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Certa vez meu pai contou-me uma história de um poço com água margosa, lá pelos lados de Iguatama. Disse-me que havia um terreno com árvores, quase mata, com cercas estragadas e uma casa abandonada. A cisterna lá estava, mas ninguém, absolutamente ninguém tirava água dali, apesar da facilidade, vez que os apetrechos próprios de cisterna ali estavam quase que intactos: balde, corda, o tronco entre duas forquilhas, esta banca, outro balde no chão para pegar a água, duas canecas de alumínio… Tudo ali.

Em Japaraíba, o Zé Dornas contou-me uma história quase que igual àquela que o meu pai contara há tantos anos atrás. A única diferença era que o poço ao invés de Iguatama, na história do Zé Dornas, era nas bandas de Santo Antonio do Monte, quase Pedra do Indaiá, nas proximidades da Fazenda do Monjolinho, ou Fazenda Pedra Alta.

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Na expansão da Usina Luciânia nos idos dos anos 50, todo e qualquer pedaço de terra era alvo de compra por parte do Coronel Luciano e a sua empresa. Qualquer pedaço de chão contíguo à plantação de cana recebia preço e grande empenho para a venda. A industrialização era crescente no país e todo empreendimento recebia muito apoio do governo.

Segundo contam os antigos, a pessoa acabava vendendo as propriedades (por bem ou por mal). De alguma forma, os donos eram convencidos a vender a terra, tentados pela oferta muito acima do mercado, pela promessa de trabalho para toda a família, seja a oferta de terra em outros lugares (que às vezes não se concretizava), seja pela ameaça e agressões mesmo. Tudo valia.

O senhor proprietário do pequeno sítio não cedeu a nenhuma  oferta da Usina. E pelo visto, o sítio ficava em uma posição muito apreciada, na entrada de duas grandes áreas de plantação de cana, com saída para uma estrada (MG), rodovia estadual, embora de terra, e ao lado um pequeno rio, ótimo para a empresa que de forma tímida, estava a se aventurar com irrigação.

Disseram que até o seu Osvaldo Damasceno esteve lá para conversar com o senhor, dono do sítio. Tomaram café, conversaram, riram bastante, mas não resolveram nada. Em vão.

As ofertas cresceram. As ameaças também. O sítio ficou cercado de plantação de cana. Quando ateavam fogo na cana antes da colheita, o pasto do sítio também se queimava. A criação (gado, cabra) por falta do que comer, ante a precariedade do ‘trato’ foi vendida. Os tratores jogavam veneno na cana e o vento espalhava aquilo para todos os lados.

A cana morria e os pastos ao redor, também.

Um dia, um dos tratoristas da Usina percebendo a casa com janelas abertas, portas abertas, há dias da mesma maneira, parou o seu trator e foi falar com o dono do sítio, buscando conhecer o que aconteceu.

Chamou na porteira, sem resposta. Resolveu entrar porteira adentro. Os passarinhos estavam mortos na gaiola. Uma pena. O papagaio por sorte devido a porta da gaiola ter ficado aberta, estava sobre o fogão de lenha alcançando os últimos grãos de arroz constantes numa grande panela.

O ambiente era sombrio, apesar da claridade que entrava pelas portas e janelas. Tristeza.

Encontrou o pobre homem morto, assentado em uma cadeira, com o rosto sobre a mesa, ante um prato quase vazio, contando apenas com um punhado pequeno de arroz, tomates secos, cebolas cortadas, já amareladas, e um suco ‘perdido’ de laranjinha em uma pequena jarra.

Sobre a mesa, escrito com feijões, estava a palavra “Coronel”…

Desde então, segundo dizem, a água da cisterna ficou “amargosa”.

Histórias que o povo conta…

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