Alunos e professores opinam após MEC decidir manter Enem

Alunos e professores opinam após MEC decidir manter Enem

As provas serão aplicadas nos dias 17 e 24 deste mês na versão impressa, e na versão digital, nos dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro. MEC havia aberto uma votação para ouvir os estudantes qual o melhor mês para a aplicação do exame; maio ganhou, mesmo assim, o Ministério da Educação optou por fazer a prova em janeiro. A decisão, por sua vez, acarretou várias manifestações na internet. algumas pessoas contra e outras a favor da data.

Matheus Costa

Faltando apenas alguns dias para a primeira prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a pauta do adiamento das provas voltou a estar em evidência nas redes sociais. Com a hastag #AdiaEnem, os cerca de seis milhões de alunos inscritos para o exame falam sobre suas indignações pela falta de compromisso do Ministério de Educação (MEC) para com a saúde dos alunos. As provas serão aplicadas nos dias 17 e 24 deste mês na versão impressa, e na versão digital, nos dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro.

Em junho de 2020, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) abriu uma enquete que ficaria aberta entre os dias 20 e 30, onde os alunos poderiam votar sobre as novas datas para a aplicação do Enem, que podia ser acessada pela página do participante com CPF e senha cadastrados no login único do Governo Federal, novo meio com o qual o cidadão acessa os serviços públicos digitais.

No dia 1º de julho, os resultados foram divulgados. A maioria dos estudantes que participaram da votação escolheu o mês de maio de 2021 como melhor opção para a aplicação do exame. Foram cerca de 553.033 votos, o que representa 49,7% do total de respostas.

Ao todo, 1.113.350 participantes votaram de forma voluntária na página do participante, o que corresponde a 19,3% do total de inscritos no Enem deste ano. Candidatos puderam escolher entre três opções. Foram elas:
• Enem impresso: 6 e 13 de dezembro de 2020 / Enem Digital: 10 e 17 de janeiro de 2021;
• Enem impresso: 10 e 17 de janeiro de 2021 / Enem Digital: 24 e 31 de janeiro de 2021; e
• Enem impresso: 2 e 9 de maio de 2021 / Enem Digital: 16 e 23 de maio de 2021.

No entanto, a maior revolta dos alunos foi o MEC ter praticamente “ignorado” a data vencedora, pois, no dia 8 de julho, o MEC divulgou que as provas aconteceriam em janeiro de 2021.

Vários influenciadores e professores são contra a data, levantando a questão da falta de transparência por meio do MEC e a exposição que os alunos estarão correndo nos dias das provas enquanto à Covid-19.

Débora Aladim, por exemplo, influenciadora e que faz vídeos sobre o Enem onde dá dicas e estudos no seu canal do YouTube, veio por meio de suas redes sociais nesta terça-feira (5), se posicionar sobre a pauta em questão.

Netwise

“Sempre fui e continuo sendo a favor do adiamento do Enem, mas estou em uma situação complicada porque eu, Débora, como pessoa, sempre vou ser a favor do adiamento por mil motivos. Entre eles, não é seguro fazer a prova agora, não tem ninguém vacinado no Brasil, cinco horas e meia presa numa sala de aula com outras pessoas, eles não explicaram sobre as medidas de segurança, não explicaram se você pegar coronavírus no dia da prova ou entre uma prova e outra… Enfim. Não preciso nem explicar. Mas o problema é que faltam 12 dias para o Enem, as 5 milhões de provas já estão impressas e indo para os locais de prova; a burocracia já foi feita. E não faltava para ‘os caras’ sinais de que 1: não é seguro fazer a prova e 2: os alunos querem o adiamento da prova. O ‘inferno’ daquela votação em junho venceu maio e eles simplesmente ignoraram. Então, se ignoraram por tantos meses, ignorarem por mais 12 dias é balela. E é por isso que eu estou divida. Eu sempre vou ser a favor do adiamento da prova enquanto pessoa, mas enquanto professora e influenciadora, eu não posso dar esperanças de uma coisa que tem chances ínfimas de acontecer, porque é a realidade. Então, o meio que eu encontro é: vamos usar hastag do adiamento do Enem, dar visibilidade pra essa causa porque o certo seria adiar, é a vontade do povo e é o mínimo que a população merece pra continuar vivia; entretanto, como professora, eu recomendo vocês a continuarem estudando caso a prova mantenha a data que é o que provavelmente vai acontecer”, se manifestou a influenciadora por meio dos stories no Instagram, que serão excluídos após 24h.

Em conversa com o Jornal Cidade, o aluno Gabriel Rodrigues Miranda, que vai fazer a prova, conta que não acha certo a data da aplicação do exame. “As mortes por Covid-19 vem aumentando a cada dia, colocando em risco os estudantes que vão fazer a prova. Além disso, as aulas online não preparam bem o aluno como a presencial, e fazer a prova em janeiro iria prejudicar principalmente os estudantes que não tem acesso as aulas, visto que não vão estar preparados adequadamente. Eu estudei para o Enem por meio de vídeo aulas no YouTube e alguns livros da escola. Estudar para o Enem durante uma pandemia é algo que chega a dar medo, porque não sei se aprendi tudo que eu poderia aprender em uma aula presencial, também fico apreensivo de fazer prova em uma sala fechada com vários estudantes”.

