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A cultura que resiste

Mais que um auxílio financeiro, Lei Aldir Blanc foi um suspiro de alívio para os artistas lagopratenses durante o período mais crítico da pandemia.

João Alves


Comida, diversão e arte: para a famosa composição da banda paulista Titãs, essa tríade representa aquilo que é fundamental para a sobrevivência humana. Não basta o corpo funcionar “direito” – coisa que, por si só, foi bastante comprometida pela situação de miséria agravada pela pandemia. É necessário, também, proporcionar o alimento para a alma, sem o qual a vida passa despercebida. Se tratando de uma cidade, o “alimento” de que falamos pode muito bem ser entendido como a cultura local – um exemplo de memória viva – e as manifestações artísticas que identificam determinado lugar como único no mundo todo.

Com a chegada nada bem-vinda da covid-19, e com ela uma série de medidas restritivas, a cultura foi, sem dúvidas, um dos setores mais atingidos. O resultado foi uma derrota dupla: o público ficou sem diversão e arte, e os artistas locais, sem comida. Foi a partir deste contexto que surgiu a Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural, determinando o repasse de verba aos municípios para o apoio ao setor cultural e ao custeio de renda mensal para os trabalhadores da cultura. O primeiro edital da Aldir Blanc em Lagoa da Prata foi aberto no final de 2020 e representou um suspiro de alívio para os artistas e trabalhadores da cultura da cidade. Em uma notícia publicada à época pelo site da Prefeitura, Renato Rodrigues Lima, mestre de capoeira e um dos beneficiados, comentou que a pandemia o obrigou a fechar a sua escola. “No início eu me vi completamente perdido. Pagava o aluguel da escola e precisei entregar o imóvel. Finalmente, fui um dos contemplados e o dinheiro já está em nossa conta. Reabrirei a escola e voltaremos a caminhar”.

 

Me adaptei e me aventurei a  fazer arte na rua: arte que encanta”

 

Micheli Gonçalves, artista plástica há mais de 20 anos, contou ao Jornal Cidade que ser beneficiada pela Lei Aldir Blanc foi decisivo para a sua carreira, especialmente durante o período mais crítico da pandemia. Segunda ela, por conta do coronavírus, suas atividades foram interrompidas, já que trabalhava com cartazes para encontros e aulas de artesanato. Foi então que a artista decidiu participar do processo de seleção para receber o auxílio. Depois de aprovada, Micheli começou a desenvolver diversos projetos de intervenção artística junto à prefeitura que, hoje, atraem olhares de admiração em toda cidade.

O primeiro foi a pintura de um “Bis” em um padrão de energia na Praça Capitão José Bahia. A obra foi um sucesso e o trabalho logo viralizou nas redes sociais da cidade. “O pessoal indo até lá fazer fotos e marcando o meu perfil foi uma alegria e um reconhecimento do meu trabalho”, comentou Micheli. Depois, foi a vez da pista de skate ganhar a marca alegre e criativa da artista, com a pintura de balões, uma casca de banana no chão, uma palmeira, uma amarelinha com efeito 3D e um painel com asas de borboletas pensado como um fundo para fotos. Partindo daí, Michele foi convidada para intervir em outros espaços da cidade, como na Escola Arnaldo Faria, no S.O.S., em bares locais e também na Arce, em uma parceria fechada com a Embaré. 

 


“Pra mim, enquanto artista, devo muito a Lei Aldir Blanc, pois graças a ela me adaptei e me aventurei a  fazer arte na rua: arte que encanta ,arte que alegra, arte que faz as pessoas sentirem que há um mundo colorido lá fora, depois de um tempo de tribulações e tristezas”, afirmou a artista plástica que, ainda, agradeceu a Deus, à Secretaria de Cultura, e a seus fiéis seguidores das redes sociais. Por  último, digo às pessoas  que não deixem de acreditar nos seus sonhos, mesmo quando tudo parece difícil. Se você faz de coração e com amor, um dia o reconhecimento chega. E chega fazendo um barulho enorme! Não há dinheiro no mundo que pague a maior alegria de um artista que é ter reconhecimento no seu trabalho.

Silas Cândido, grafiteiro, comentou que às vésperas da pandemia estava com três serviços agendados e uma viagem marcada para um evento na Bahia, nos quais investiu suas economias para a compra de materiais. Com a chegada da quarentena, contudo, ele ficou no prejuízo. O incentivo, neste caso, serviu para que o artista conseguisse se estabilizar em meio às dificuldades geradas pelo contexto atípico. 

 

Segunda etapa da Lei Aldir Blanc encerra submissões nesta sexta-feira (12)

 

A Secretaria de Cultura e Turismo lançou na sexta-feira (12), o edital para projetos culturais a serem custeados por meio de recursos advindos da Lei Aldir Blanc. As inscrições são abertas para artistas e produtores culturais e se encerram nesta sexta-feira. De acordo com informações da Prefeitura de Lagoa da Prata, percebeu-se a necessidade de uma segunda etapa do programa porque, na primeira etapa, ainda no ano de 2020, a gestão anterior não conseguiu destinar os valores totais para os artistas da cidade. 

Procurado pelo Jornal Cidade, o atual secretário da pasta, Daniel Ribeiro Melo, comentou sobre a importância da Lei Aldir Blanc para a cultura de Lagoa da Prata:

 “O recurso da Lei Aldir Blanc é de grande importância para fomentar atividades, ações e empreendimentos do meio Cultural, fortalecendo os trabalhadores e fazedores de Cultura do Município, em um momento em que os eventos e atividades culturais ainda estão retomando o ritmo de normalidade. Desde o início da gestão do Prefeito Di Gianne, a preocupação é fazer com que esse recurso seja distribuído aos trabalhadores e fazedores de Cultura, onde poderão investir em seus projetos, estruturas e atividades”.

Silas espera que esta segunda etapa do edital dê uma nova “alavancada” nas atividades culturais da cidade e seja, outra vez, um incentivo para os trabalhadores da cultura da cidade. Ele conta que o seu próximo projeto beneficiará diretamente cerca de 60 pessoas, e toda a comunidade de forma indireta. 

Mais informações sobre o edital e sobre o processo podem ser conferidas no site da Prefeitura de Lagoa da Prata.

A cultura é parte indissociável da cidade e, aceitando o risco de ser redundante com a introdução da matéria, é aquilo que alimenta o que ela tem de mais bonito e autêntico. Embora a pandemia dê sinais de que seus dias estão contados – e cá estamos de dedos cruzados por isso – não dá para ignorar que as suas mazelas ainda devem demorar para desaparecer por completo. Por isso, a fim de não deixar o “samba morrer”, ou qualquer outra manifestação artística, apoie os artistas da sua cidade. Incentive, acompanhe e, principalmente, reconheça os trabalhadores através dos quais a cultura resiste. 

 

 

 

 

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