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60 dias para o Enem: como estudantes de diferentes realidades sociais estão se preparando

Em tempos de pandemia, e com dificuldade ao acesso à Educação, os participantes enfrentam diferentes dificuldades perante suas realidades.

Rhaiane Carvalho

João Alves


O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2021 já está batendo na porta de muitos jovens e adultos que estão se preparando há meses para as provas, que acontecerão entre os dias 21 e 28 de novembro. Em tempos de pandemia, e com dificuldade ao acesso à Educação, os participantes enfrentam diferentes dificuldades perante suas realidades.

A reportagem do Jornal Cidade conversou com Isabela Barreto, de 17 anos, moradora da cidade de Arcos, e que possui algumas facilidades para focar nos estudos, o que não é a realidade de muita gente.

“Estudo em escola particular, sempre estudei. Apesar da pandemia ter tirado a gente de dentro da sala de aula, isso não me afetou, pois a minha escola é muito organizada e focada nos alunos, principalmente, naqueles que estão prestes a fazer o Enem e vestibulares. Também faço aulas on-line particulares, inclusive de inglês. Em minha casa, estudo no escritório, tenho meu notebook e acesso à uma biblioteca montada pelo irmão, que hoje é administrador de empresas. Acredito que me darei bem na prova, sim. Me preparei muito e com certeza ter algumas facilidades me propiciará benefícios na hora de fazer a prova”.

Distante da realidade de Isabela, está Carlos Roberto da Silva, também com 17 anos e morador de Arcos.

“Me sinto preso a isso porque muitas pessoas nos dizem ou tentam dizer que o Enem é como se fosse a prova da nossa vida. Dizem que se a gente não fizer o Enem, se a gente não tirar uma nota boa, a gente não vai ser ninguém na vida.  Mas como que eu, na minha condição de vida e privado de acessos vou ter isso tão facilmente? Vou fazer a prova na raça! Acredito muito que sou capaz, mas eu tenho dificuldades. Não tivemos aulas presenciais, as on-lines também não eram fáceis para eu assistir, pois a internet não é boa em casa, fora que tenho três irmão pequenos, eles brincam e fazem barulho o tempo todo. Eu não tenho um notebook, é no celular mesmo; não tenho um local para estudar, às vezes vou para o quintal, pois minha casa é pequena. Só que se eu consigo uma nota boa serei muito grato a Deus, pois foi por esforço mesmo, foi por acreditar que minha condição de vida impõe dificuldades, mas não me impede de chegar no mesmo lugar que o filho do rico”, disse emocionado.

Marina Casáquia, da cidade de Formiga, fará o Enem pela segunda vez e, apesar de ter acesso à Educação particular e toda estrutura para estudar, ainda sente que o país precisa evoluir muito.

“Tenho facilidades, o que não representa também se vou conseguir ir bem. Mas eu sinto através dos meus colegas que a realidade dos alunos da minha escola é muito diferente de muita gente. Tem pessoa que vai para a escola pra ter a chance de fazer uma única refeição; tem gente que dorme praticamente em tábua, então a minha pergunta é: Como que essas pessoas vão ter dinheiro pra pagar internet, comprar livros, pagar taxas de vestibular? Não é condizente aplicar um exame nesse momento em que tem quem tem acesso a tudo e outros nada; tem gente que não tem o que comer. É desumano!”, desabafou a estudante.

De acordo com Maria Clara Silva, que é de Lagoa da Prata e tem 17 anos, a pandemia trouxe e impôs muitas dificuldades, principalmente aos estudantes de escolas públicas.

“Desde o início da pandemia a readaptação foi muito complicada até porque sou estudante de escola pública e fiquei o segundo ano todo sem aula, nem mesmo remota. Fazíamos apenas atividades mesmo, e claro, sempre soube que isso não seria suficiente caso quisesse tirar boa nota no Enem. Por isso, no começo desse ano tive que entrar em um cursinho particular para que eu tivesse uma base melhor e, desde então, minha rotina de estudo se baseia em ver as aulas e revisar o conteúdo em casa. A pandemia com certeza afetou em todos os sentidos, tanto psicológico quanto a nível de aprendizado e produção. O cursinho, sem sombras de dúvidas, foi o que me ajudou mais. A partir do momento que eu não tinha minha parte da manhã ocupada com a escola, eu recorri a procurar um emprego, então, são várias coisas pra conciliar e acaba que meu único tempo pra estudar é a noite”.

