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Valdir e Antônio Beba eram dois amigos inseparáveis, do peito. Daqueles que trabalhavam juntos, que se alegravam juntos, que tiveram filhos na mesma época, que namoraram na mesma época e casaram-se em cerimônia conjunta, comunitária.

Valdir teve dois filhos e uma menina, filha de uma amiga da esposa, foi morar com eles, visto que a situação da cunhada estava terrível. Os filhos eram bons, educados e trabalhadores. A menina era muito calada, obediente também. Ajudava em tudo na casa, apesar da pouca idade, 9 anos. O Valdir tratava bem a menina, já que os outros dois filhos estavam adultos, estavam namorando e um deles já estava a bem dizer, casado, visto ficar mais na casa da moça, na roça, do que na deles, aqui na cidade.

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O Antonio Beba também tinha os seus dois filhos já feitos, homens, e duas filhas, uma delas casada.

Tõe Beba se encontrava todos os dias com o Valdir para tomarem aquela cachacinha na venda do Seu Alcides na Modesto Gomes, antes de irem para a casa. Trabalharam na Fazenda do Alceu muitos anos e depois com o falecimento deste, entraram para a Usina Luciânia. O Tõe já estava quase aposentando. O Valdir ainda teria que trabalhar mais uns três ou quatro anos.

Contudo, o avanço da “cagibrina” obrigou os dois a sérios tratamentos de saúde, vez que o fígado e a vesícula começaram a dar sinais de cansaço. Estavam acusando o golpe, ou melhor, os golpes em anos seguidos de muita bebida.

O Valdir teve os reclames do álcool mais cedo que o Beba e tombou a passar mal, indo de três em três dias para a Santa Casa, tentar recobrar as forças. Depois de incansáveis litros de soro e várias tentativas de levar uma vida mais saudável, o Valdir teve que ser encostado do serviço. Ficou pior. Em casa, passou a beber, pouco é verdade, mas durante várias vezes por dia.

O Tõe Beba apesar de sentir a falta do amigo, continuou a sua labuta diária, pegando os caminhões da usina para ir trabalhar, sempre pensando em Valdir, visto a amizade próxima e o companheirismo dos dois.

Contou o Tõe que certo dia, indo à venda do Seu Alcides na Modesto Gomes, assentou na mesinha de madeira e que o Valdir chegou, tirando o chapéu assentando-se também num dos banquinhos de madeira. Com um semblante muito triste, grave, empurrou um dos copos de pinga para junto do Tõe.

Disse o Valdir que não carecia mais de bebida porque ele já estava de partida. O Tõe perguntou se ele ia viajar e o Valdir respondeu que sim… que iria para um lugar bem longe e que não mais veria o Tõe, nem ninguém… que iria partir.

O Tõe, já meio alto por causa das doses de cana, deu uma risada e falou que iria então beber duas seguidas, uma pra ele e outra para o amigo e assim o fez. Recobrando das caretas, jogando um pedaço de carne de porco de lata na boca, olhou severamente para o amigo, e entendeu tudo.

O Valdir disse ao Tõe que veio ali apenas para agradecer a amizade sincera, os anos de companheirismo e ajuda, e pedir um último favor, ao que o Tõe respondera que qualquer coisa que o amigo pedisse e tivesse ao alcance dele o faria. Valdir então disse que o amigo fizesse o derradeiro favor em cuidar da menina, sua enteada, que sempre lhe fazia os gostos, companhia… Que colocava a água para ‘quentar’ quando ele chegava do serviço; que panhava limões no fundo da horta para fazer-lhe suco fresquinho na hora do almoço; que a tudo obedecia, calada, com muito gosto. Que a menina merecia um cuidado o qual infelizmente ele não conseguiria atender.

O Tõe então lhe disse que se fosse por isso, que o amigo poderia ficar tranquilo e em paz, que ao pedido do amigo cumpriria com prazer a encomenda. O Valdir levantou-se, abraçou o companheiro de longa data, dando-lhe um longo e sentido abraço, dando rumo à venda do Zizico.

O Tõe pagou ao Luis Galdêncio os copos de aguardente, agradeceu e também rumou para casa, indo porém para a venda do Zé Leiteiro fazer contato com a mulher que lá se encontrava, com afazeres de uma procissão a ser realizada no fim de semana.

Quando chegou na venda do Zé Leiteiro, a mulher, também sentida e com medo da reação do Tõe, pediu-lhe que se sentasse pois a notícia não era boa. Ele se sentou e pediu pressa a mulher, visto que não gostava de aguardar nada, pois ficava exasperado.

A mulher então contou que pela manhã a esposa do Valdir veio acudir em sua casa, visto que o esposo e amigo dileto dele estava a passar mal, muito mal. A mulher do Tõe disse que ele já havia saído para o serviço e pegado o caminhão da Usina para ir trabalhar, mas que ia com ela atrás de alguém que pudesse socorrer o Valdir.

Encontraram com o Urias nas imediações da casa da dona Luquinha. Levaram o Valdir pra Santa Casa, mas este já chegou no hospital ofegante e sem forças. Mesmo com a chegada do Doutor Carlos, ele não resistiu e faleceu.

O Tõe tomou um susto! Pegando a mulher pelos braços perguntou que horas que tinha sido o fato, respondendo ela que fora logo pela manhã, depois de 5 e meia, mas não era 6 horas. O Tõe deu murros na parede, chutou o vento, falou uma dúzia de palavrões e depois ficou mudo… Só o Luís podia confirmar que ele conversara com o Valdir.

Voltou para a venda do Seu Alcides, o Luís lá se encontrava. Perguntou ao Luís, tentando confirmar se o Valdir estivera lá com ele, ao que o Luis respondeu que não se lembrava do Valdir junto do Tõe não, mas se lembrava do Tõe assentar na mesinha de madeira que tinha ao lado da venda do Seu Alcides, na beirada do muro. Lembrava também que a caninha amarela lá estava já aberta por sobre a mesa feita de mourões de trilho de trem de ferro; que viu o Tõe na mesa, mas não viu mais ninguém.

O Tõe ficou branco, como cera… Não podia contar a ninguém, visto que ninguém acreditaria nele. Foi ao velório do amigo. Ficou olhando para ele como se tivessem feito uma traquinagem, com um sorriso num canto da boca.

Nunca mais bebeu… Parou de beber naquele dia. A menina, como prometido ao amigo, teve o cuidado do padrinho Tõe por toda a vida. Ela casou-se em Formiga, depois dos estudos e foi para Campinas onde reside com os filhos, com a família.

Tõe disse que estava muito feliz, visto que ela sempre mandava notícias e nessa data presenteou-lhe com um celular moderno, caro, que era pra eles conversarem, sem o Tõe precisar pedir favor de ninguém.

Aproveitando a tarde fria de hoje, disse que apenas eu acreditaria nessa história dele, nem que seja por interesse de conta-la no jornal.

Eu agradeci o café e a história. Mais uma de muitas histórias que o povo conta…

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