Gabriel finalizou dizendo que acha “uma falta de consideração da parte deles, porque estão ignorando a opinião de vários estudantes e colocando em risco seu futuro”.

O JC também entrou em contato com o professor e diretor Roberto Wagner, que lida com alunos da rede pública de ensino. Ele contou que é inegável a perda pedagógica. “Foi um ano morto a carga pedagógica, praticamente. No entanto, é o que qualquer rede do mundo inteiro tinha a oferecer, pois, primeiro a gente tinha que pensar em vidas, para depois a gente dar seguimento a outras partes, como economia, educação, entre outras. Então a gente fala que a educação que foi administrada nesse ano de 2020 , foi aquela apenas para não deixar quebrar o vínculo que já é comprovado por muitos cientistas, políticos e educadores, que quando há a quebra de um vínculo por um longo prazo, o prejuízo é ainda maior. Portanto, especificamente para os alunos do 3º ano que estarão prestando a prova do Enem em alguns dias, a perda é muito grande mesmo, principalmente para a rede pública, apesar de a rede particular não sair tão à frente, porque nada se compara à aula presencial diariamente. No entanto, eu como educador e na área de gestão, gosto muito de abrir o olhar desse alunos para um segmento diferente. Hoje a gente vive em uma sociedade muito vitimista: ‘Ah, estou na pandemia’, ‘Estou no 3º ano e não teve aula’, ‘Vou ficar prjudicado’, e é isso e aquilo… Eu falo diferente, eu falo que é na crise que nasce os grandes profissionais, as grandes empresas, os grandes líderes. Porque aquilo que não te derruba te deixa mais forte. Então é o que eu falei com eles durante todo esse perídio: aquele aluno, mesmo na diversidade desse ano, que correu atrás, estudava, pagou cursinho que tinha condições, assistiu aulas no YouTube que não tinha, procurou o professor no privado, mandava mensagem, ligava, tirava dúvida… Ou seja, quem não ficou estático a esse ano, esse aluno sairá na frente. E eu acredito que depois desse ano, esses alunos que não se entregaram ou se vitimizaram a esse ano ímpar, ele vai se sobressair. Agora, é inegável que na porcentagem geral, o prejuízo chega a ser incalculável, ele chega a ser imensurável”, contou.

Sobre as datas da prova, o professor disse que quanto mais postergar a data, melhor. “É uma situação que a gente não consegue prever o dia de amanhã. Quando a gente acha que está vencendo ela, que está diminuindo o contágio, de repente tudo se muda. Porque é uma doença que depende muito do comportamental do ser humano, ou seja, mesmo com todos os cuidados médicos e restrições, se o comportamento social não andar junto, não tem jeito. Portanto, seria melhor adiar? Seria! Mas quem garante que maio estará melhor? Pode ser que esteja pior que hoje. Uma data segura seria apenas depois que 100% da população estivesse vacinada, mas enquanto isso, o jeito é tentar fazer a prova dentro de todos os protocolos de enfrentamento à Covid-19. Se todo mundo respeitar, eu acho que dá pra realizar sem muito problema. Mas isso eu estou falando como morador do cenário de cidade do interior, quem já é de grande centro tem a questão da locomoção que pode aumentar, por exemplo. Mas falar que agora é uma data certa ou errada seria uma ignorância da minha parte, porque tem muitas variáveis”, finalizou Roberto.

A professora de história, Wanessa Carvalho, falou sobre a dificuldade daqueles que não tiveram acesso a nenhum conteúdo durante a pandemia,

“Se considerarmos a parcela dos alunos que fazem cursinho, ótimo, podemos dizer que estão preparados em relação aos conteúdos. Mas psicologicamente estão? Será realmente seguro a realização da prova? Mas além dessas questões, precisamos considerar que grande parte dos alunos ficaram sem acesso a nenhum conteúdo durante toda a pandemia, ou tiveram acesso a conteúdos de forma extremamente precária apenas para cumprir tabela. A realização dessa prova tão importante no meio de uma pandemia apenas agravará o quadro de desigualdade no acesso ao ensino superior, além de colocar milhões de alunos em risco”, contou.

O professor Ricardo Costa, diretor do Centro Educacional Tutores de Lagoa da Prata, disse ao JC que sua maior preocupação é com os alunos, que estão muito tensos por causa de um ano difícil para os vestibulandos.

“Na próxima semana então teremos o Enem, o vestibular mais aguardado do Brasil, digamos assim. A grande dica que eu dou para todos é que continuem estudando, façam bastante exercícios. Então quero desejar a todos boa prova e sucesso no exame”, disse ele.

Os locais de prova foram divulgados neste terça-feira (5) na Página do Participante. A recomendação do Inep é que os alunos levem o cartão de confirmação impresso nos dias de aplicação das provas, apesar de não ser obrigatório. O documento traz registros sobre atendimento especializado e tratamento pelo nome social dos estudantes.

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