Rozilda Vaz é vice-diretora da Escola Estadual Chico Rezende em Lagoa da Prata e pontuou que há um gigantesco esforço de professores e parte dos alunos para fazer o ensino caminhar, mas há dificuldades quando se fala em aulas remotas. “Observa -se que a falta de contato direto com o professor é mais um desafio a ser enfrentado pelos alunos que vão fazer o Enem. Então, diante dessa nova realidade, estão tendo que se inovar, juntamente com professores e toda equipe pedagógica. Os estudantes das escolas públicas contam com a plataforma Conexão Escola 2.0, que permite o contato virtual com os professores, que por sua vez se desdobram em enviar links com aulas gravadas ao vivo, são também submetidos a provas e simulados, além de ter disponível o Google meet, onde são oferecidas aulas de reforço, direto com o professor, no modo Live”.

A vice-diretora também listou diversos fatores que têm feito alunos desistirem do Enem e até mesmo de concluir os estudos.

“Mas infelizmente a maioria dos alunos se mostram apáticos e desmotivados, revelam ter dificuldades com aulas remotas, preferem a presencial, gerando então um grande despreparo, levando até mesmo a desistência da prova, ficando prejudicado ao ponto de desistir de continuar os estudos antes mesmo de concluir o ensino médio.  O que pode ser considerado o grande prejuízo do ensino remoto, que nos foi imposto drasticamente pela pandemia,  sem um planejamento prévio, onde deveria ser levado em conta, vários fatores tais como: estrutura digital das escolas, professores e alunos, e também o impacto psicossocial dos alunos de baixa renda, que são os mais afetados, pois uma grande porcentagem de jovens são desprovidos do acesso internet  e aos planos do próprio governo que disponibiliza as plataformas, mas ignora a realidade, ficando mais vez os alunos de baixa renda impossibilitado de ingressarem em uma universidade realizando seus sonhos de simplesmente saírem da margem e estatística da pobreza”.

O retrato da falta de acesso à Educação nas inscrições

Um levantamento realizado pela Semesp, entidade que representa as mantenedoras de ensino superior no Brasil, mostra uma queda de 77,4% no número de inscritos no Enem com renda mensal de até três salários mínimos, ou seja, de estudantes que tiveram a sua ‘declaração de carência’ aprovada pelo Ministério da Educação. Em números absolutos, a taxa representa 2,8 milhões de inscritos a menos do que na edição anterior do exame.

Também houve diminuição no número de estudantes com ‘inscrição gratuita’ que são aqueles que concluíram o Ensino Médio em escola pública ou são bolsistas integrais em escolas privadas. A queda foi de 20,8%, o que representa 239.577 inscritos a menos. No total, a prova será realizada por 3 milhões de estudantes pobres a menos. Por outro lado, houve aumento de 9,2% entre o número de estudantes que puderam pagar a taxa de inscrição, 387.977.

Um dos principais fatores que explicam ‘um Enem mais elitista’, segundo o Semesp, para além da crise da pandemia, foi o veto à gratuidade na prova praticado pelo ministro da Educação, Milton Ribeiro. O titular da pasta aplicou o veto, segundo ele, a quem ‘deu de ombros’ ao exame no ano passado, que foi realizado em janeiro de 2021, momento em que o país passava por um dos picos da pandemia, somando quase 30 mil mortos por covid-19. À época da prova, muitos estudantes deixaram de comparecer por medo da infecção ou foram impedidos de realizar o exame por encontrarem as salas lotadas. Segundo o Inep, 58% dos estudantes inscritos com isenção de taxa faltaram ao exame em 2021. O Semesp observa que o número de alunos que tinham isenção da taxa de inscrição do Enem 2020 e faltaram na prova, 2.780.947, é muito próximo da queda de inscritos no Enem 2021 com isenção por “declaração de carência aprovada”,  2.822.121.

Segundo o diretor da entidade, Rodrigo Capelato, esses dados apontam um desequilíbrio de oportunidades oferecidas aos estudantes de diferentes condições sociais que pretendiam realizar o exame, que acaba contribuindo para o aprofundamento da injustiça social e para o aumento da elitização no ensino superior.

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