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A história vai virando pó após derrubada de prédio e casarão de Lagoa da Prata

“Eles são referência do local, um município com memória é melhor, que [um] sem coisas para contar e mostrar”, disse o arquiteto Lalinho.

Rhaiane Carvalho


Novas construções e loteamentos vão dando lugar às antigas obras de Lagoa da Prata, como é o caso da demolição da Galeria Paris e do Casarão da Estiva. Aos poucos, a história vai virando pó com demolições de locais tidos pela população como históricos.

O abandono de edifícios antigos é uma realidade em várias partes do mundo e uma das causas da perda de parte do patrimônio histórico, mesmo daquele que passou pelo processo de tombamento e que em tese deveria ser preservado para o interesse maior da comunidade à qual pertence. Mesmo em países nos quais existem leis mais rígidas para preservação do patrimônio isso acontece com maior frequência do que se imagina.  No Brasil, também vivemos o drama de perder a cada dia nosso patrimônio arquitetônico. Em todas as regiões do país, construções históricas estão sendo demolidas devido ao abandono por parte de seus donos ou mesmo pela negligência do poder público. Preservar pode ser o caminho mais difícil, mas pode significar uma forma de empreendedorismo por parte da iniciativa privada e de tomada de consciência por parte da comunidade, que reconhece em um edifício, um chafariz, uma ponte ou mesmo uma praça, algo que remeta às suas memórias coletivas e individuais. Em tempos de pensamento neoliberal, torna-se difícil argumentar em prol da preservação. Para quem acredita que tudo deve ser tratado como uma empresa, enxergar o “lucro” em um centro cultural ou em um museu pode ser difícil, enquanto demolir e capitalizar o terreno, muito tentador, conforme explica a mestra em história, Natania Nogueira.

A reportagem do Jornal Cidade conversou com o arquiteto Carlos Brasil Guadalupe, o Lalinho, que nos contou da história desses patrimônios e suas importâncias.

Segundo Lalinho, muito da cultura está se perdendo com essas demolições, que acontecem há tempos. “Nossos antigos casarões estão sendo demolidos ou destruídos um a um. O mais antigo era a casa da Furquilha, construída em 1820 pela família Bernardes, e foi demolida pelos herdeiros do Luciano em 2000. A outra casa construída em 1840, também pelos Bernardes, foi demolida em junho de 2021. O museu foi residência do coronel Carlos Bernardes e foi construído por ele em 1875, onde viveu até 1900 e sua viúva, dona Alexandrina, até 1930. Foi demolido em 2005 e reerguido sem miolo em 2006 – está abandonado desde então. A casa do Rodolfo Bernardes, irmão da dona Alexandrina, foi construída em 1890. Hoje está lá e é a mais preservada e pertence ao José Maurício Maciel”.

Ele ainda acrescentou que o que torna a recuperação desses locais inviável é a falta de interesse justamente pelo alto custo. “A primeira casa construída sem tijolos foi a casa do Juca Lobato, em 1916, e a segunda foi a do senhor Modesto Gomes na Praça da Matriz, em 1918. Passou por vários proprietários até que em 2021 foi demolida, onde surgirá um edifício moderno. Os proprietários que demoliram não estavam a fim de gastar com um imóvel obsoleto, onde a restauração é muito cara. O Governo Municipal também nunca teve interesse, justamente pelo custo. O povo de Lagoa da Prata quer que pelo menos o museu seja preservado, mas nem isso parece ser viável. O tombamento é um processo que proprietários não querem. Os nossos prédios antigos não são tão expressivos arquitetonicamente. Temos aqui no município algumas obras de maior valor histórico e arquitetônico, como a ponte de ferro do Rio São Francisco, que é uma que merece ser reformada, e do jeito que está abandonada, vai cair. Outras obras são o grupo escolar Jacinto Campos, a caixa d’água na Rua Cirilo Maciel e alguns túmulos no cemitério da Saudade, no Centro da cidade”.

De acordo com Lalinho, a comunidade que preserva seus prédios antigos tem mais história para contar e isso significa mais cultura.

“Eles são referência do local, um município com memória é melhor, que [um] sem coisas para contar e mostrar”.

