Muitos são os fenômenos que podem causar o medo, mas uma pandemia, como a da Covid-19, especialmente com a chegada da variante ômicron, é com certeza um forte elemento desencadeante. E as pessoas estão sofrendo pelo excesso do medo. Uma consequência imediata do medo é o aparecimento da ansiedade, um sintoma excessivamente comum nos dias atuais.

Antes de aprofundar no assunto, celebro aqui a campanha Janeiro Branco, que promove a visibilidade do cuidado com a saúde mental. Com os lemas “O mundo pede saúde mental!”, “Quem cuida da mente, cuida da vida!” e “Todos têm direito à saúde mental!”, a campanha busca eliminar o preconceito que existe sobre o cuidado com essa importante área da saúde.

O medo causa a ansiedade. Entramos em um estado de ansiedade quando sentimos medo. É um mecanismo evolutivo de defesa. Se você está diante de um leão, você precisa sentir medo e seu organismo precisa se preparar para fugir ou enfrentar essa ameaça. É por isso, por exemplo, que os seus batimentos cardíacos são acelerados, para que você consiga reagir rapidamente. Então, a ansiedade não é um problema, uma doença ou um transtorno mental, ela é necessária para a nossa sobrevivência. O problema é que sentimos medo de “leões” que não existem ou imaginamos “leões” no futuro e sofremos no presente. Se sentimos medo, entramos em um estado de ansiedade, e o nosso organismo não diferencia um medo real de um imaginado.

Eu costumo falar para os meus pacientes que o medo tem vida própria, e nós precisamos saber disso para enfrentá-lo. Recentemente, uma paciente me relatou uma experiência que exemplifica bem esse entendimento. Na infância, uma experiência traumática desencadeou nela um medo do escuro. E no início ela tinha medo apenas do escuro. A sua reação, como a de muitas crianças na mesma situação, foi a de dormir com os pais e, um tempo depois, a de dormir no seu quarto com a luz acesa.

Rapidamente, o medo do escuro evoluiu para o medo de ficar sozinha. Então, mesmo de dia o medo aparecia quando seus pais saíam de casa. E agora entra o mais importante: ela começou a pensar que era incapaz de ficar no escuro e sozinha. Na escola, o pensamento de ser incapaz evoluiu quando começou a se comparar com os colegas de sala que eram melhores do que ela em uma matéria ou na habilidade social. A consequência imediata foi o surgimento de um novo pensamento: “Eu sou pior do que os outros”. A autoestima dela começou a ser rebaixada.

Na adolescência, o pensamento autodepreciativo já havia se instalado, então ela acreditava nele como se fosse uma verdade. Dessa forma, o pensamento evoluiu para “Eu sou feia” e “Eu não sou o suficiente”. Atitudes como “Preciso me esforçar mais do que os outros” começaram a aparecer. E a emoção que produz todos esses pensamentos é o medo. Em outras palavras, o medo de ser incapaz, de ser pior do que os outros ou de não ser aceito pelas pessoas pode desencadear infinitos pensamentos autodepreciativos.

É por isso que falo para os meus pacientes que o medo tem vida própria. O medo pode começar pequeno, como o simples medo do escuro, mas se ele não for enfrentado, ele pode crescer e dominar a vida da pessoa. O medo vai crescendo e, assim, a pessoa começa a sentir medo de coisas que ela não sentia antes, que não tem uma relação direta com a experiência traumática, por exemplo. As pessoas podem não perceber, minha paciente, por exemplo, não percebia, que o pensamento de incapacidade era uma consequência direta da evolução do medo do escuro.

A boa notícia é que o medo pode diminuir ou mesmo desaparecer quando o enfrentamos. Enfrentar o medo é o melhor caminho para o superarmos. O medo faz a pessoa pensar que o pior cenário possível vai acontecer. Uma pessoa ansiosa, por exemplo, que contrai a Covid-19, imediatamente imaginará cenários de morte, e isso não a preparará para enfrentar esse cenário, apenas aumentará a sua ansiedade. Se a minha paciente tivesse enfrentado e superado o medo do escuro na infância, por exemplo se forçando a ficar no escuro e suportando o medo até o seu desaparecimento, as evoluções desse medo não existiriam.

Enfrentar o medo é suportá-lo até que ele deixe de ser uma ameaça. Existem muitas formas de enfrentar o medo, como se aproximar lentamente dele ou mergulhar de cabeça. Uma outra paciente minha, que tinha medo de ver machucados, superou-o, em partes, vendo vídeos de pessoas machucadas. É uma estratégia possível: se aproximar à distância, pelo meio virtual.

Enfim, as estratégias são muitas. O importante é dar o primeiro passo. E a coragem evolui como o medo. Se a pessoa consegue superar o simples medo do escuro, ela pode começar a se perceber mais capaz de superar medos ainda maiores e, principalmente, a se perceber mais forte do antes.


Rodrigo Tavares Mendonça é psicólogo e especialista em psicoterapia de família e casal. Contato: (37) 9.9924-2528.

 

 

 

► DEIXE ABAIXO SEU COMENTÁRIO ◄