Casarão da Estiva

Construído em 1840 por José Carlos Bernardes, irmão de Francisco Bernardes, sogro do fundador, o estilo do casarão era colonial português, com muitas janelas verticais, paredes internas e externas de pau-a-pique e porão muito baixo (aproximadamente 10 centímetros), seu pé direito de quatro metros, piso de tábuas, estrutura de madeira e telhado em quadro águas, com telhas de barro. As janelas eram de duas bandeiras pivotantes de tábuas e sem vidros; seu reboco era de cal, areia e esterco fresco. A pintura era caiação nas paredes e anil nas madeiras, já os forros eram de esteiras de bambu.

O local ficou conhecido como Casarão da Estiva, que quer dizer “travessia de alagadiços”, em taras ou tábuas, com ou sem amarrios, por estar próximo da estiva que ali existia.

O casarão foi herdado por dona Chiquinha, filha de José Carlos Bernardes, mãe de Carlos Gandra (pai do senhor Fazinho). Senhor Fazinho faleceu em 1963, deixando a casa para a senhora Ilse, sua filha, casada com Carlinhos Jacó. O último a morar no local foi um funcionário do casal. Por não se encontrar em bom estado de conservação, com paredes fora do prumo e piso empenado, foi totalmente demolido neste último mês de junho.

Galeria Paris

Também demolida neste ano de 2021, a Galeria Paris levou consigo parte da história de Lagoa da Prata. Antigamente, o prédio da galeria era uma clínica médica, a “Clínica Santa Eugênia” e depois passou a ser a Galeria Paris, onde as salas se tornaram escritórios de advocacia. O imóvel ficava no Centro da cidade, em frente à Praça da Matriz de São Carlos Borromeu.

 

O que diz a secretaria de Cultura e Turismo sobre as demolições

Segundo Daniel Ribeiro Melo, secretário de Cultura e Turismo de Lagoa da Prata, “o que foi apurado pelo Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (CMPPHAC), o imóvel da ‘Galeria Paris’ constava na lista de bens culturais inventariados pelo Patrimônio, mas que não impede que o mesmo seja demolido. É necessário que o CMPPHAC, juntamente com demais órgãos do município elaborem regras, legislação e aparatos para dar segurança às ações. Lembrando que a fachada do imóvel da Galeria Paris já havia sido modificada em outros tempos, perdendo assim as características originais.
No caso do ‘Casarão da Estiva’, se tratava do imóvel mais antigo da cidade. Agora em ruínas. No início de nossa gestão tomamos conhecimento da importância do Casarão da Estiva, onde começamos levantamento para identificar quem era o proprietário. Foi formada uma comissão para levar ao conhecimento dos donos a importância do imóvel, sua relevância para a história e memória dos munícipes e que o mesmo gera pontos no ICMS Cultural. Ficamos aguardando a resposta dos proprietários para uma visita técnica ao casarão, tirar fotos e conhecer o interior do imóvel. Após duas semanas do nosso contato, o casarão foi demolido”.

Ele ainda falou sobre a comoção que às vezes a demolição de algum prédio histórico pode causar na população e o seu impacto.

“Acredito que por Lagoa da Prata ser considerada uma cidade progressista, sua parte histórica fica meio que esquecida, sem ter apelo pela grande maioria. A comoção não acontece somente pelos mais novos; muitas pessoas me relataram o fato, me mostrando imagens e fazendo questionamentos. Penso que o jovem que é consciente de onde vive, que observa a cidade com ‘olhar histórico’, e que muitas das vezes conhece a importância desses locais, vão ficar afetados por esses ocorridos”.

O secretário também falou sobre o papel da Prefeitura diante desses casarões. “Os papéis são muitos, não somente da Prefeitura. Hoje temos um Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural cada dia mais atuante, buscando estruturar ações que fomentem a Educação Patrimonial. Estamos elaborando uma cartilha para trabalhar nas escolas municipais, assim que a pandemia da covid seja controlada; trabalhar a educação patrimonial também com a população, seja por meios impressos e meios virtuais. Lembrando que não temos apenas imóveis como bens reconhecidos como bens culturais. Existem peças, sítios arqueológicos; existem os bens imateriais como os contadores de histórias, festas e imagens religiosas e nossa Lira São Carlos. A ideia é reestruturar e atualizar a lista dos bens inventariados e tombados, dando ampla divulgação para as pessoas da cidade e os turistas possam conhecer esses bens”, explicou.

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